BISC Investimento Social Corporativo | 28/04/2026

Integração entre investimento social e negócio avança e impõe novos desafios, afirma nova pesquisa do BISC

Debates apontam que a aproximação entre investimento social e negócio exige governança, intencionalidade e compromisso com resultados para a sociedade 

Crédito da Imagem: Cauê Diniz/B3 Social

Na manhã desta terça-feira (28), a Comunitas, em parceria com a B3 Social, realizou o lançamento da pesquisa Conexões e Fronteiras entre o Investimento Social Corporativo e os Negócios, reunindo lideranças empresariais, especialistas e parceiros da Rede BISC em um diálogo estratégico sobre os rumos do investimento social corporativo no Brasil. O encontro teve como objetivo debater sobre o papel do investimento social em um contexto de crescente integração com as estratégias de negócio, reforçando a importância de qualificar essa agenda à luz dos desafios contemporâneos de desenvolvimento.

Ao longo da programação, as discussões destacaram como o investimento social corporativo, a sustentabilidade empresarial e as estratégias de negócio vêm se aproximando de maneira cada vez mais estruturada. Ao contextualizar esse movimento, Viviane Basso, Vice-Presidente da B3 Social, ressaltou que essa convergência exige intencionalidade e clareza de propósito para que gere valor de forma consistente. “À medida que o investimento social se aproxima do negócio, cresce também a responsabilidade de garantir que o impacto social permaneça no centro das decisões”, afirmou.

Os debates ressaltaram, ainda, que o movimento de conexão entre o investimento social e o core business já é uma realidade consolidada em grande parte das empresas, deslocando o foco da discussão para uma agenda mais sofisticada: como realizar essa integração de forma estratégica, sem comprometer a finalidade pública do investimento social? Nesse sentido, destacou-se a necessidade de equilibrar diferentes dimensões, como impacto social e retorno para o negócio, curto e longo prazo, além da gestão de riscos e oportunidades associados a essa aproximação.

Outro ponto bastante discutido foi a compreensão de que o ISC ocupa um papel estratégico dentro de um ecossistema mais amplo de capitais voltados ao impacto, dialogando com agendas como ESG e negócios de impacto, mas preservando sua finalidade pública e seu compromisso com causas e territórios. Nesse contexto, consolidou-se a visão de que o avanço dessa agenda depende da capacidade de equilibrar integração e propósito, articulando social e negócio sem diluir o impacto gerado.

Patrícia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas, destaca que o papel do encontro foi de fomentar essa reflexão de forma mais aprofundada. “Tão importante quanto criar e lançar essa pesquisa hoje, é manter essa rede e essa agenda vivas por meio das nossas trocas e dos nossos aprendizados, que são tão valiosos no decorrer do ano”.

Conexões e fronteiras entre o ISC e os Negócios

Crédito da Imagem: Cauê Diniz/B3 Social

A apresentação da pesquisa, conduzida pelo coordenador do BISC, João Morais, trouxe o pano de fundo e os principais achados do estudo, evidenciando um movimento consolidado de aproximação entre o investimento social e o core business das empresas. 

Nesse sentido, Morais destacou que o momento atual não é mais de discutir se essa conexão deve existir, mas de compreender suas implicações práticas e seus desdobramentos para o setor. “A gente viu nos últimos anos que esse alinhamento foi batendo ali em 90% das empresas, mas não se trata mais sobre isso. Agora se trata de produzir novas perguntas e entender as repercussões e os efeitos deste momento”, afirmou.

O estudo propõe uma leitura baseada em “conexões e fronteiras”. De um lado, há uma ampla agenda de oportunidades, com diferentes formas de alinhamento e potencial de geração de valor compartilhado. De outro, existem limites importantes, como o risco de captura da agenda social por interesses privados, a tensão entre curto e longo prazo e a necessidade de preservar a autonomia do investimento social.

Ao abordar esse equilíbrio, ele ressaltou que a geração de valor para o negócio deve necessariamente estar ancorada no impacto social produzido, e não o contrário. “O impacto privado não pode corroer o impacto social produzido. Ele precisa derivar do impacto social, porque essa é a missão institucional do investimento social”, explicou.

Roda 1 – Investimento Social na Perspectiva da Empresa

Crédito da Imagem: Cauê Diniz/B3 Social

O primeiro painel, moderado por Denise Hills, executiva e consultora independente de administração, reuniu Rodrigo Pizzinato (CEO do Grupo Ultra), Solange Ribeiro (Vice-Presidente da Neoenergia) e Pedro Palma (CEO da Rumo Logística). Os participantes discutiram como as empresas estão estruturando o ISC de forma mais estratégica, superando uma atuação dispersa e avançando em direção a agendas com mais foco, governança e alinhamento ao negócio.

