BISC 20/02/2025

Como o Programa Partilhar, da Vale, está construindo um legado positivo além da mineração, segundo Marilza Cruz

Em entrevista, a Coordenadora do Centro de Excelência de Suprimentos da Vale destaca os avanços do projeto, que já capacitou milhares de pessoas e investiu em educação, saúde e infraestrutura

Marilza Cruz apresentando o Programa Partilhar no Grupo de Debates, no último dia 10. Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

O desenvolvimento sustentável das comunidades onde atua tem sido uma prioridade para a Vale, que busca ir além da mineração e deixar um legado positivo nesses territórios. O Programa Partilhar é um exemplo dessa estratégia, promovendo a capacitação de fornecedores e incentivando investimentos sociais que fortalecem a economia local. Por meio de critérios inovadores, como o Índice de Valor na Comunidade (IVC), a iniciativa estimula a adoção de práticas responsáveis e a geração de oportunidades para as populações beneficiadas.

Mais do que um programa de fomento a fornecedores, o Partilhar reforça a conexão entre a cadeia produtiva e o desenvolvimento social. Ao incentivar os parceiros a investir em educação, infraestrutura e qualificação profissional, a Vale busca criar um ambiente mais resiliente e preparado para um futuro além da atividade mineradora. Esse compromisso também está alinhado à meta da empresa de retirar 500 mil pessoas da extrema pobreza até 2030, somando esforços aos investimentos sociais realizados diretamente e em parceria com seus fornecedores.

Para entender melhor os impactos do Programa Partilhar e como ele se insere na estratégia de sustentabilidade da Vale, conversamos com Marilza Cruz, Coordenadora do Centro de Excelência de Suprimentos da empresa. Na entrevista a seguir, ela detalha os objetivos da iniciativa, a metodologia de monitoramento dos fornecedores e o papel do IVC na promoção de um ciclo virtuoso de desenvolvimento nas comunidades.

1 – O que levou a Vale a desenvolver o Programa Partilhar e quais são os principais objetivos da iniciativa? Além disso, de que maneira o programa se integra à estratégia de sustentabilidade da empresa? 

O Programa Partilhar tem como foco o desenvolvimento de territórios mais autônomos. A iniciativa busca deixar um legado positivo para as comunidades onde a Vale está inserida, promovendo capacitação, educação, saúde e outras ações que visam fortalecer a autonomia dessas localidades. O objetivo é garantir que essas comunidades tenham alternativas sustentáveis além da mineração, criando um “plano B” para seu desenvolvimento futuro.

Quando relacionamos o Partilhar à sustentabilidade, entendemos que o programa contribui diretamente para um dos maiores objetivos da Vale: retirar 500 mil pessoas da extrema pobreza até 2030. O Partilhar soma esforços aos investimentos sociais realizados pelos fornecedores da empresa, que desempenham um papel fundamental nesse processo. Ao unir as ações dos fornecedores com as iniciativas da Vale, que também possui uma parcela significativa de contribuição, acreditamos que a combinação desses esforços será extremamente benéfica para alcançar um impacto social mais amplo e duradouro.

2 – Como a Vale acompanha e monitora o cumprimento dos compromissos assumidos pelos fornecedores ao longo dos contratos? 

Durante o processo de negociação, o comprador da Vale apresenta ao fornecedor a possibilidade de integrar o Programa Partilhar. A participação no programa é facultativa, ou seja, não é obrigatória. Caso o fornecedor opte por aderir, ele estabelece um acordo que pode gerar uma cláusula contratual. Quando o fornecedor assina esse compromisso, o comprador repassa as informações para a equipe responsável pelo programa, em um processo conhecido como handover. O plano de ação do fornecedor é então registrado em uma base de dados automatizada, onde diversas planilhas são integradas para fornecer uma visão completa das ações previstas.

Essa base de dados é dinâmica e atualizada diariamente, permitindo o acompanhamento em tempo real das atividades dos fornecedores. Por meio dela, é possível monitorar detalhes como o que o fornecedor planeja realizar, o valor do investimento social previsto, o cronograma de execução e o território onde o investimento será feito. Além disso, a base permite identificar se o fornecedor está em dia com seus compromissos, se há atrasos ou se existem dúvidas que precisam ser esclarecidas. Em alguns casos, o fornecedor pode não ter reportado corretamente os investimentos sociais realizados, e a equipe do programa atua para auxiliar nesse processo.

A equipe responsável pelo Partilhar concentra seus esforços no acompanhamento mensal dos fornecedores que têm planos de investimento previstos para cada mês. Por exemplo, em janeiro, todos os fornecedores com ações programadas para esse período são contatados, e o mesmo ocorre nos meses subsequentes. Caso um fornecedor não execute o investimento social combinado, a equipe entra em contato para entender o que ocorreu, identificar possíveis dificuldades e, se necessário, ajustar o cronograma para uma data mais adequada.

