25 anos de Comunitas: como o BISC transformou o investimento social
Pilar de atuação da Comunitas desde 2008, o BISC é a pesquisa que orienta empresas na construção de estratégias mais eficazes de investimento social
No último dia 19, a Comunitas celebrou 25 anos de compromisso com a transformação do Brasil. O que começou com o propósito de qualificar e fortalecer o investimento social realizado por empresas, evoluiu para uma atuação estratégica que conecta lideranças públicas e privadas na construção de soluções inovadoras para os grandes desafios do país.
Fundada no início dos anos 2000, a Comunitas tem suas raízes no programa Comunidade Solidária, uma das principais iniciativas sociais do governo Fernando Henrique Cardoso, liderada pela socióloga e então primeira-dama Ruth Cardoso. Vinculada a um ecossistema pioneiro de transformação social, a organização nasceu com o propósito de enfrentar as desigualdades estruturais do país a partir do engajamento da sociedade civil e do setor privado. Sob a liderança de Regina Esteves – que participou ativamente dessa construção ao lado de Ruth -, a Comunitas vem aprofundando sua atuação e ampliando seu impacto.
Na primeira década de existência (2000 a 2012), o foco da organização esteve no fortalecimento do investimento social corporativo no Brasil. A meta era apoiar empresas na adoção de práticas mais estratégicas, capazes de gerar impacto duradouro em escala. Essa atuação se estruturava em duas frentes complementares:
- Produção de conhecimento e disseminação de boas práticas: por meio de estudos, publicações e relatórios, a Comunitas incentivava uma visão mais profissionalizada do investimento social, baseada em gestão, avaliação de impacto e alinhamento a políticas públicas.
- Articulação e engajamento do setor empresarial: a organização também fomentava redes de colaboração entre lideranças empresariais comprometidas com o desenvolvimento do país, promovendo conexões que potencializassem o alcance e a efetividade das ações sociais do setor privado.
A criação do BISC

Foi nesse cenário que, em 2008, surgiu a pesquisa de Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC). O estudo foi criado para suprir a falta de métricas e benchmarks nacionais consolidados, que permitissem a empresas, institutos e fundações avaliar e aprimorar seus investimentos sociais no Brasil.
Buscando um modelo para orientar esse processo de qualificação, a Comunitas firmou uma parceria estratégica com o CECP (Chief Executives for Corporate Purpose), uma coalizão global de CEOs das maiores empresas do mundo. O CECP já conduzia, com grande reconhecimento nos Estados Unidos, a pesquisa Giving in Numbers, considerada referência internacional na mensuração do investimento social corporativo.
A partir dessa colaboração internacional, a Comunitas passou a adaptar a metodologia do CECP à realidade brasileira, criando um instrumento robusto, contextualizado e comparável globalmente. Essa aproximação também possibilitou a produção de análises conjuntas e comparativos internacionais, como os relatórios Giving Around the Globe. O endosso do CECP, aliado à solidez metodológica e ao olhar territorial promovido pela Comunitas, foi decisivo para atrair a participação de grandes empresas e consolidar o BISC como uma ferramenta estratégica, alinhada às melhores práticas globais de investimento social.
O papel de Anna Peliano

