Chegada do ‘Super El Niño’ reforça urgência para a adaptação climática no Brasil
Fenômeno pode intensificar secas, enchentes e ondas de calor no país, evidenciando a importância de fortalecer a resiliência dos territórios diante das mudanças climáticas

Você sabe o que é o El Niño? Trata-se de um fenômeno oceânico-atmosférico de escala global que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam temperaturas acima da média por períodos prolongados. Esse aquecimento, que se estende da costa do Peru até a região central do Pacífico, altera padrões de vento e pressão atmosférica em diferentes partes do mundo, influenciando diretamente os regimes de chuva e as temperaturas em diversos países.
As projeções para este ano têm mobilizado a atenção de centros de monitoramento climático internacionais. Segundo dados divulgados pelo Climatempo, com base em informações da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño foi oficialmente declarado, consolidando-se após registrar 82% de probabilidade de formação. Os modelos mantém 96% de chance de sua permanência ativa até fevereiro de 2027. Adicionalmente, as análises indicam 63% de probabilidade de que o evento atinja intensidade forte a muito forte durante o próximo verão, com potencial para ser classificado como um ‘Super El Niño’, caracterizado por anomalias superiores a 2°C na temperatura da superfície do mar em relação à média histórica.
Eventos dessa magnitude são raros. De acordo com registros históricos, apenas quatro episódios foram classificados como Super El Niño nos últimos 150 anos: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Caso as projeções atuais se confirmem, 2026 poderá registrar a quinta ocorrência dessa categoria.
O cenário ganha ainda mais importância em razão do contexto climático global. Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que os oceanos vêm registrando temperaturas recordes em diferentes regiões do planeta, reflexo do aquecimento global associado ao aumento das emissões de gases de efeito estufa. Como os oceanos absorvem grande parte do excesso de calor acumulado na atmosfera, fenômenos naturais como o El Niño tendem a ocorrer em condições mais extremas do que aquelas observadas em décadas anteriores, potencializando seus efeitos sobre os sistemas climáticos.
Possíveis consequências do Super El Niño para o Brasil

Os impactos do El Niño costumam se manifestar de forma desigual no território brasileiro. Segundo análises do Climatempo e de instituições especializadas em monitoramento climático, a Região Sul é historicamente a mais sensível ao fenômeno, com tendência de registrar volumes de chuva acima da média, especialmente durante a primavera. Em um cenário de Super El Niño, aumenta a probabilidade de enchentes, enxurradas e deslizamentos, com potenciais impactos sobre áreas urbanas, infraestrutura logística e atividades agropecuárias.
No Norte e no Nordeste, a tendência é inversa. Episódios intensos de El Niño costumam estar associados à redução das chuvas, à queda dos níveis dos rios e ao aumento das temperaturas. Esses efeitos podem comprometer a produção agrícola, o abastecimento hídrico, o transporte fluvial e a geração de energia hidrelétrica. Em biomas como Amazônia, Cerrado e Pantanal, condições mais quentes e secas também favorecem a ocorrência de queimadas e incêndios florestais.
No Sudeste e no Centro-Oeste, os impactos tendem a variar de acordo com as condições atmosféricas locais, mas incluem maior frequência de ondas de calor, períodos de baixa umidade relativa do ar e pressão adicional sobre os sistemas de abastecimento de água e energia. Além disso, o aumento das temperaturas médias durante a primavera e o verão pode afetar tanto a saúde da população quanto setores econômicos dependentes de condições climáticas mais estáveis.
Impactos econômicos e sociais

Além dos efeitos sobre os regimes de chuva e temperatura, um eventual Super El Niño também pode gerar consequências para a economia brasileira. As análises atuais estimam que os eventos climáticos decorrentes de um agravamento do El Niño podem afetar a produção agrícola, provocar interrupções logísticas e pressionar os preços dos alimentos, com reflexos sobre diferentes cadeias produtivas. Temperaturas elevadas e alterações nos padrões de precipitação também podem comprometer ecossistemas sensíveis, como recifes de corais, afetando atividades econômicas ligadas ao turismo, à pesca e à conservação ambiental.
A experiência recente do Brasil ajuda a dimensionar esses riscos. Em 2023 e 2024, diferentes regiões do país enfrentaram episódios severos de seca, enquanto o Rio Grande do Sul registrou um dos maiores desastres climáticos de sua história. Esses episódios demonstram que a magnitude dos impactos não depende apenas da intensidade do fenômeno climático em si, mas também das condições de infraestrutura, da capacidade de preparação dos territórios e da eficiência dos mecanismos de prevenção e resposta.
Nesse contexto, os efeitos tendem a ser mais intensos para populações em situação de maior vulnerabilidade social. Comunidades periféricas, indígenas, ribeirinhas, costeiras e agricultores familiares frequentemente enfrentam maiores dificuldades de acesso a serviços essenciais, moradia adequada e infraestrutura resiliente. Como resultado, tornam-se mais expostos aos riscos associados a enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos extremos, evidenciando que os impactos climáticos também possuem uma dimensão social que precisa ser considerada nas estratégias de adaptação e gestão de riscos.
Adaptação climática, resiliência territorial e atuação colaborativa

