Cooperação é palavra-chave para alavancar impacto do investimento social
O BISC 2025 mostra que o futuro do investimento social corporativo depende da capacidade de unir empresas, governos e sociedade civil em torno de desafios comuns

A 18ª edição da Pesquisa BISC aponta que o investimento social corporativo só atinge seu pleno potencial quando é capaz de gerar cooperação entre os diferentes setores. Nesse contexto de amadurecimento e busca por maior impacto, o ISC se torna cada vez menos uma ação isolada e cada vez mais uma estratégia de articulação – baseada em dados, diálogo e visão de longo prazo.
Essa evolução no modelo de atuação não acontece por acaso. O avanço do ISC no Brasil vem acompanhado de uma crescente profissionalização das práticas empresariais e da busca por evidências que orientem decisões e parcerias mais eficazes. À medida que o campo se consolida, as empresas percebem que o impacto social não depende apenas do volume investido, mas da capacidade de construir pontes – entre setores, agendas e territórios.
Assim, o BISC desponta como uma plataforma de diálogo, oferecendo dados comparáveis para fomentar o aprendizado coletivo e criar um espaço onde lideranças de diferentes origens podem enxergar objetivos comuns. É justamente essa função articuladora que Cloves Carvalho, consultor e conselheiro independente, aponta como um dos grandes diferenciais do BISC. Ao reunir evidências e promover uma rede de trocas entre empresas, governos e organizações da sociedade civil, a pesquisa contribui para a construção de uma linguagem comum e de uma base sólida de cooperação entre os setores.
“Um dos grandes desafios do investimento social é justamente conseguir articular o setor público, o privado e a sociedade civil. E, para isso, é preciso ter dados. O BISC é, hoje, a maior referência que temos para fortalecer essa base de relação”, destaca Cloves.
Ele acrescenta ainda que a pesquisa vem se consolidando como a principal fonte de dados comparativos sobre investimento social corporativo no país, tornando-se uma ferramenta de gestão do conhecimento que orienta estratégias, decisões e parcerias interinstitucionais com base em evidências.
Dados que conectam e impulsionam colaboração
Os números do BISC 2025 destacam que o ISC no Brasil atingiu a marca histórica de R$ 6,2 bilhões, consolidando um patamar superior ao período pré-pandemia. Mas o dado mais importante não está apenas no volume de recursos, e sim no modo como eles vêm sendo aplicados.
A pesquisa revela que 77% das empresas da Rede BISC já atuam em modelos de coinvestimento ou coalizões, impulsionadas por causas comuns (56%) e por territórios compartilhados (19%). Essa evolução mostra que o ISC começa a enxergar as parcerias como um multiplicador de resultados – tanto para a sociedade quanto para os próprios negócios.

Do investimento isolado à colaboração estruturada
Para Tatiana Montório, coordenadora de Investimento Social Privado do Instituto Rumo, o amadurecimento do investimento social corporativo passa por reconhecer o papel das empresas na construção de soluções de longo prazo. Ela destaca que o desafio está em alinhar propósitos e práticas, garantindo que cada iniciativa dialogue com uma visão mais ampla de transformação social.
Segundo ela, esse amadurecimento exige também uma mudança de mentalidade dentro das próprias organizações. O investimento social precisa ser planejado com o mesmo rigor e visão estratégica das demais áreas do negócio, conectando impacto social a valor corporativo. Quando essa integração acontece, o investimento social deixa de ser apenas uma ação filantrópica e se torna um componente essencial da estratégia empresarial – orientando decisões, fortalecendo parcerias e ampliando o impacto nos territórios.
Tatiana defende que o investimento social precisa operar em duas frentes complementares. A primeira é interna, conectando o ISC à estratégia do negócio e às suas áreas-chave – sustentabilidade, governança, compliance, saúde e bem-estar. A segunda é externa, voltada à construção de agendas amplas e coletivas com outros setores e atores territoriais.
“Quando a gente senta junto – empresas, governos, organizações da sociedade civil – e define desafios comuns, olhando para 2030, para 2040, conseguimos sair do discurso e construir uma transformação real nos territórios”, afirma.
Essa visão tem se materializado em coalizões temáticas e territoriais que buscam dar escala a desafios complexos – como adaptação climática, resiliência urbana e inclusão produtiva. Para Tatiana, o momento é de avançar da intenção à prática, criando agendas estruturadas de transformação que transcendam o curto prazo e construam legados duradouros.
Territórios como ponto de convergência
O território é o espaço onde essa articulação se materializa. Pela primeira vez, o BISC mapeou a capilaridade do ISC no país e identificou que a Rede BISC está presente em 4.178 municípios, o equivalente a 75% das cidades brasileiras. Essa abrangência demonstra o alcance das iniciativas privadas, mas também evidencia um desafio: em 80% desses municípios, há atuação de apenas uma empresa, o que pode significar ações pontuais e de impacto restrito.
Por outro lado, para pelo menos 20% dos municípios brasileiros, há presença compartilhada da ação social de diferentes empresas, revelando potencial de impacto em escala. É nesse contexto que o olhar do gestor público se torna decisivo para dar escala e coerência a essas ações. Pedro Neves, secretário executivo de Mobilidade e Infraestrutura de Pernambuco, destaca que a aproximação entre governos e empresas tem favorecido a construção de políticas mais alinhadas às vocações regionais e às necessidades das comunidades.
Segundo ele, quando os investimentos públicos e privados se conectam, o potencial de transformação cresce de forma exponencial. “As agências públicas, muitas vezes, atuam isoladamente. Mas, quando percebem que há investimentos similares sendo feitos pelo setor privado, podem somar esforços e ampliar a escala do impacto social”, observa.
Para o secretário, fortalecer esse diálogo é fundamental para transformar o investimento social em uma estratégia de desenvolvimento territorial, capaz de gerar resultados sustentáveis e duradouros.
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