Ao longo do debate, as lideranças destacaram a importância de definir prioridades claras, tanto do ponto de vista temático quanto territorial, concentrando esforços onde as empresas têm maior capacidade de gerar impacto. Ao explicar a reorientação do Instituto Ultra, Rodrigo Pizzinato defendeu que o fortalecimento de políticas públicas é o caminho mais efetivo. “Apoiar o governo é mais difícil, às vezes, mas é mais efetivo do que tentar fazer uma iniciativa própria, uma escola própria, um curso próprio”, afirmou.

Os participantes também enfatizaram que gerar impacto em escala exige atuação colaborativa. Nesse contexto, a articulação com governos e organizações especializadas aparece como elemento central, assim como a escuta ativa dos territórios. Ao tratar desse ponto, Solange Ribeiro alertou para o risco de iniciativas desconectadas da realidade local. “Projetos impostos geram visibilidade, mas não geram transformação”, afirmou. Ela citou a Escola de Eletricistas da Neoenergia como exemplo de uma iniciativa que integra qualificação profissional, inclusão produtiva e geração de autonomia.

Pedro Palma apresentou a experiência do Instituto Rumo, criado para organizar a atuação social da companhia em mais de 500 municípios. Ele explicou que a empresa utiliza um “mapa de calor social” para identificar vulnerabilidades e orientar suas decisões, conectando demandas dos territórios aos desafios do negócio. A abordagem, segundo ele, permite direcionar esforços de forma mais estratégica e ampliar a efetividade das iniciativas nos contextos onde a empresa atua.

Ao final, os participantes reforçaram que integrar o investimento social ao negócio não significa substituir o papel do Estado. As empresas atuam de forma complementar, apoiando políticas públicas e fortalecendo os territórios onde estão presentes. O principal desafio, segundo eles, é transformar essas experiências em aprendizados que possam ser replicados e fortalecer o campo do investimento social corporativo.

Roda 2 – Investimento social e geração de valor na sustentabilidade corporativa

Crédito da Imagem: Cauê Diniz/B3 Social

O segundo painel, moderado por Aron Belinky, pesquisador, professor e consultor especialista em sustentabilidade empresarial, reuniu Virginia Nicolau Gonçalves (Superintendente de Sustentabilidade da B3), Giuliana Ortega (Diretora de Sustentabilidade da RD Saúde) e Eduardo Möller Ferlauto (Diretor de Sustentabilidade e Diretor Executivo do Instituto Lojas Renner) para discutir os desafios práticos de implementar o ISC dentro das empresas, a partir da experiência de quem conduz essa agenda no dia a dia.

As lideranças destacaram a importância de fortalecer a governança, com definição clara de prioridades, critérios de decisão e mecanismos de acompanhamento. Ao explicar o que diferencia o investimento social da lógica de negócio, Virginia Gonçalves enfatizou o papel da intencionalidade. “O que divide essa linha é a intenção. Não podemos ‘escorregar’ e dizer que ensinamos matemática só para a pessoa ir para a Bolsa, isso pode ser uma consequência positiva futura, mas a intencionalidade do ISP deve ser na sociedade”.

Os participantes também abordaram a integração do investimento social com agendas mais amplas, como ESG e estratégia corporativa. Ao compartilhar a experiência da RD Saúde, Giuliana Ortega destacou a decisão da empresa de destinar 1% do lucro líquido anual para causas de saúde, com a meta de impactar 3 milhões de pessoas. Ao refletir sobre as tensões desse processo, ela reforçou a importância de preservar o propósito público do investimento social. “Nunca se esqueça do sentido público do investimento social privado. O investimento é privado, mas o objetivo é público”.

Eduardo Ferlauto apresentou a trajetória da Lojas Renner, onde o Instituto foi precursor da agenda de sustentabilidade há mais de 18 anos, com foco em empoderamento feminino e inclusão socioprodutiva. Ele destacou a importância da escuta ativa dos territórios e da consistência ao longo do tempo. Ao tratar dos limites da integração com o negócio, alertou para a necessidade de manter a clareza de papel. “Às vezes a expectativa do negócio é que avancemos mais do que deveríamos, e precisamos deixar claro quais são os limites da inteligência social”, afirmou ele.

Ao longo do debate, os participantes reconheceram desafios recorrentes, como a dificuldade de mensurar impacto, os custos de avaliação e a necessidade de conciliar expectativas de retorno com o tempo das transformações sociais. Ainda assim, ficou evidente que é justamente nessa complexidade que reside o potencial de evolução do investimento social corporativo. Avançar nesse campo exige mais do que respostas prontas e requer intencionalidade, consistência e a capacidade de equilibrar integração e propósito, assegurando que a geração de valor para o negócio caminhe lado a lado com transformações reais e duradouras para a sociedade. 

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