25 anos de impacto: a trajetória da Comunitas na gestão pública
Ao longo dos anos, a organização se consolidou como uma ponte entre setores para impulsionar governos e criar soluções inovadoras para os desafios do país
No mês de julho, a Comunitas celebra 25 anos de uma trajetória dedicada à transformação do Brasil por meio da colaboração entre setores. O que começou com o objetivo de qualificar e fortalecer o investimento social realizado por empresas, evoluiu para uma atuação estratégica, que conecta lideranças públicas e privadas em torno da criação de soluções inovadoras para os desafios do país.
A Comunitas foi fundada nos anos 2000 como uma das organizações vinculadas ao guarda-chuva de ações do programa Comunidade Solidária, uma iniciativa desenvolvida em meados dos anos 1990, sob a liderança da antropóloga e ex-primeira-dama, Ruth Cardoso. O programa tinha como objetivo combater desigualdades sociais por meio de parcerias inovadoras entre os setores público, privado e sociedade civil.
À frente da organização está Regina Esteves, que participou ativamente da construção desse legado desde o início, trabalhando ao lado de Ruth Cardoso na criação da Alfabetização Solidária (Alfasol). “A doutora Ruth Cardoso era muito visionária ao perceber como atrair a força da sociedade civil para responder às deficiências que a política pública tem […]. Era uma relação de real parceria”, relembra ela.
Essa visão de governança colaborativa permanece como base do trabalho da Comunitas até os dias de hoje, reforçando a importância da cocriação de políticas públicas efetivas e sustentáveis. Ao longo dos anos, a organização consolidou-se como uma ponte entre o poder público e a sociedade civil, promovendo a troca de conhecimento, o fortalecimento institucional e a busca por soluções concretas para os desafios coletivos.
Para comemorar essa trajetória e reconhecer os avanços conquistados até aqui, apresentamos uma linha do tempo com os principais marcos que definiram o percurso da Comunitas ao longo de seus 25 anos, uma história construída a muitas mãos, que continua inspirando o futuro da gestão pública no Brasil.
2000 – 2012: Fortalecimento e qualificação do investimento social corporativo

Antes de se tornar uma articuladora estratégica de parcerias com o setor público, a Comunitas dedicou sua primeira década de atuação a um propósito essencial: qualificar e fortalecer o investimento social realizado por empresas no Brasil.
Entre os anos de 2000 e 2012, a organização ainda não atuava diretamente no desenho de políticas públicas com governos municipais e estaduais. Seu foco principal era o setor privado, orientando empresas a investirem de forma mais estruturada, eficaz e estratégica em ações voltadas ao desenvolvimento social e econômico do país.
Nesse período, a atuação da Comunitas se consolidou em duas grandes frentes:
- Produção e disseminação de conhecimento: A organização se dedicava a gerar reflexões e sistematizar boas práticas no campo do investimento social corporativo. A proposta era superar o modelo tradicional de filantropia, promovendo o uso de ferramentas de gestão, monitoramento e avaliação de impacto nas iniciativas apoiadas pelas empresas.
- Mobilização de lideranças empresariais: A Comunitas atuava como uma plataforma de articulação, incentivando a conexão entre empresas e lideranças comprometidas com a transformação social. A organização acreditava que, ao promover essa atuação em rede, seria possível ampliar o alcance e a efetividade do investimento social privado no Brasil.
Foi nesse contexto que, em 2008, nasceu a Pesquisa BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo), a primeira e única pesquisa no país dedicada a mapear e qualificar anualmente as práticas de ISC. O estudo, que conta hoje com 17 edições, se tornou uma importante referência para o campo, orientando estratégias e promovendo transparência e aprendizado contínuo.
2008: Primeira edição do Encontro de Líderes

O Encontro de Líderes (EL) foi criado pela Comunitas como um espaço de articulação entre lideranças do setor privado, reunindo inicialmente grupos de 10 a 15 empresários para discutir os principais achados da Pesquisa BISC. No entanto, em 2012, impulsionado pelos dados da pesquisa e pelo crescimento do investimento social privado no Brasil, um grupo de 14 lideranças decidiu dar um passo além e refletir sobre como potencializar o impacto de suas iniciativas.
Foi a partir desse movimento que surgiu um novo entendimento: apesar dos avanços promovidos pelo setor empresarial, os resultados ainda eram limitados quando não articulados a políticas públicas estruturantes. “Naquele momento, houve um amadurecimento da visão de que, para promover transformações sociais em larga escala, era inevitável – e necessário – atuar em colaboração direta com o Estado”, relembra Regina. Dessa ampliação de visão, nasceu o Programa Juntos, que será detalhado a seguir.