Mas o BISC não seria o que é hoje sem Anna Peliano (in memoriam). A trajetória da pesquisa se entrelaça à história intelectual e profissional da socióloga, uma das principais estudiosas do investimento social empresarial no Brasil. Com forte atuação nas políticas de combate à fome e na análise da ação social privada, Anna dedicou grande parte de sua vida à compreensão do papel do setor empresarial na promoção do desenvolvimento social. Sua contribuição foi decisiva para conferir ao BISC consistência técnica, profundidade analítica e relevância estratégica.
“A professora Anna foi convidada para contribuir com a pesquisa BISC por sua expertise no tema”, relembra Patricia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas. “Ela já era reconhecida por seus estudos sobre a atuação social do setor privado e, ao se aproximar da Comunitas, surgiu a oportunidade de unir propósitos e conhecimentos com o objetivo comum de qualificar o investimento social empresarial no país”.
Anna conduziu o BISC por 14 edições, até seu falecimento em 2021, e foi fundamental na consolidação do marco conceitual da pesquisa. Em seus estudos, ela destacava que o investimento social corporativo no Brasil ganhou novo fôlego a partir da década de 1990, impulsionado pela redemocratização e pelo fortalecimento da cidadania. Nesse contexto, as empresas passaram a entender que não poderiam mais se manter alheias à realidade social do país. As perguntas que nortearam seus estudos também moldaram as bases do BISC, que se tornou referência na análise estratégica da atuação social do setor empresarial.
Mais do que um ‘produtor de estatísticas’, o BISC se consolidou como uma ferramenta de apoio à gestão, oferecendo às empresas subsídios práticos para estruturar suas estratégias sociais com base em prioridades, alinhamento com políticas públicas e capacidade de gerar impacto. Em vida, Anna costumava defender que o investimento social empresarial no Brasil se sustenta sobre três pilares: o compromisso humanitário, a resposta às demandas sociais e comunitárias e o interesse estratégico dos próprios negócios. É sob essa mesma perspectiva que o BISC segue atuando, como reflexo do legado intelectual e ético deixado por Anna.
A Rede BISC

Mais do que uma publicação anual, o BISC consolidou-se como uma rede ativa e estratégica, formada atualmente por 18 grupos empresariais – e em expansão – que representam mais de 300 empresas e unidades de negócios, comprometidas com a transformação social no Brasil. A participação ativa dessas organizações, através do compartilhamento de seus dados, experiências, desafios e aprendizados, fortalece ano após ano a Rede BISC, um espaço de confiança estratégico de construção coletiva, cuja missão é impulsionar práticas sociais intencionais, estratégicas e alinhadas às reais necessidades do país e do ambiente econômico de negócios.
Para Andreia Rabetim, coordenadora-geral de Articulações Intersetoriais da Vale, uma das empresas há mais tempo na Rede BISC, esse espaço de articulação tem sido fundamental para fortalecer a atuação coletiva do setor. “Construir uma rede de parceiros do investimento social privado é algo desafiador, e precisamos muito de organizações como a Comunitas para criar espaços de debate e reflexão, baseados em pesquisas e conceitos, que nos ajudem a tomar decisões mais assertivas”, declarou ela.
A força da Rede também se revela em sua capacidade de mobilização conjunta, especialmente em momentos de crise. Fabiana Prianti, head da B3 Social, destaca o poder da articulação entre empresas no enfrentamento desses desafios. “Fazer parte da Rede BISC é um grande potencializador do nosso investimento. As empresas que participam da Rede têm sido grandes parceiras na resolução de causas e emergências e um ótimo exemplo é o que ocorreu no Rio Grande do Sul. A partir de conexões geradas dentro da Rede BISC, surgiram diversas iniciativas com potencial de ampliar ainda mais o alcance do investimento social”.
Por meio de uma agenda colaborativa e orientada por evidências, a Rede BISC estimula o aprimoramento contínuo das práticas e da gestão do investimento social corporativo. Ao longo de 17 anos, o BISC explorou uma ampla gama de temáticas de interesse, incorporando assuntos que sejam relevantes à gestão do investimento social nas empresas. Entre eles, destacam-se o papel das empresas no desenvolvimento territorial de suas localidades, a promoção das práticas de ESG e a conexão dos investimentos sociais com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Mais recentemente, o BISC vem se destacando ao qualificar o debate e as articulações acerca da atuação das empresas nas emergências climáticas, sobre o processo de alinhamento dos investimentos sociais ao negócio e sobre engajamento social de lideranças e das cadeias de valor. Essa trajetória de evolução reflete tanto o amadurecimento do setor empresarial quanto a complexidade dos desafios sociais enfrentados pelo Brasil.
A Rede também tem se mostrado um espaço rico para novos integrantes do campo do investimento social, como destaca Raísa Martins, gerente de Investimento Social do Instituto Lojas Renner. “É sempre muito importante fomentar a discussão colaborativa, ter o setor como um espaço de trocas e aprendizados. A partir dessas sinergias e diferenças, a gente se fortalece como instituto, como investidor e como profissionais”, afirmou, após participar de seu primeiro Grupo de Debates.
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