Rede BISC debate o papel articulador do investimento social nos territórios
Encontro reúne organizações para discutir como o investimento social corporativo pode fortalecer a articulação entre empresas, poder público e comunidades

Na manhã de hoje (28), a Comunitas realizou mais uma edição do Grupo de Debates (GD), reunindo 25 executivos sociais de organizações parceiras — BMG, Fundação ArcelorMittal, Fundação Sicredi, Gerdau, Instituto C&A, Instituto Cury, Instituto Orizon Social, Instituto Ultra, Instituto Votorantim, Neoenergia, Petrobrás e Raízen — para discutir o papel do investimento social na articulação com os territórios.
A discussão apontou para uma mudança na forma de compreender a atuação social corporativa. Em vez de atuar de maneira isolada, o investimento social pode ocupar uma posição estratégica na construção de pontes entre as necessidades dos territórios, as prioridades do negócio, as políticas públicas e as demandas das comunidades. Nesse sentido, sua contribuição está na capacidade de mobilizar recursos, articular atores, produzir conhecimento sobre o território e apoiar soluções com maior potencial de continuidade e impacto.
“A gente percebeu o campo voltando a dar essa relevância central ao território, do pensar global e agir local, ganhando contornos práticos no nosso setor”, afirmou João Moraes, Coordenador do BISC, na abertura do encontro. “A empresa carrega esse sobrenome muito forte em qualquer território que ela pisa, e a ideia hoje é pensarmos o papel do investimento social numa perspectiva articuladora”, completou.
O território como ponto de partida
Um dos principais aprendizados do debate foi a importância de compreender o território antes de definir estratégias de atuação. A escuta das comunidades, a leitura das dinâmicas locais e o conhecimento sobre as políticas públicas existentes despontaram como fatores fundamentais para evitar soluções padronizadas e ampliar a aderência das iniciativas às necessidades reais.
Experiências compartilhadas durante o encontro mostraram que programas sociais podem ganhar maior relevância quando conseguem se integrar às estruturas e políticas já existentes. Na educação, por exemplo, a conexão entre metodologias desenvolvidas pelo investimento social e diretrizes públicas, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pode contribuir para aproximar as iniciativas das prioridades dos municípios e fortalecer sua legitimidade junto aos gestores e profissionais da área.
A produção de evidências também se mostrou importante nesse processo. Avaliações de impacto e outros mecanismos de monitoramento ajudam a demonstrar resultados, qualificar o diálogo com o poder público e criar referências para que programas possam ser incorporados ou fortalecidos pelas políticas públicas.
Portanto, produzir e compartilhar conhecimento sobre o que funciona pode ser uma forma de ampliar a capacidade de articulação do investimento social.
Articulação exige escuta e governança

Se a atuação territorial começa pela compreensão das necessidades locais, sua continuidade depende da capacidade de articular diferentes interesses e níveis de decisão. O debate evidenciou que a relação entre investimento social e áreas de negócio precisa ser construída de forma permanente, e não apenas acionada quando surgem problemas no território.
Mecanismos de governança, reuniões periódicas e ferramentas de integração podem contribuir para aproximar as áreas sociais das unidades de negócio e ampliar a compreensão sobre os impactos e as responsabilidades da empresa nos territórios onde está presente.
Essa integração também ajuda a posicionar o investimento social de maneira mais estratégica dentro das organizações. Ao conhecer as prioridades do negócio e, ao mesmo tempo, manter uma leitura qualificada das demandas sociais, a área pode contribuir para antecipar riscos, identificar oportunidades de colaboração e construir respostas mais coerentes com a realidade local.
A articulação, contudo, não se limita ao ambiente interno das empresas. Ela pressupõe também uma relação consistente com comunidades e poder público. Nesse processo, a legitimidade não é dada pela presença da empresa no território, mas construída a partir da escuta, do diálogo e da capacidade de responder às necessidades identificadas.
Da execução de projetos à construção de soluções
Outro desafio discutido foi a tensão entre a necessidade de apresentar resultados no curto prazo e o tempo necessário para construir relações de confiança e produzir transformações sustentáveis. Em territórios complexos, iniciativas sociais dificilmente conseguem responder sozinhas à dimensão dos problemas existentes.
A relação com as políticas públicas aparece, nesse contexto, como um dos principais caminhos para ampliar a escala e a sustentabilidade das ações. O alinhamento com instrumentos de planejamento e orçamento municipais, como o Plano Plurianual (PPA) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), pode ajudar o investimento social a identificar prioridades já reconhecidas pelo poder público e direcionar seus esforços para potencializar estruturas existentes.
Essa perspectiva também modifica a lógica de atuação. Em vez de criar estruturas paralelas para responder a problemas sociais, o investimento social pode contribuir para fortalecer capacidades locais, qualificar políticas existentes e conectar recursos que já estão disponíveis no território.
A mesma lógica pode ser aplicada à relação entre empresas. A atuação articulada permite compartilhar conhecimentos, recursos e responsabilidades, evitando a fragmentação de iniciativas e ampliando o alcance das soluções. A mobilização de fornecedores, colaboradores e outros integrantes da cadeia de valor também pode ampliar a capacidade de resposta diante de desafios que ultrapassam os limites de uma única organização.
Um papel estratégico para o investimento social

Ao longo do debate, ficou evidente que exercer um papel articulador exige do investimento social uma atuação que combina escuta territorial, capacidade de análise, diálogo institucional e construção de alianças.
Essa perspectiva não significa substituir o poder público, assumir responsabilidades que cabem às empresas ou responder individualmente a todos os desafios sociais. Significa reconhecer que o impacto de uma iniciativa pode ser maior quando ela está conectada às estruturas, aos conhecimentos e aos atores que já fazem parte daquele território.
Nesse sentido, o investimento social corporativo pode atuar como uma espécie de centro de inteligência e articulação: identifica demandas, aproxima atores, produz evidências, conecta recursos e ajuda a construir respostas mais alinhadas às necessidades locais.
Mais do que executar projetos, trata-se de contribuir para que diferentes atores encontrem pontos de convergência e construam soluções capazes de permanecer no território. É nesse espaço, entre as prioridades da empresa, as necessidades das comunidades e a agenda pública, que se amplia o potencial do investimento social para gerar valor público e fortalecer sua legitimidade como agente de desenvolvimento territorial.
Sobre a Rede BISC
A Rede BISC é um espaço estratégico de articulação e inteligência coletiva, capaz de transformar experiências individuais em conhecimento compartilhado, orientando a tomada de decisão e promovendo agendas estruturantes para o desenvolvimento do investimento social corporativo.
Fomentamos uma comunidade de aprendizado entre lideranças empresariais e suas equipes, promovendo discussões qualificadas, troca de experiências e conexões estratégicas em torno de temas prioritários para o setor. Realizado em formato fechado para a Rede BISC, os encontros fortalecem um ambiente de confiança e colaboração, essencial para o avanço de agendas complexas como a sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil.
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