Ao longo de suas 17 edições, o Encontro de Líderes se transformou em formato e escopo. De um espaço restrito ao setor privado, passou a incluir também representantes do setor público, promovendo uma troca qualificada entre diferentes esferas de liderança. Mais do que analisar os dados do BISC, o evento se consolidou como um fórum de alto nível para discutir temas estratégicos e emergentes da gestão pública, como economia verde, segurança pública e, para 2025, o avanço da transformação digital no setor público.
Mais de 80 personalidades já passaram pelo palco do Encontro de Líderes, tanto presencial quanto virtualmente. Entre os nomes que marcaram presença, destacam-se os ministros do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia e Flávio Dino; o renomado arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl; e os professores da Columbia University Mark Lilla e Jeffrey Sachs – além de muitas outras vozes que contribuíram para enriquecer o debate sobre os caminhos da gestão pública no Brasil.
2012: Criação do Programa Juntos
A partir do novo posicionamento, a Comunitas formulou a tese central do Programa Juntos: a governança compartilhada. A ideia era que os desafios complexos do Brasil não poderiam ser solucionados por um único setor. Seria preciso unir as melhores competências do setor privado (agilidade, gestão, inovação) com a legitimidade e a escala do setor público.
A proposta de valor do Juntos, portanto, era criar uma coalizão de líderes empresariais (Núcleo de Governança) dispostos a investir não apenas recursos financeiros, mas principalmente seu tempo e conhecimento técnico, para apoiar governos municipais e estaduais a aprimorarem suas gestões.
Ainda hoje, o programa tem como objetivo:
- Promover melhorias na gestão pública para impulsionar o desenvolvimento local;
- Aprimorar a qualidade dos serviços prestados à população;
- Implementar soluções inovadoras para desafios públicos, sem custos para os cofres governamentais, já que os projetos e as consultorias técnicas são financiados pela iniciativa privada.
Dessa forma, a Comunitas passou a consolidar um novo modelo de atuação da sociedade civil – não mais restrito ao papel de fiscalização ou execução pontual de projetos, mas como uma parceira estratégica do Estado, contribuindo ativamente para a formulação, o aprimoramento e a implementação de políticas públicas estruturantes.
Esse modelo começou a ganhar corpo a partir de 2013, quando a Comunitas passou a atuar em três territórios: Campinas (SP), Paraty (RJ) e Pelotas (RS). Em cada um desses municípios, a colaboração se materializou por meio de iniciativas voltadas ao fortalecimento da gestão pública e à melhoria dos serviços prestados à população.
Ao longo de mais de uma década do início do Programa Juntos, a Comunitas já apoiou no desenvolvimento e na implementação de mais de 400 projetos, em mais de 60 territórios, em áreas essenciais da gestão pública, como segurança, educação e saúde. O que começou em apenas três cidades, hoje alcança 9 estados, 16 municípios, além do legislativo federal e da União – ampliando o alcance e a relevância da atuação da organização.
Hoje, o Programa Juntos é um dos principais cases de inovação no setor público, sendo estudado por instituições como a Universidade de Columbia e citado em livros, como do investidor social Howard Buffett, consolidando-se como um modelo eficaz para a construção de políticas públicas sustentáveis e de alto impacto.
2017: Lançamento da Plataforma Rede Juntos

A Plataforma Rede Juntos nasceu da percepção da Comunitas de que os avanços conquistados por meio de projetos de impacto nos territórios poderiam – e deveriam – ser compartilhados com um público mais amplo. Com base na experiência prática acumulada ao longo de quase uma década de parceria com governos estaduais e municipais, a plataforma foi criada como um espaço digital de disseminação de conhecimento, fortalecimento de capacidades no setor público e, sobretudo, promoção da replicabilidade de soluções bem-sucedidas.
O objetivo da Rede Juntos é democratizar o acesso a experiências que deram certo, oferecendo a gestores públicos, técnicos, organizações da sociedade civil e demais interessados, conteúdos qualificados sobre políticas públicas, metodologias de gestão, indicadores e ferramentas práticas, passíveis de adaptação e aplicação em diferentes realidades.
A plataforma também cumpre um papel fundamental na promoção da governança colaborativa ao estimular a troca entre pares, o aprendizado contínuo e o fortalecimento de redes de inovação no setor público. Desde seu lançamento, o portal tem contribuído para expandir o impacto de iniciativas bem-sucedidas – não apenas as desenvolvidas no âmbito do Programa Juntos – reforçando o propósito da Comunitas de inspirar e apoiar uma nova cultura de gestão pública no Brasil: mais eficiente, mais colaborativa e centrada no cidadão.
Em 2023, a plataforma passou por uma reformulação completa, com o objetivo de ampliar seu alcance e modernizar a experiência do usuário. A nova versão trouxe uma navegação mais intuitiva, design responsivo e novos formatos de conteúdo, como vídeos, trilhas de aprendizagem, guias interativos e estudos de caso aprofundados.
2019: Fortalecimento de lideranças
A Comunitas percebeu que, para alcançar um impacto duradouro e sistêmico na gestão pública, não bastava apenas oferecer metodologias e ferramentas. Era fundamental investir no desenvolvimento das pessoas que ocupam posições estratégicas no setor público. Com isso em mente, a organização implementou um novo pilar estratégico: o fortalecimento de lideranças públicas.
A Comunitas parte do princípio de que lideranças capacitadas e engajadas são fundamentais para construir uma administração pública mais eficiente, inovadora e alinhada com as reais necessidades da população. Seu objetivo vai além da formação técnica: busca despertar o potencial transformador em cada gestor público, equipando-o com ferramentas para enfrentar os complexos desafios da gestão contemporânea.
A abordagem da organização é baseada em três frentes:
- Capacitação estratégica: Desenvolve habilidades de liderança adaptáveis aos contextos locais, unindo conhecimento técnico e visão sistêmica;
- Inovação aplicada: Incorpora tecnologias e metodologias comprovadas para modernizar processos e serviços públicos;
- Sustentabilidade das ações: Garante que os projetos transcendam mandatos, criando legados permanentes para a sociedade.
A Comunitas atua nesse processo conectando os setores público e privado, buscando a parceria e o investimento social corporativo para subsidiar todas as ações da organização.
Por meio desse pilar, a Comunitas promoveu Jornadas de Conhecimento e Inovação, além de programas de Formação Internacional em universidades de excelência, como John Hopkins, Columbia e Oxford (2025), e cursos online em parceria com a Universidade de Columbia sobre temas como economia verde e transição energética. Essas iniciativas capacitaram gestores públicos de alto impacto, incluindo deputados, prefeitos e governadores, fortalecendo a liderança e a inovação na administração pública.
2020 e 2024: Atuação emergencial – respostas ágeis em momentos críticos

Embora tenha como foco principal o desenvolvimento de projetos estruturantes e de longo prazo, a Comunitas também atua de forma ágil e estratégica em contextos de calamidade pública, sempre com o compromisso de contribuir para soluções que deixem legados positivos aos territórios. Ao longo dos anos, diversas iniciativas foram conduzidas com esse espírito de colaboração emergencial – entre elas, destacam-se a atuação durante a pandemia da Covid-19 e o apoio ao Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024.
Durante a crise sanitária de 2020 e 2021, a Comunitas mobilizou duas grandes frentes: a primeira foi a arrecadação de recursos junto ao setor privado para a compra de respiradores, monitores, centrais de monitoramento e outros equipamentos hospitalares, o que possibilitou a implementação de 260 leitos de UTI em hospitais públicos de diferentes estados. A segunda frente envolveu o apoio à segurança alimentar de estudantes em situação de extrema pobreza. No Estado de São Paulo, mais de 113 mil crianças foram beneficiadas pelo programa “Merenda em Casa”, modelo que também foi replicado em Minas Gerais, Santos e Cubatão, alcançando outros 76 mil alunos.
Outra atuação relevante foi o apoio à construção da nova fábrica de vacinas do Instituto Butantan – o Centro Multipropósito de Produção de Vacinas (CMPV) – viabilizado por meio da mobilização de 75 grandes empresas, coordenada pela Comunitas. O modelo de governança compartilhada adotado no projeto foi decisivo para o engajamento das doadoras e para o êxito da iniciativa.
Mais recentemente, em resposta às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, a Comunitas criou um fundo emergencial com foco prioritário na retomada da educação no Estado. A iniciativa permitiu a compra de mobiliário escolar, eletrodomésticos e outros equipamentos essenciais, doados para escolas de 16 municípios, beneficiando mais de 14 mil alunos. Além disso, a organização viabilizou o apoio técnico, material e operacional para a instalação da Casa Violeta – o primeiro espaço de acolhimento de longo prazo para mulheres e crianças em situação de vulnerabilidade impactadas pela tragédia climática.
2024: Criação da Comunidade de Gestores
A Comunitas lançou a Comunidade de Gestores Públicos – a primeira rede social criada especialmente para conectar gestores e servidores públicos de todo o país. O objetivo é fortalecer redes de apoio, compartilhar boas práticas e impulsionar a inovação na gestão pública.
A plataforma é gratuita e colaborativa e oferece um ambiente digital dinâmico, onde os participantes podem trocar experiências em tempo real, acessar conteúdos especializados, participar de formações exclusivas e divulgar eventos e oportunidades profissionais.
A Comunidade constitui um ambiente de aprendizado contínuo, voltado ao apoio e ao desenvolvimento de profissionais engajados na transformação dos serviços públicos. Trata-se de uma iniciativa pioneira, que visa ampliar conexões estratégicas, fomentar soluções inovadoras e promover a construção colaborativa de um setor público mais eficiente, humanizado e capacitado para enfrentar os desafios atuais e futuros.
Como você enxerga o futuro da gestão pública no Brasil? Deixe sua opinião nos comentários.
Deixe seu comentário!