Comunitas 23/01/2025

Do K-pop à Lei Rouanet: os caminhos para transformar a cultura em ativo estratégico para o Brasil

Como o exemplo da Coreia do Sul mostra que investir no setor pode ser uma poderosa tática de desenvolvimento econômico e social, além de influenciar a diplomacia nacional 

Cena do filme Ainda Estou Aqui. Crédito da Imagem: NSC Total

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS, da sigla em inglês) revelou a lista oficial dos indicados ao Oscar 2025, o mais prestigiado prêmio do cinema mundial. Representando o Brasil, o filme Ainda Estou Aqui conquistou sua indicação em 3 categorias, destacando-se entre as principais produções internacionais da temporada.

A película, dirigida por Walter Salles, surgiu como um dos grandes destaques desta temporada de premiações, consolidando-se como uma forte candidata ao Oscar após o Globo de Ouro. Na ocasião, Fernanda Torres foi premiada como Melhor Atriz em Drama, reforçando o impacto da produção, que agora concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz e Melhor Filme.

Uma vitória do indicado brasileiro em qualquer das categorias a que concorre representaria um marco histórico para o país. Tal conquista não apenas destacaria o talento nacional no cenário global, mas também reforçaria a relevância da produção cultural brasileira. Além de elevar a visibilidade internacional de nossos artistas e cineastas, um triunfo no Oscar pode impulsionar o setor cultural no Brasil, inspirando novos projetos, atraindo investimentos públicos e privados e ampliando o fomento às artes. 

Descubra como esse reconhecimento pode transformar a cultura nacional e abrir portas para um futuro mais promissor para o Brasil!

O papel estratégico do Estado no fomento à cultura

Antes de mais nada, é fundamental compreender o papel estratégico do Estado no fomento à cultura e os benefícios que esse tipo de investimento pode trazer para um país. A indicação do filme brasileiro ao Oscar 2025 traz à tona a relevância dessa discussão. Investir em cultura é impulsionar o desenvolvimento econômico, social e geopolítico, uma expressão prática do chamado soft power.

Soft power é o poder de influência de um país por meio da cultura e ideologia. A Coreia do Sul, por exemplo, conseguiu projetar uma imagem de modernidade e diversão globalmente com o K-pop. Mas esse sucesso não surgiu por acaso. Durante a recessão econômica dos anos 1990, o governo sul-coreano adotou políticas inovadoras para mitigar os impactos econômicos, incluindo um forte investimento em cultura.

A guinada começou com o sucesso da novela What Is Love na China, que despertou o interesse governamental em globalizar a cultura popular do país. A partir disso, a Coreia criou um departamento no Ministério da Cultura dedicado ao K-pop. Internamente, o governo implementou programas de proteção à indústria musical, construiu grandes estádios e incentivou a popularização do karaokê, entre outras iniciativas.

O resultado foi extraordinário. O K-pop se tornou um fenômeno asiático e, em 2018, conquistou o cenário global, movimentando, em 2024, entre US$ 500 bilhões e US$ 1,5 trilhão. Além do retorno financeiro, o investimento em cultura trouxe à Coreia do Sul um aumento significativo de influência global. O K-pop despertou o interesse internacional não só pela música, mas pela cultura coreana como um todo, ampliando o turismo e fortalecendo sua posição no cenário global. 

Membros do BTS, um dos maiores expoentes mundiais do K-pop. Crédito da Imagem: UOL

Como reflexo desse sucesso, o governo criou, no ano passado, um visto específico para atrair fãs da K-culture, incentivando visitas ao país e transformando o fenômeno cultural em uma ferramenta estratégica para fortalecer sua economia e projeção global.

O papel da iniciativa privada na expansão da K-culture

A Hallyu, ou “Onda Coreana”, é um exemplo bem-sucedido de como a colaboração estratégica entre o governo sul-coreano e a iniciativa privada pode transformar a cultura em um poderoso motor de desenvolvimento econômico e de influência global. Esse movimento, que começou com dramas televisivos (doramas) e música, evoluiu para uma plataforma multifacetada que inclui cinema, moda, tecnologia e turismo (ou, de uma forma geral, K-culture), consolidando a Coreia do Sul como uma potência cultural.

O governo sul-coreano adotou políticas ativas para incentivar a exportação cultural como parte de sua estratégia de desenvolvimento. Leis como a Basic Law for the Cultural Industry Promotion (Lei Básica para a Promoção da Indústria Cultural, em tradução livre), promulgada em 1999, alocaram mais de US$ 140 milhões para a expansão da indústria cultural, enquanto a criação da Korea Cultural Contents Promotion Agency (Agência de Promoção de Conteúdo Cultural Coreano, em tradução livre, de 2001) visou impulsionar a produção e a exportação de conteúdos diversos. Nesse contexto, empresas privadas desempenharam um papel central, tanto no financiamento quanto na execução de iniciativas culturais.