Esse acompanhamento é realizado de forma colaborativa, considerando que o investimento social é voluntário. A relação com os fornecedores é mantida em um tom amigável, mas com um monitoramento rigoroso e contínuo, garantindo que todos os compromissos assumidos sejam cumpridos conforme o planejado.

3 – O índice de valor na comunidade, o IVC, é elemento central do programa. Como isso é calculado e qual o peso que ele possui no processo de seleção e contratação de fornecedores?

O Índice de Valor na Comunidade é composto por quatro alavancas principais: emprego, gasto local, renda e investimento social. Quando um fornecedor apresenta sua proposta de contrato à Vale, por exemplo, para um serviço de alimentação, ele deve detalhar como pretende contribuir para cada uma dessas alavancas. Isso inclui a quantidade de empregos que serão gerados, o valor da renda que será distribuída, o montante que será gasto com subfornecedores locais e o investimento social que será realizado. Essas informações são utilizadas para calcular um deflator, que varia de acordo com a proposta de cada fornecedor e influencia a pontuação final.

O comprador não realiza essa avaliação de forma isolada. A equipe do Partilhar auxilia na equalização das propostas, garantindo que os números apresentados sejam factíveis e coerentes. Por exemplo, em um contrato pequeno, como um serviço de pintura, não seria razoável propor a geração de milhares de empregos, pois isso não seria viável. Dependendo do que é proposto em cada alavanca, o deflator pode se tornar mais ou menos agressivo, e cada fornecedor terá seu próprio deflator com base no processo concorrencial em que está envolvido.

O objetivo é garantir que todas as propostas sejam consistentes e que nenhum fornecedor seja privilegiado por apresentar números sem fundamento. As análises do IVC são realizadas de forma pontual, contrato a contrato, e todas passam pela validação da equipe do Partilhar. Após a confirmação de que as alavancas estão corretas e coerentes, o processo segue com a melhor condição comercial, somada ao Partilhar, quando aplicável.

4 – Desde o lançamento do programa, em 2020, quais são os principais resultados alcançados em termos de geração de empregos, renda, investimento social nas comunidades impactadas?

É algo realmente inspirador quando falamos sobre capacitação de pessoas e vemos, na prática, a transformação em suas vidas. Recentemente, estive em Itabirito, um território de influência da Vale localizado em Minas Gerais, onde participei da formatura de 42 mulheres que concluíram um curso de alta costura. A maioria delas estava vestida com as próprias roupas que confeccionaram durante o curso. Foi uma cerimônia emocionante, na qual elas receberam seus diplomas e celebraram essa conquista. Esse exemplo ilustra como o Programa Partilhar influencia diretamente na formação e na geração de renda. Muitas dessas mulheres, que antes não sabiam como gerar renda para suas famílias, agora têm habilidades para trabalhar como costureiras e contribuir financeiramente em seus lares.

Essa mudança não se limita ao segmento de costura. O Partilhar atua de forma abrangente, beneficiando toda a comunidade. Por exemplo, ao investir em educação para crianças, o programa também acolhe as mães, oferecendo oportunidades para que elas aprendam novas habilidades, como a produção de doces, e possam gerar renda para suas famílias. Enquanto as crianças são assistidas por meio de atividades esportivas ou educacionais, que as afastam de situações de risco e proporcionam um direcionamento mais adequado, as mães ganham ferramentas para melhorar sua condição financeira.

Desde o início do programa, mais de 30 mil empregos foram gerados em comunidades de todo o Brasil. Além disso, foram investidos cerca de R$ 20 milhões em educação, esporte e cultura, segmentos que têm um impacto significativo na qualidade de vida das pessoas. Embora seja difícil medir o impacto de forma precisa, a percepção é clara: o Partilhar tem melhorado a vida das pessoas. O nível de conflitos e insatisfações nas comunidades diminuiu, e a recepção da população quando visitamos esses territórios é incrível. A presença dos fornecedores, engajados em ações genuínas de formação, acolhimento e compromisso com o desenvolvimento local, faz com que a comunidade perceba os benefícios reais do programa.

Outro exemplo marcante foi a formatura de 60 mulheres caldeireiras. A caldeiraria é uma atividade tradicionalmente masculina, mas um fornecedor decidiu formar uma turma exclusiva para mulheres. Elas se formaram e o mercado reconheceu essa iniciativa, gerando maior competitividade e empregabilidade para essas profissionais. Durante a cerimônia, sentada no meio do público, pude observar a emoção das famílias presentes. Os filhos, maridos e mães vibravam ao ver suas familiares receberem os diplomas. Cenas como essa são emocionantes e mostram como o programa, aliado ao protagonismo dos fornecedores, pode mudar o rumo da vida das pessoas.

Para nós, pode parecer uma ação pequena, mas para quem recebe, é algo profundamente significativo. Embora não seja possível medir o impacto de forma precisa, a percepção de melhoria na qualidade de vida das comunidades é evidente. O Partilhar está, de fato, transformando realidades e abrindo novas oportunidades para aqueles que mais precisam.

Deixe seu comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *