BISC Investimento Social Corporativo | 24/06/2025

Investimento Social Corporativo: caminhos para gerar impacto coletivo e sustentável no Brasil

Especialistas da Rede BISC abordam pontos cruciais para a ampliação do impacto social das empresas

Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, o Brasil ainda convive com profundas desigualdades sociais e regionais. De um lado, o setor público enfrenta desafios históricos na oferta de serviços básicos com qualidade e equidade; de outro, a sociedade civil e o setor privado têm buscado ocupar espaços estratégicos para impulsionar transformações sociais duradouras.

Nesse cenário, o investimento social corporativo (ISC) tem ganhado papel de destaque e tem se consolidado como um instrumento de fortalecimento da cidadania, redução de desigualdades e apoio à formulação de políticas públicas mais eficazes. Quando bem estruturado, o ISC pode funcionar como uma ponte entre os interesses das empresas, as necessidades das comunidades e os objetivos do desenvolvimento sustentável.

“O papel do investimento social é contribuir. Contribuir para políticas públicas e para a redução das desigualdades”, afirma Camila Valverde, diretora executiva da Fundação ArcelorMittal, integrante da Rede BISC. “Para que o nosso país tenha maior justiça social e desenvolvimento, o investimento social tem uma parcela importante nesse ecossistema. Sem investimento social, acho que fica mais difícil ainda”. 

Fabiana Prianti, head da B3 Social, complementa: “O investimento social corporativo tem um papel central no enfrentamento das desigualdades e no fortalecimento do sistema [de proteção social e das políticas públicas no Brasil]. Em especial, quando nós pensamos e atuamos em redes, como essa proporcionada pelo BISC, conseguimos potencializar os nossos esforços e recursos”.

Desafios para manter estratégias de longo prazo

Embora o investimento social corporativo esteja cada vez mais presente na agenda estratégica das empresas, sua consolidação como uma política estruturada de longo prazo ainda enfrenta obstáculos. Em especial, quando crises econômicas impõem cortes orçamentários, as iniciativas sociais costumam ser uma das expostas a interrupções – revelando uma fragilidade que compromete a continuidade dos projetos.

Fabiana Prianti argumenta que contextos de dificuldade de conectar as ações sociais ao core business da empresa resultam diretamente na instabilidade de seu financiamento. Enquanto o ISC não for considerado parte integrante da identidade e dos objetivos institucionais das empresas, a agenda permanecerá vulnerável. A consequência, alerta ela, é uma atuação social que perde força ou é interrompida diante de crises econômicas, deixando a sociedade desassistida quando seu apoio é mais importante.

Camila Valverde acrescenta que a efetividade do investimento social depende de sua capacidade de compreender o território e de atuar em articulação com outros atores. “No campo do investimento social, nada é feito sozinho. Ele precisa entender o território, as demandas sociais e estar conectado aos pares e players de mercado”, afirma.

Essa sinergia – entre empresas, organizações do terceiro setor, poder público e comunidades – é fundamental para que o investimento tenha impacto real e duradouro. E redes como o BISC têm um papel relevante nesse processo. “O BISC realiza esse papel de nos dar referência do que está sendo praticado, de criar conexões para que o aprendizado e as estratégias sejam melhor definidas”, completa Camila.

A conexão entre ISC e políticas públicas

Crianças em curso de robótica. Crédito da Imagem: Divulgação/Fundação ArcelorMittal

Um dos caminhos mais potentes para que o ISC atinja escala e impacto sistêmico é o seu alinhamento com políticas públicas. Mais do que uma oportunidade, esse alinhamento é essencial para que as ações sociais se integrem a estratégias estruturantes de desenvolvimento social e produzam impacto social positivo em escala.

Camila Valverde reforça que esse alinhamento não acontece de forma automática, é preciso intencionalidade e estratégia por parte das empresas. “A conexão se dá quando as organizações que trabalham com investimento social estão conectadas e têm mapeado seus stakeholders dentro do poder público, seja municipal, estadual ou federal. É preciso refletir como caminhar junto, fortalecer as iniciativas, explorar sinergias e promover valor compartilhado entre o público e o privado. Mas é uma busca, um movimento que precisa acontecer – ele não é tão natural”, afirma.