A crescente frequência de eventos extremos tem ampliado o debate sobre a necessidade de fortalecer estratégias de adaptação climática e resiliência territorial. Nesse contexto, ganha relevância a discussão sobre a capacidade de governos, empresas e sociedade civil de atuar de forma coordenada para reduzir vulnerabilidades e preparar comunidades para os impactos das mudanças climáticas.
O artigo ‘O papel das empresas na adaptação climática’, escrito pela equipe da Comunitas e publicado na Stanford Social Innovation Review Brasil (SSIR Brasil), argumenta que as áreas de responsabilidade social e investimento social corporativo das empresas possuem capacidades únicas para qualificar o tema das mudanças climáticas nos negócios, construindo capacidades para qualificar suas ações emergenciais e, principalmente, desenvolver soluções preventivas e adaptativas junto às comunidades, sociedade civil e políticas públicas.
O artigo destaca que tais iniciativas produzem retornos sociais e também às próprias corporações. As empresas e suas operações dependem diretamente da estabilidade dos territórios onde atuam, da disponibilidade de infraestrutura, da segurança das cadeias produtivas e das condições de vida das comunidades locais. Dessa forma, investir em adaptação climática também significa reduzir riscos econômicos e fortalecer a sustentabilidade dos negócios no longo prazo.
Dados do Atlas Digital de Desastres mostram que secas, enxurradas e enchentes provocaram mais de R$ 380 bilhões em prejuízos no Brasil entre 2015 e 2024. Desse total, aproximadamente R$ 350 bilhões recaíram sobre o setor privado. Apesar disso, a Pesquisa BISC 2025 indica que apenas 15% das empresas destinam recursos específicos para ações de adaptação climática, enquanto iniciativas de resposta emergencial já fazem parte da atuação da grande maioria das organizações.
O desafio apontado pelo texto consiste justamente em ampliar os investimentos em prevenção e preparação. Entre as possibilidades de atuação estão o apoio à infraestrutura verde e azul nas cidades — que reúne soluções baseadas na natureza e na gestão sustentável da água, como parques urbanos, áreas permeáveis, jardins de chuva, recuperação de rios e sistemas de drenagem que ajudam a reduzir enchentes, melhorar o conforto térmico e aumentar a resiliência urbana —, o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta precoce, a recuperação de ecossistemas estratégicos, a proteção costeira e o desenvolvimento de capacidades institucionais para gestão de riscos climáticos.
O papel do poder público também é central nesse processo. A ampliação dos investimentos em infraestrutura resiliente, o fortalecimento da gestão territorial, a incorporação dos riscos climáticos ao planejamento urbano e a promoção de políticas voltadas à redução das desigualdades são medidas fundamentais para aumentar a capacidade adaptativa dos territórios.
Como transformar adaptação climática em estratégias concretas

O ‘Guia para o Enfrentamento às Emergências Climáticas: Estratégias de Colaboração Público-Privada’, publicado pela Comunitas, aprofunda essa perspectiva ao oferecer orientações práticas para a construção de parcerias entre governos, empresas e comunidades no enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas. Elaborado com base em experiências reais, pesquisas, dados e percepções de lideranças dos setores público e privado, o material busca apoiar a criação de arranjos colaborativos capazes de reduzir vulnerabilidades, fortalecer a capacidade de resposta a desastres e promover a adaptação climática nos territórios.
A publicação reúne estudos de caso, bem como análises de desafios e oportunidades para ampliar o impacto positivo da atuação conjunta entre diferentes setores. O conteúdo também reflete a experiência acumulada pela Comunitas ao longo de quase 20 anos de atuação em Investimento Social Corporativo (ISC) e os aprendizados gerados por iniciativas desenvolvidas em parceria com governos locais e organizações integrantes da rede BISC.
Um dos principais destaques do material é o ‘Ciclo para o Enfrentamento às Emergências Climáticas’, ferramenta estratégica que organiza as etapas de prevenção, preparação, resposta, recuperação e adaptação. Para cada fase, são identificadas as responsabilidades do poder público e as oportunidades de contribuição do setor privado, considerando diferentes capacidades institucionais, técnicas e financeiras. Ao sistematizar essas possibilidades de atuação, o material busca apoiar a tomada de decisão e incentivar investimentos mais estruturados em resiliência climática, especialmente em territórios e populações mais expostos aos riscos dos eventos extremos.
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