Encontro Rede Juntos debate estratégias integradas e sustentáveis para a segurança pública
O evento evidenciou que a construção de cidades mais seguras e justas depende de um esforço coletivo, com planejamento estratégico e foco em resultados para a sociedade

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello
Na manhã da última sexta (09), a Comunitas, em parceria com o Insper, realizou mais uma edição do Encontro Rede Juntos. Com o tema “Liderança e Inovação – Novos Caminhos para a Segurança Pública”, o evento reuniu cerca de 80 pessoas, entre gestores públicos, especialistas, parlamentares e interessados no tema para debater os principais desafios estruturais da área, trocar boas práticas e discutir soluções inovadoras e sustentáveis para o fortalecimento da segurança pública no país.
Com uma programação focada no diálogo entre diferentes esferas do poder público e da sociedade civil, o encontro buscou estimular a construção colaborativa de estratégias para uma segurança pública mais eficiente, integrada e baseada em evidências. Durante as discussões, os palestrantes apresentaram casos de sucesso e propuseram abordagens inovadoras para os problemas do setor, incentivando a formação de redes de cooperação entre os participantes.
O evento reforçou a urgência de novas abordagens para a segurança pública, que superem o modelo tradicional baseado apenas no policiamento repressivo. Os participantes destacaram a importância de políticas intersetoriais – combinando educação, urbanismo social, saúde mental e tecnologia – para enfrentar as raízes da violência de forma eficaz. Outro ponto central foi o papel estratégico dos municípios nessa equação, com a necessidade de fortalecer as guardas civis, adotar transparência na gestão de dados e priorizar ações preventivas, mostrando que a segurança pública é uma responsabilidade compartilhada entre todos os entes federativos.
Para enriquecer o debate e ampliar as perspectivas sobre o tema, o evento contou com a participação do Secretário de Segurança Pública do Estado do Piauí, Chico Lucas; do Secretário Executivo do Programa RS Seguro, Antônio Padilha; e do Coordenador do Centro Integrado de Comando e Controle da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Rodrigo Vilardi. Representando a esfera municipal, participaram o Secretário de Segurança Pública de Santo André, Telmo Araújo; e o chefe-executivo da Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas), com atuação no município do Rio de Janeiro, Davi Carreiro.
Também integram a programação a Presidente da Comunitas, Regina Esteves; a Coordenadora do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper, Vivian Satiro; os Deputados Federais Pedro Paulo Teixeira (RJ) e Ricardo Salles (SP); o Diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima; a pesquisadora e professora do Insper, Mariana Chies; o professor e especialista em segurança pública, Leandro Piquet; o cientista político e coordenador do Mapa da Contratualização, Fernando Schuler; o pesquisador do IPEA e membro da Rede Comunitas, Daniel Cerqueira; e a vereadora de São Paulo, Cris Monteiro.
“Eu gostaria de destacar que a nossa maneira de trabalhar é sempre envolvendo pessoas que fazem, que conseguem ter um olhar dentro da sua missão pública de observar e saber que, diante de uma somatória de esforços, de uma governança compartilhada, a gente tem a capacidade de fazer, ser mais eficiente e talvez atender mais pessoas”, destacou Regina Esteves.
Painel 1 – Avanço das políticas públicas nacionais de segurança pública, cenário atual e prospecção de futuro

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello
A primeira roda de debates reuniu Renato Sérgio de Lima, Leandro Piquet, Mariana Chies e teve moderação de Fernando Schuler. O grupo discutiu os dilemas da segurança pública brasileira diante de uma sociedade em rápida transformação – marcada pela digitalização, por novas formas de organização social e pela expansão das atividades do crime organizado.
Embora alguns indicadores de violência tenham recuado nos últimos anos, os palestrantes chamaram atenção para desafios mais complexos, como a sensação crescente de insegurança, a dificuldade de resposta do Estado e a sobrecarga das instituições. A conclusão é que os instrumentos atuais ainda estão presos a uma lógica ultrapassada, enquanto os problemas se multiplicam em novas frentes.
Renato lembrou que, desde 1991, o Brasil teve pelo menos 16 planos nacionais de segurança pública, muitos deles ambiciosos, mas sem qualquer tipo de avaliação governamental. “Se algo tivesse dado certo, não teríamos tantos”, afirmou.
O papel dos municípios também entrou no centro da discussão. Em vez de ficarem restritos a funções operacionais ou de vigilância, as cidades precisam participar da construção de soluções mais duradouras, com articulação clara entre os diferentes níveis de governo e aproveitamento dos espaços institucionais já existentes, como os Planos Plurianuais e os sistemas de garantia de direitos.

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Mariana Chies ressaltou a importância de fortalecer a cooperação federativa, especialmente em temas como o sistema prisional, onde nascem e se organizam muitas das facções criminosas. Ela também destacou a negligência com a saúde mental dos profissionais da segurança. “A polícia morre muito no Brasil, inclusive por suicídio. A gente não fala de saúde mental porque não priorizamos isso na segurança pública”.
Leandro Piquet foi direto ao apontar as falhas no sistema penal e nas ações de repressão. Para ele, não dá para enfrentar o crime com estruturas corrompidas e mal calibradas. “Com uma polícia corrupta não tem como enfrentar o crime”, disse. Ele também defendeu uma discussão mais realista sobre punição e prisão.
A roda terminou com a mensagem de que o combate à violência exige menos improviso e mais estratégia. O caminho passa por planejamento de longo prazo, uso consistente de dados, criatividade institucional e fortalecimento das redes que operam no território.
Roda 2 – Boas Práticas em Segurança Pública

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello
A segunda roda de debates do encontro reuniu especialistas e gestores públicos para compartilhar experiências inovadoras em segurança. Participaram Daniel Cerqueira, Chico Lucas, Davi Carreiro, Telmo Araújo, Rodrigo Vilardi e Antônio Padilha.
Piauí
Ao assumir a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas encontrou um cenário de baixa articulação entre os órgãos do sistema de justiça e apostou na modernização tecnológica como caminho para reverter esse quadro. Criou a Superintendência de Cidadania Digital para enfrentar o desafio do baixo letramento digital da população e ampliar o acesso aos serviços públicos. Também promoveu a integração de bancos de dados – biométricos, criminais e policiais – com o objetivo de tornar a atuação mais eficiente e orientar as decisões com base em evidências.
Uma das principais entregas da gestão foi a atuação contra o roubo de celulares, que resultou em uma redução de 60% desse tipo de crime no Estado – considerado um dos grandes casos de sucesso do país, que foi ampliado nacionalmente pelo programa Celular Seguro, implementado pelo governo federal. Essa conquista foi viabilizada por meio do uso estratégico de dados e da articulação entre diferentes áreas da segurança pública, mostrando que tecnologia, quando bem direcionada, pode trazer resultados concretos para a população.
Entre outras inovações, destaca-se o “BO Fácil”, uma plataforma digital para registro de ocorrências que busca eliminar a prática de recusa policial em formalizar denúncias. “Policial que se recusar a registrar ocorrência será demitido. Isso não é uma opção, é um dever”, afirmou Lucas. As medidas já têm impacto direto no aumento da efetividade das prisões, o que levou ao dobro da população carcerária – não por endurecimento das penas, mas pela maior capacidade de captura de foragidos.
O Piauí também foi o primeiro Estado do país a emitir a nova carteira de identidade digital de forma descentralizada. Apesar dos avanços, o secretário faz questão de lembrar que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas estruturais: é preciso promover integração institucional, superar gargalos nos arranjos federativos e garantir que as ações tenham foco em resultados. Crítico à atuação do Judiciário, Lucas resume: “Não adianta a polícia prender se o sistema de justiça solta”.
Rio de Janeiro (RJ)
Com atuação focada em segurança pública e inteligência territorial, a Civitas, ferramenta comandada por Davi Carreiro, tem se destacado pelo uso intensivo de tecnologia no apoio às forças policiais do Rio de Janeiro. Sua plataforma opera 24 horas por dia, coletando, integrando e analisando grandes volumes de dados – atualmente, cerca de 60 terabytes – em tempo real. Um dos diferenciais é a conexão direta com sistemas de radares, permitindo a detecção instantânea de placas suspeitas e o monitoramento de mais de 7 mil veículos.
Esse conjunto de informações alimenta um aplicativo utilizado por agentes de segurança, que podem rastrear rotas, emitir alertas e até compartilhar dados estratégicos via Telegram. O resultado prático dessa integração entre tecnologia e policiamento é concreto: 113 abordagens já foram realizadas com base nas informações da plataforma, levando a 84 prisões.
Segundo ele, o sucesso do modelo está na capacidade de transformar dados brutos em ações rápidas e coordenadas. “A inteligência territorial só faz sentido se gerar resultado no chão. Nosso trabalho é garantir que a informação chegue certa, no tempo certo, para quem pode agir”, afirma o gestor. A parceria da Civitas com a Polícia Civil se consolidou como uma das principais no enfrentamento a quadrilhas especializadas no Estado.
Santo André (SP)

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Santo André tem se consolidado como referência em segurança pública no Brasil, ocupando a 9ª posição no ranking das cidades mais seguras do país, segundo dados do Myside. Sob a liderança do secretário de Segurança Cidadã, Telmo Araújo, o município tem direcionado esforços específicos ao enfrentamento da violência de gênero, com destaque para a atuação da Patrulha Maria da Penha. A iniciativa já garantiu proteção a mais de 5.200 mulheres por meio de rondas preventivas e atendimento direto às vítimas.
Apesar dos avanços, o desafio persiste, visto que muitas mulheres acabam desistindo do processo de denúncia, por medo ou desmotivação. Para Telmo, esse é um obstáculo que exige mais do que ações operacionais. “Precisamos romper o ciclo da violência com acolhimento, escuta e compromisso. Segurança também é escuta ativa”, defende o secretário. Nesse sentido, a cidade aposta na capacitação dos agentes – mais de 800 guardas municipais já foram treinados em atendimento humanizado – e na criação de um Observatório de Boas Práticas, que pretende articular experiências exitosas entre os municípios paulistas.
Estado de São Paulo

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Com o objetivo de reforçar a segurança pública e garantir respostas mais rápidas aos crimes, o São Paulo tem apostado na integração entre as forças policiais e o sistema de justiça por meio da chamada Muralha Paulista. A iniciativa, coordenada pelo Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), facilita o compartilhamento de informações essenciais – como registros de desaparecimentos, medidas protetivas e penas alternativas – com os 645 municípios paulistas, permitindo uma atuação mais ágil e coordenada.
Na prática, essa integração já traz mudanças significativas, como a possibilidade de policiais solicitarem medidas cautelares imediatamente após o registro de ocorrência, acelerando prisões e protegendo vítimas com mais eficiência. Além disso, a central estadual de monitoramento tem contribuído para ações preventivas mais eficazes, especialmente no combate à mobilidade do crime.
Rodrigo Vilardi, coordenador do CICC, destaca que a tecnologia tem sido uma aliada fundamental: “A Muralha Paulista não é só vigilância; é inteligência aplicada. A conexão entre dados e instituições tem potencial transformador para a segurança pública”, destacou ele. Entre os avanços mais relevantes implementados pelo Estado, está o fim das saídas temporárias mal fiscalizadas, medida que fortalece a credibilidade do sistema penal.
Rio Grande do Sul
Lançado em 2019 como resposta aos alarmantes índices de violência registrados no Estado – que em 2017 apresentava taxas de homicídio até 30 vezes superiores à média europeia – o programa RS Seguro tem promovido uma abordagem transversal da segurança pública no Rio Grande do Sul, articulando ações nas áreas da saúde, educação, economia e segurança propriamente dita. Estruturado em quatro eixos – combate ao crime, políticas sociais e preventivas, qualificação do atendimento ao cidadão e valorização profissional -, o programa vem se consolidando como uma das principais estratégias de redução da criminalidade no território.
Entre os destaques da iniciativa, está a plataforma GESeg, premiada pela consultoria Gartner, que utiliza dados georreferenciados e mapas de calor para orientar ações policiais com base em evidências. Desde sua implementação, o RS Seguro já contribuiu para preservar mais de 5,4 mil vidas, graças à aplicação da tática de dissuasão focada nos territórios mais vulneráveis. A governança do programa é marcada por reuniões mensais com os 23 municípios prioritários, o que garante alinhamento estratégico e constante monitoramento dos indicadores.
Para o secretário executivo do programa, Antônio Padilha, a principal inovação do RS Seguro está na forma como ele articula diferentes áreas do governo. “A segurança pública não se faz apenas com polícia. Ela exige políticas integradas, decisões com base em dados e um compromisso contínuo com a vida das pessoas. É isso que temos perseguido desde o início do programa”, afirma. Até 2026, estão previstos investimentos de R$ 3,7 bilhões em segurança, sistema penal, infraestrutura e equipamentos.
Apresentação da Agenda Legislativa de Segurança Pública

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Na Agenda Legislativa de Segurança Pública, o deputado federal Pedro Paulo Teixeira defendeu uma abordagem mais estratégica no Congresso, baseada no mapeamento de proposições já em tramitação. “A ideia não é reinventar a roda, mas montar um grande dashboard desses projetos e apontar quais precisam ser priorizados, impulsionados e trabalhados com mais energia”, afirmou.
Segundo ele, a proposta é identificar lacunas na legislação e, a partir desse diagnóstico, construir consensos sobre temas com viabilidade política para avançar no Parlamento. “Vamos identificar o que tem aderência e viabilidade para trabalhar em cima da pauta e, consequentemente, aprovar no Congresso Nacional”, disse.
O deputado também sugeriu a criação de um centro especializado para subsidiar os parlamentares com dados e análises sobre segurança, inspirado no modelo do Instituto Fiscal Independente. Entre os temas destacados pelo parlamentar em sua apresentação, estão o “prende e solta”, a cooperação federativa, o controle territorial – especialmente em áreas sob domínio do crime organizado – e questões do sistema de justiça, como a prisão preventiva.
Roda 3 – Caminhos e convergências para a segurança pública

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O último painel do dia reuniu representantes da gestão pública e do terceiro setor em uma conversa sobre os rumos da segurança pública no Brasil. Participaram Chico Lucas, Davi Carreiro, Rodrigo Vilardi, Antônio Padilha, Cris Monteiro, Ricardo Salles e Daniel Cerqueira, que fez a mediação. A tônica do painel foi reforçar que é preciso ampliar o olhar sobre segurança e entender que o problema não se resolve apenas com mais policiamento nas ruas.
Ao longo da discussão, ficou evidente o consenso de que enfrentar a violência exige um trabalho integrado com outras áreas, como educação, saúde, assistência social, urbanismo e zeladoria. Daniel Cerqueira ilustrou esse ponto ao lembrar de uma experiência em Belo Horizonte, onde intervenções culturais em comunidades ajudaram a reduzir os homicídios. “Não podemos nos estreitar em apenas um tema. É preciso olhar a segurança pública em toda a sua complexidade”, afirmou.

Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello
O papel das prefeituras também ganhou destaque. Fortalecer guardas municipais, investir em tecnologia de prevenção e criar espaços de articulação entre diferentes setores foram apontados como caminhos promissores. Davi Carreiro reforçou que os municípios não podem ficar à margem da estratégia e defendeu uma gestão mais inteligente dos dados.
Outro ponto importante foi a transparência. Em São Paulo, por exemplo, os boletins de ocorrência são usados para guiar as ações da polícia de forma mais eficaz. “Quem tem que ditar qual é a prioridade da polícia é a sociedade”, disse Rodrigo Vilardi. Já o programa RS Seguro mostrou como ouvir as pessoas e entender os territórios pode transformar a maneira de fazer segurança. “Não podemos usar as mesmas soluções para problemas diferentes”, destacou Antônio Padilha.
Nas falas finais, os participantes reforçaram a urgência de políticas permanentes, construídas com base em dados, diálogo e integração. A segurança pública precisa ser tratada como um esforço coletivo – e não como responsabilidade exclusiva das forças policiais.
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