Comunitas Segurança Pública | 13/05/2025

Chico Lucas detalha estratégia do Piauí para reduzir roubos de celulares e violência

Em entrevista com a Comunitas, o Secretário de Segurança Pública do Piauí falou sobre os desafios de modernizar a segurança pública, desde a devolução de celulares roubados até a burocracia no registro de BOs

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello

Na última sexta-feira (09), a Comunitas reuniu especialistas e gestores públicos para mais uma edição do Encontro Rede Juntos para debater os desafios estruturais da segurança pública, compartilhar boas práticas e refletir sobre soluções inovadoras e sustentáveis na área. Entre os participantes, estiveram presentes representantes de diferentes territórios, como o Secretário de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas.

Ao longo do encontro, o gestor – que já atuou como agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), presidiu a OAB no Piauí e foi o procurador mais jovem do Estado – defendeu a superação de abordagens tradicionais na segurança pública, reforçando a necessidade de políticas orientadas por dados e maior integração entre instituições. Para ele, inovar significa olhar para o que realmente funciona e aproximar o Estado da população.

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello

Em entrevista para a Comunitas, o secretário destacou como o uso estratégico de tecnologia, a escuta ativa da população e a articulação institucional têm contribuído para transformar realidades no Piauí. A seguir, ele detalha os bastidores de iniciativas de destaque, como o programa de recuperação de celulares, e aponta aprendizados valiosos para outros estados que buscam soluções sustentáveis e replicáveis.

Confira!

1 – Você poderia detalhar como as tecnologias empregadas no protocolo de recuperação de celulares implementadas no Piauí – como o Cellguard e o Lupa Bot – têm impactado a eficiência das operações policiais e a redução de crimes relacionados a roubos e furtos de aparelhos no Estado?

O programa de recuperação de celulares tem se mostrado fundamental para a segurança pública do Estado, especialmente por oferecer uma resposta concreta a um crime que, por muito tempo, gerava a sensação de omissão por parte do poder público. De modo geral, vítimas de roubo ou furto de celular costumam perceber o Estado como ausente ou leniente, diante da ausência de retorno efetivo. Diante disso, identificamos o roubo de celulares como o crime mais recorrente e, a partir dessa constatação, consolidamos os dados disponíveis e passamos a atuar de forma sistêmica.

Nosso foco foi compreender o percurso do aparelho roubado, desde o momento do crime até seu destino final. Isso nos levou ao mapeamento dos intermediários – os receptadores – que viabilizam o mercado ilegal. Para isso, foi essencial contar com o apoio do Judiciário, das operadoras [de telefonia] e do uso intensivo de tecnologia. Conseguimos identificar compradores em mercados ilegais e notificá-los por aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp. Muitos deles, ao receberem a notificação, devolveram espontaneamente os aparelhos e informaram onde os haviam adquirido. A partir dessas informações, chegamos aos comerciantes que revendem os produtos – alvos centrais da nossa estratégia de enfrentamento.

Essa abordagem, voltada a desestruturar a lógica de circulação dos celulares roubados, já apresenta resultados expressivos. Comparando os primeiros meses de 2025 com o mesmo período de 2022, observamos uma redução de aproximadamente 60% nos registros desse tipo de crime. Esse resultado reflete uma mudança na percepção da população, que passou a entender que não vale a pena adquirir produtos de origem criminosa. Além disso, trabalhamos com o princípio da responsabilização de quem compra, desde que esteja agindo de má fé.

A iniciativa atraiu a atenção de outros estados e do próprio Ministério da Justiça, que nos visitou e passou a adotar essa metodologia como base para um protocolo nacional. Embora os desafios em âmbito federal sejam maiores, principalmente pelo volume de dados e pelas questões operacionais, os resultados têm sido promissores. Ficamos satisfeitos em contribuir, com método e processo, para uma política pública que vem sendo replicada com sucesso em várias partes do país.

2 – A integração entre segurança pública e transformação digital é uma pauta que vem sendo bastante discutida atualmente. Quais são os próximos passos do governo do Piauí para ampliar o uso de ferramentas digitais na segurança pública, e como você vê o papel da inteligência artificial nesse processo?

Estamos desenvolvendo diversas iniciativas, mas um dos principais gargalos que identificamos na segurança pública ainda é a comunicação – mais especificamente, a dificuldade que o cidadão enfrenta para notificar a ocorrência de um crime. É inadmissível que, após ser vítima de uma violência, a pessoa ainda precise enfrentar a burocracia do Estado para conseguir relatar o fato. Muitas vezes, esse processo exige que a vítima repita o mesmo relato diversas vezes, para diferentes agentes, o que apenas reforça sua sensação de desamparo.

Nosso objetivo é justamente eliminar esses obstáculos e nos aproximar da população. Por isso, estamos prestes a lançar o primeiro boletim de ocorrência feito por meio do WhatsApp, o BO Fácil. Trata-se de uma ferramenta conversacional que torna o processo mais simples e acessível. A lógica é clara: o papel do Estado não é dificultar o acesso à informação, mas sim recebê-la, filtrá-la, analisá-la e tomar as providências cabíveis. A legitimidade da denúncia será avaliada posteriormente, mas o canal de escuta precisa estar sempre aberto.

No Piauí, temos combatido com firmeza a recusa de agentes públicos em registrar boletins de ocorrência. O subregistro é um problema sério, uma verdadeira chaga, que compromete a qualidade das estatísticas e a própria legitimidade dos dados. Ele cria uma percepção distorcida da realidade social e gera desconfiança por parte da população. Por isso, estamos tirando o controle do registro exclusivamente das mãos do Estado e devolvendo à sociedade o poder de relatar as violências que sofre, de maneira direta e desburocratizada.

3 – A experiência do Piauí inspirou o programa federal Celular Seguro. O que foi fundamental para que essa política estadual ganhasse escala nacional, e que aprendizados você considera mais relevantes para outros estados que desejam replicar essa iniciativa?

O que mais chamou a atenção no programa de recuperação de celulares – além da efetiva redução dos índices de criminalidade, que naturalmente gera reconhecimento – foi o impacto direto na confiança da população nas instituições de segurança. A devolução dos aparelhos roubados às vítimas, realizada pelo próprio Estado, provocou uma mudança significativa na percepção do cidadão sobre o papel da polícia. Muitas pessoas, que antes duvidavam da efetividade do boletim de ocorrência, passaram a acreditar novamente nas forças de segurança ao serem chamadas, mesmo depois de um longo período, para reaver seus celulares.

Esse movimento teve um efeito importante: o aumento dos registros de ocorrência. Com a divulgação dos resultados do programa, muitas vítimas que anteriormente não haviam formalizado o roubo passaram a procurar a polícia, motivadas pela possibilidade real de restituição. Em alguns casos, recebemos registros de crimes ocorridos anos antes – celulares roubados em 2019, por exemplo. Fizemos uma análise cruzando a data do registro com a data da ocorrência e observamos um delta considerável, o que confirma esse efeito de “retomada da confiança”.

Houve até situações em que a vítima não tinha mais interesse em recuperar o aparelho, mas demonstrava satisfação ao saber que o Estado havia localizado seu bem. Utilizamos o WhatsApp como ferramenta de notificação, dentro de uma estratégia de governo conversacional que aproxima o cidadão da gestão pública. Mesmo quando o celular não era retirado, a resposta das pessoas era positiva. O simples fato de receberem um contato oficial sobre um caso antigo já representava, para muitos, um gesto simbólico de cuidado e eficiência por parte do Estado.

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