Especialistas apontam caminhos para o fortalecimento da segurança pública no Brasil
O encontro reuniu pesquisadores para debater soluções estruturais para o setor e avançar na construção de um documento propositivo voltado à implementação de políticas no país

Na manhã de hoje (25), a Comunitas realizou mais uma edição do Encontro Rede Juntos, que reuniu especialistas da área da segurança pública para debater caminhos práticos para fortalecer a agenda no Brasil, com foco em governança federativa, integração de dados, sistema prisional e o enfrentamento ao crime organizado.
O evento faz parte de um movimento estratégico da Comunitas para articular propostas de longo prazo que servirão como um documento de referência nacional para o desenvolvimento do país em diferentes esferas. Com uma abordagem essencialmente orientada a resultados, o encontro teve como objetivo debater os principais caminhos para a produção de um documento propositivo e pragmático, estruturado para apoiar a implementação de soluções reais na ponta e garantir que as recomendações se traduzam em ações concretas para a melhoria da qualidade de vida da população.
Com uma programação voltada à troca de conhecimento, o encontro reforçou que a segurança pública vai além do policiamento ostensivo, envolvendo desafios de desenho institucional, inteligência e governança intersetorial. Especialistas e ex-gestores apresentaram diagnósticos e experiências concretas sobre controle territorial, atuação das guardas municipais e eficiência policial, evidenciando a possibilidade de soluções integradas mesmo em contextos de alta complexidade e restrição fiscal.
Outro ponto discutido foi a necessidade de superar a fragmentação de dados, avançando em modelos de interoperabilidade e governança civil. Nesse sentido, a consolidação de uma política pública nacional exige coordenação política, pactuação de regras claras de financiamento e cooperação estruturada entre entes federativos, inspirada em experiências como o SUS.
Para aprofundar o debate e inspirar novos caminhos, o evento contou com a participação do professor e cientista político Leandro Piquet (USP); do professor e ex-secretário de segurança de Minas Gerais, Luís Flávio Sapori; da diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo; do diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, do cientista político, especializado em economia criminal e políticas de controle de mercados ilícitos, João Henrique Martins; e do sociólogo, Túlio Kahn.
Arquitetura da agenda de segurança pública e governança federativa

Na abertura do painel, Leandro Piquet apresentou a estrutura do debate e organizou os principais eixos que orientaram a discussão ao longo do encontro. Ele destacou que a proposta é trabalhar dentro do quadro institucional existente, identificando gargalos e possibilidades concretas de cooperação entre órgãos e níveis de governo.
O professor também chamou atenção para a expansão de organizações criminosas em setores formais da economia, como combustíveis, mineração e sistema financeiro, e para a importância da inteligência financeira e da integração com órgãos como Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). “O enfrentamento ao crime organizado hoje não se faz apenas na ponta do policiamento ostensivo, mas sim na blindagem da economia legal, unificando a inteligência fiscal e financeira para sufocar os fluxos logísticos que financiam essas estruturas”, declarou ele.
Eixos da agenda
Piquet organizou o debate em seis frentes principais:
- A relação do crime organizado com a economia legal;
- Controle de territórios e presença do Estado;
- Transparência, integridade e atuação policial;
- Integração do sistema de segurança (SUSP);
- Sistema prisional;
- Governança federativa e cooperação internacional.
Crime organizado e sistema prisional

Luís Flávio Sapori reforçou que crime organizado e sistema prisional são agendas inseparáveis, lembrando que muitas das principais facções do país surgiram dentro das prisões. Segundo ele, apesar de ocupar um papel central na dinâmica do crime organizado, o sistema prisional ainda permanece em segundo plano no debate da segurança pública. O pesquisador também destacou a importância da integração entre instituições como Polícia Federal, Ministérios Públicos, COAF e Receita Federal, mas alertou para os desafios de coordenação entre estruturas como Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), que ainda operam de forma pouco articulada.
No campo prisional, Sapori defendeu o fortalecimento das audiências de custódia, o uso de ferramentas de avaliação de risco e a ampliação de estudos de reincidência para orientar políticas mais consistentes de gestão e reinserção social. Além disso, ao abordar a superlotação penitenciária, ele ressaltou que o problema continua limitando avanços estruturais no sistema. “Se não enfrentarmos o problema abrindo vagas de maneira corajosa, nós vamos continuar mantendo calabouços e masmorras em vez de garantir o mínimo de dignidade”, declarou.
Saiba mais – Do Estado de Coisas Inconstitucional à Construção do Pena Justa
Forças policiais e governança da segurança pública

Carol Ricardo destacou o controle de armas como tema transversal à agenda de segurança pública, defendendo que o enfrentamento ao crime organizado também passa pela redução do poder bélico das facções. “Ainda que a criminalidade tenha se ampliado para o sistema financeiro, o controle territorial nas pontas só se exerce porque o crime está fortemente armado”, afirmou. Nesse contexto, ela mencionou iniciativas como a Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas de Fogo e Munições (RENARM) e o Sistema Nacional de Análise Balística (SINAB), além de avanços na cooperação internacional voltada ao combate ao tráfico de armas e drogas.
Ao abordar a legitimidade das forças policiais, Carol ressaltou a importância de discutir eficiência, integridade e mecanismos de controle institucional, como corregedorias autônomas, ouvidorias, auditorias externas e o uso de câmeras corporais como ferramenta de supervisão e qualificação da atividade policial.
Crime organizado, mercados ilícitos e governança da informação

Renato Sérgio de Lima chamou atenção para o papel crescente das Guardas Municipais na segurança pública, destacando que elas já representam a segunda maior força do país em efetivo, mas ainda operam sem coordenação nacional clara e com baixa definição sobre atribuições, fiscalização e padronização entre municípios. Para ele, esse cenário evidencia um importante dilema federativo ainda pouco enfrentado na arquitetura institucional da segurança pública brasileira.
Ao abordar os sistemas de informação, Lima afirmou que o principal problema do país não é a falta de dados, mas a ausência de governança e interoperabilidade entre bases já existentes. Segundo o pesquisador, trata-se menos de um desafio tecnológico e mais político e institucional, marcado por disputas e diferentes capacidades de gestão entre entes federativos. “O que realmente falta na segurança pública não são dados; o ‘xis’ da questão é a governança federativa compartilhada”, afirmou.
Síntese

João Henrique Martins consolidou uma leitura integrada dos desafios da segurança pública a partir dos seis eixos estruturantes apresentados ao longo do encontro, que o país já acumula informação em excesso, mas carece de coordenação, interoperabilidade e, sobretudo, de uma instância de governança capaz de transformar dados dispersos em decisão pública qualificada.
O debate reforçou, ainda, que o desafio não está apenas em conectar sistemas, mas em estabelecer regras claras de acesso, uso e responsabilização das informações. Nesse contexto, ganha força a ideia de que a política pública depende menos da disponibilidade de dados e mais da forma como eles são organizados e governados.
Com a conclusão das mesas de debate, o encontro consolidou um espaço de convergência entre conhecimento técnico e experiência prática de gestão pública. As contribuições apresentadas ao longo da programação passam a orientar a construção de uma agenda nacional mais integrada e viável para o fortalecimento da segurança pública no país, concebida para apoiar governos de diferentes matrizes políticas na implementação de soluções modernas, eficientes e com impacto concreto na vida da população.
Deixe seu comentário!