Grandes conglomerados, conhecidos como chaebols, a exemplo de Samsung e LG, inicialmente fortaleceram a imagem do país com produtos tecnológicos inovadores. A partir dos anos 2000, empresas especializadas no entretenimento, como HYBE Corporation (responsável pela boyband BTS), YG Entertainment (responsável pela girlband BlackPink) e JYP Entertainment, tornaram-se protagonistas na globalização da cultura sul-coreana. Essas empresas investiram massivamente em talentos, tecnologias de produção e marketing internacional, criando fenômenos culturais que conquistaram públicos ao redor do mundo.

Os números reforçam o impacto dessa parceria. O BTS, por exemplo, contribuiu com cerca de US$ 29 bilhões para a economia sul-coreana entre 2014 e 2023, incluindo setores como turismo, merchandising e vendas de produtos culturais. Em 2018, o K-pop movimentou aproximadamente US$ 5 bilhões, com o BTS sendo responsável por 72% desse total, de acordo com o Instituto de Pesquisas Hyundai. Já a BlackPink, além de suas conquistas musicais, ampliou o alcance global da moda coreana ao se tornar embaixadora de marcas de luxo como Dior, Chanel e Bulgari, gerando um enorme impacto no mercado de mídia e consumo.

O setor de streaming também se tornou um aliado estratégico. A transnacional Netflix, por exemplo, anunciou em 2023 um investimento de US$ 2,5 bilhões em produções coreanas para os próximos quatro anos. Séries como Round 6, que se tornou a mais assistida da história da plataforma, e o sucesso de filmes como Parasita, que arrecadou US$ 262 milhões globalmente e ganhou quatro Oscars, mostram o apelo global das produções sul-coreanas.

Cena do filme Parasita, de 2019. Crédito da Imagem: Instituto de Cinema

Além do retorno financeiro, a expansão da K-culture trouxe um aumento significativo da influência geopolítica da Coreia do Sul. O soft power cultural do país despertou um interesse global por sua língua, gastronomia e tradições, fortalecendo o turismo e as relações diplomáticas

Fonte: A Cultura Coreana como instrumento de Soft Power da Coreia do Sul: Uma análise sobre a Hallyu (2023)

Reflexões para o Brasil

As estratégias do Brasil e da Coreia do Sul para o fortalecimento da cultura, apesar de contextos e resultados distintos, compartilham pontos em comum. Ambos os países reconhecem o papel fundamental do Estado no fomento à cultura e estabeleceram marcos legais para apoiar o setor. Outra semelhança é o incentivo à produção audiovisual, evidenciado pelos subsídios coreanos para a área e pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) no Brasil, que fortalecem suas indústrias cinematográficas.

No entanto, há diferenças significativas. A Coreia realizou investimentos massivos e contínuos ao longo de décadas, com um planejamento estratégico claro voltado para o uso da cultura como ferramenta de soft power, enquanto o Brasil enfrenta descontinuidade em políticas culturais e instabilidade no financiamento. A parceria entre governo e iniciativa privada também é mais estruturada na Coreia, onde as chaebols desempenham papel central no desenvolvimento da indústria cultural. Já no Brasil, o setor cultural depende majoritariamente de incentivos públicos, com menor aporte do setor privado.

O sucesso da Coreia do Sul com a Hallyu oferece uma importante lição sobre o poder do investimento em cultura. E, nesse sentido, as empresas da Rede BISC, reconhecendo esse potencial, têm investido em projetos culturais como parte de suas estratégias de responsabilidade corporativa e desenvolvimento social. 

Historicamente, o setor cultural tem ocupado um lugar de destaque no investimento social corporativo brasileiro. Entre 2017 e 2023, as empresas da Rede BISC destinaram aproximadamente R$ 3.37 bilhões a projetos de arte e cultura nas comunidades e patrocínios culturais, com destaque para iniciativas viabilizadas pela Lei Rouanet. Desde sua criação, em 1991, o mecanismo legal tem se consolidado como uma ferramenta imprescindível para o fomento da cultura no Brasil, captando mais de R$ 28,5 bilhões e beneficiando cerca de 75 mil projetos na área.

Investir em soft power é uma estratégia de longo prazo, mas os resultados podem transformar a percepção de um país no cenário global. No caso da Coreia do Sul, décadas de investimento coordenado entre governo e iniciativa privada resultaram na consolidação da K-culture como um dos maiores fenômenos culturais da contemporaneidade. E o Brasil pode e deve seguir o mesmo caminho.

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