BISC Investimento Social Corporativo | 18/11/2025

BISC 2025: empresas ampliam resposta climática, mas prevenção ainda segue tímida

Com quase 100% das empresas atuando em emergências climáticas, os dados revelam que o desafio agora é avançar para ações estruturantes e intersetoriais

Ruas alagadas em Porto Alegre durante enchentes de 2024. Crédito da Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A Pesquisa BISC vem identificando há alguns anos o crescente posicionamento do investimento social corporativo diante das emergências climáticas. A nova edição revela que quase 100% das empresas monitoradas atuaram diretamente no tema de alguma forma em 2024, percentual que poucos anos atrás, em 2021, era de 36%. No entanto, tal presença das empresas ainda se concentra muito na forma de ação de resposta humanitária, ainda pouco preventiva e estruturante.

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Este último dado foi fortemente influenciado pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. A Pesquisa BISC identificou doações de R$ 218 milhões direcionadas ao Estado para responder aos danos provocados pelo desastre e para apoiar ações emergenciais. Em termos medianos, cada empresa destinou R$ 1,8 milhão e 4% de seu orçamento anual para investimento social. Sozinho, estes recursos representaram 97% de todos os recursos aplicados no Brasil em ações emergenciais relacionadas a eventos climáticos extremos ao longo do ano passado.

Os números revelam que, embora as empresas acompanhadas pelo BISC tenham atuado intensamente na resposta ao desastre, apenas 15% possuem programas estruturados voltados à adaptação climática – e um número ainda menor investe de forma sistemática em prevenção. Isso evidencia que, embora a resposta imediata esteja consolidada, a agenda preventiva ainda precisa ganhar escala e prioridade.

Gráfico retirado do BISC 2025

Patricia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas, explica que a pesquisa buscou atualizar o entendimento sobre como as empresas da Rede vêm atuando frente à agenda climática. “Identificamos que grande parte das organizações passou a direcionar esforços para a resposta emergencial. No entanto, apenas uma pequena parcela delas tem avançado com uma visão de reconstrução dos territórios ou em iniciativas de prevenção e adaptação às mudanças do clima. Esse cenário revela um potencial ainda pouco explorado para um investimento social mais estruturante, alinhado às políticas públicas, ao desenvolvimento territorial e aos próprios riscos climáticos que afetam os negócios”, afirma.

Estratégias e limitações da atuação empresarial

Quando a agenda emergencial é analisada em seus diferentes eixos, é possível observar mudanças importantes. Houve crescimento na atuação das empresas em frentes como fortalecimento da sociedade civil, promoção da resiliência climática nas comunidades e produção e difusão de conhecimento. Por outro lado, temas estruturantes como apoio a políticas públicas e desenvolvimento de soluções inovadoras, perderam espaço.

Gráfico retirado do BISC 2025

Um conjunto de práticas revela como as empresas têm estruturado sua estratégia de atuação frente aos eventos climáticos – ainda fortemente centrada na resposta emergencial, mas com sinais de diversificação e busca por maior efetividade. Durante as enchentes do RS, a maioria das organizações fez doações de itens essenciais, como cestas básicas, mas também houve uma maior diversificação das estratégias, incluindo doações em dinheiro. Chama atenção ainda a redução da articulação com organizações da sociedade civil, que pode ser explicada pela grande comoção pública e pela sobrecarga sobre as entidades locais durante o pico da crise. Além disso, a doação de serviços e capacidades empresariais, como logística e transporte, apareceu como a segunda estratégia mais utilizada.

Gráfico retirado do BISC 2025

Nesse contexto, João Morais, Coordenador do BISC, reforça que o desafio agora é transformar essa mobilização em resultados duradouros. “A resposta emergencial funcionou como um gatilho de mobilização, mas isso por si só não é suficiente frente à intensidade dos eventos climáticos. Precisamos transformar essa energia em planejamento intersetorial, com mecanismos permanentes de cooperação que permitam fortalecer políticas públicas e reduzir vulnerabilidades nos territórios”.

Articulação intersetorial

A articulação intersetorial é fundamental para que a mobilização evolua de uma postura reativa para estratégias preventivas e estruturantes. O Guia de Enfrentamento às Emergências Climáticas: Estratégias de Colaboração Pública e Privada, lançado pela Comunitas em outubro de 2024, propõe um caminho para essa transição. A publicação apresenta um modelo de atuação conjunta que integra governos, empresas e sociedade civil em todas as etapas do ciclo de gestão de riscos climáticos – da preparação e capacidade de resposta à reconstrução e adaptação de longo prazo.

A abordagem proposta integra a fase de adaptação climática na gestão de desastres, colocando a resiliência como um fator intrínseco a todo o processo. Segundo o Guia, a chave para mitigar os impactos das mudanças climáticas está na colaboração qualificada entre os setores público e privado, estruturada a partir de estratégias bem definidas, pactuações claras e ações coordenadas.

O documento reforça que enfrentar eventos extremos exige muito mais do que intervenções emergenciais e requer planejamento antecipado, governança compartilhada, mecanismos contínuos de financiamento e estruturas permanentes de cooperação. Nessa lógica, as empresas deixam de atuar apenas como respondedoras de crises e passam a desempenhar um papel estratégico na construção de territórios mais resilientes – ampliando o impacto do investimento social e reduzindo riscos futuros.

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