Essa aproximação entre setor privado e governo exige disposição para o diálogo, compreensão das prioridades públicas e clareza sobre onde os objetivos convergem. Quando isso ocorre, o ISC deixa de atuar de forma isolada e passa a funcionar como um vetor de aceleração e inovação nas políticas públicas. Em vez de suprir lacunas de maneira paliativa, ele fortalece soluções que podem ser institucionalizadas e multiplicadas.

Fabiana vai além e defende que o alinhamento com o setor público é um indicativo de evolução no próprio modo de atuação das empresas. “É extremamente importante que o ISC se alinhe a políticas públicas. Isso faz parte de um movimento de inovação e de maturidade –  e evita que fiquemos apenas ‘enxugando gelo’”, afirma.

Quando as empresas buscam essa convergência, o setor privado passa a atuar em parceria com o Estado na superação de desafios sociais complexos, contribuindo com inovação e recursos flexíveis. “A partir do momento em que nos alinhamos, conseguimos entender os desafios que a sociedade enfrenta e como o governo está se articulando. Essa junção de forças permite apoiar iniciativas escaláveis, metodologias testadas, e deixar um legado sistêmico”, completa Fabiana.

A partir disso, surgem novas oportunidades de articulação. Entre elas, destaca-se a atuação em rede como um dos pilares para expandir o impacto e a eficiência do investimento social.

A força da atuação em rede

Ação de apoio à cozinha solidária. Crédito da Imagem: Divulgação/B3 Social

Para potencializar o impacto do ISC e racionalizar recursos, a atuação em rede vem despontando cada vez mais como uma estratégia primordial. Ambas as entrevistadas apontam que as parcerias são um pilar fundamental para o fortalecimento do setor, justamente por evitar a pulverização de esforços e a sobreposição de iniciativas.

Fabiana destaca como o trabalho em rede colabora para a qualificação das ações. “A troca de experiências, a produção de conhecimento, o benchmark, a possibilidade de atuação conjunta a partir de objetivos comuns – tudo isso contribui para maior eficácia e eficiência das iniciativas”. Além de compartilhar boas práticas, as redes oferecem um espaço de cocriação, onde organizações aprendem juntas, testam soluções e ganham escala por meio da complementaridade de expertises e recursos.

Esse tipo de articulação também favorece respostas mais rápidas e coordenadas diante de emergências. “No ano passado, fizemos uma campanha em colaboração com o Instituto Ultra, que nasceu dentro da rede BISC, beneficiando o município de Canoas, no Rio Grande do Sul, juntamente com o Santander. Os benefícios foram diversos”, relembra Fabiana. O exemplo evidencia como a mobilização coletiva pode acelerar intervenções em situações críticas, unindo forças que, sozinhas, teriam alcance mais limitado.

Articulações em rede elevam o patamar do investimento social ao funcionarem como plataformas estratégicas de advocacy e governança colaborativa. Ao conectar organizações, produzir conhecimento setorial e amplificar a voz coletiva do ISC, elas transformam iniciativas dispersas em agendas alinhadas, potencializando tanto o impacto quanto a legitimidade das ações perante o poder público e a sociedade.

Além de respostas emergenciais, as redes de articulação também têm a capacidade de influenciar agendas públicas, qualificar o debate e construir soluções mais estruturantes. Esse dinamismo ajuda a explicar por que o setor está em plena transformação.

Um setor em constante mudança

O campo do investimento social corporativo no Brasil não é estático, ele se reinventa conforme o país enfrenta novos desafios e amadurece em sua resposta a problemas estruturais. Para Camila, esse movimento é cíclico e revela uma capacidade de adaptação fundamental para a relevância do setor. “O ISC percorreu várias fases ao longo das décadas. Quando o Brasil estava no mapa da fome, esse era um foco relevante. Agora vivemos um despertar importante para a equidade racial. As empresas têm dedicado atenção ao enfrentamento da desigualdade racial, e o investimento social precisa acompanhar a realidade do momento para ser estratégico onde investir”, afirma.

Fabiana Prianti complementa essa leitura ao observar que a transformação também é técnica e metodológica. “Percebo a profissionalização cada vez maior, o uso de dados e evidências, uma preocupação com a robustez do monitoramento e avaliação dos projetos e o alinhamento com a estratégia corporativa. Também vemos uma mudança de foco – menos projetos pontuais, pequenos, e mais iniciativas com visão sistêmica. E, sem dúvida, um olhar atento à diversidade, equidade, inclusão e à força dos territórios”.

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