Comunitas Segurança Pública | 17/04/2025

O papel da tecnologia na redução da violência e no enfrentamento ao crime organizado

Diante dos complexos desafios da violência urbana, o Brasil busca na inovação tecnológica um caminho para fortalecer a segurança pública

Crédito da Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

A segurança é essencial para o desenvolvimento individual e social. Por isso, a violência é  uma das maiores preocupações da população, especialmente em regiões com altos índices de criminalidade, como a América Latina e o Caribe. No Brasil, a realidade é alarmante: o país registra o maior número de homicídios no mundo, segundo o Instituto Igarapé, organização dedicada a pesquisas e soluções para influenciar políticas públicas e corporativas em segurança pública, digital e climática.

Apesar da queda nos índices de mortes violentas intencionais registrada nos últimos anos, essa redução não se reflete na percepção da população sobre a violência no Brasil. Isso ocorre porque a segurança pública não é apenas impactada apenas pelo número de homicídios, mas também por outros indicadores, como assaltos, roubos, furtos e a violência de gênero, que continuam afetando diretamente a sensação de segurança e o cotidiano das pessoas.

Diante de causas complexas – que vão desde desigualdades sociais e o fortalecimento do crime organizado, até limitações nas forças policiais e no sistema prisional -, não existe uma solução única para a violência urbana. No entanto, experiências bem-sucedidas em diversas regiões do país mostram que a inovação pode ser parte dessa resposta. O uso estratégico de tecnologia tem se mostrado promissor no fortalecimento das políticas de segurança pública, permitindo ações mais inteligentes, preventivas e eficazes.

Neste artigo, vamos abordar os desafios da segurança pública no Brasil e como a adoção de tecnologias emergentes tem contribuído para transformar o enfrentamento à criminalidade, com exemplos de políticas inovadoras que já estão gerando impacto positivo nos indicadores de violência em diferentes regiões do país.

O Brasil precisa de uma nova estratégia para a segurança

Registro do ministro do STF, Flávio Dino, durante sua apresentação na última edição do Encontro de Líderes. Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello/Rony Bonani

Na última edição do Encontro de Líderes, promovido pela Comunitas em outubro do ano passado, governadores, autoridades da área de segurança pública, especialistas e representantes do setor privado se reuniram para discutir os caminhos possíveis para enfrentar um dos maiores desafios do Brasil: a violência. 

Ao longo do evento, ficou claro que o avanço do crime organizado é hoje a principal ameaça à construção de um ambiente seguro no país. Essas organizações ultrapassaram há muito tempo os limites do tráfico de drogas e passaram a ocupar espaço na economia, na política e até mesmo no cotidiano das cidades, com forte presença nas comunidades e dentro das prisões.

Outro ponto de destaque durante os debates foi a defasagem da legislação brasileira. Muitos dos instrumentos legais com os quais o país conta hoje não acompanham a complexidade das redes criminosas atuais. O Código Penal, que data de 1940, é um exemplo dessa defasagem. Além disso, o excesso de burocracia e a lentidão do sistema judiciário contribuem para a sensação de impunidade, que afeta diretamente a confiança da população no poder público.

Os participantes também destacaram como a governança da segurança pública ainda é fragmentada. Enquanto alguns defenderam mais autonomia para os estados, outros argumentaram que é preciso fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), de forma que as ações das polícias e demais órgãos de segurança possam ser melhor coordenadas entre os diferentes níveis de governo. A falta de integração e os recursos insuficientes também foram apontados como gargalos que limitam a efetividade das políticas públicas.

Como a tecnologia está transformando o combate ao crime

Policial militar operando drone. Crédito da Imagem: Secretaria de Segurança Pública do Paraná

Diante do cenário detalhado anteriormente, a tecnologia desponta como uma aliada estratégica. Se por um lado as estruturas existentes precisam ser modernizadas, por outro, experiências em curso demonstram que a inovação já está redefinindo as formas de prevenção e repressão ao crime. 

Um estudo inédito conduzido em 2023 pela FGV Direito Rio revelou como as novas tecnologias estão transformando o combate ao crime no Brasil. A pesquisa, que analisou mais de 2.000 notícias da grande mídia e entrevistou profissionais da área, identificou as ferramentas mais utilizadas pelas forças de segurança e os principais desafios na implementação dessas soluções.

Segundo o levantamento feito, drones já são utilizados por 63% das forças de segurança, seguidos por câmeras de leitura automática de placas (OCR), presentes em 44% das corporações. O reconhecimento facial aparece em 33% das polícias, enquanto as câmeras corporais estão integradas à rotina de 22% dos policiais. Já o policiamento preditivo, que utiliza dados para antecipar crimes, é adotado em 7% dos estados brasileiros.

A pesquisa também revela que essas tecnologias se tornaram parte indispensável do trabalho policial cotidiano, marcando uma transformação digital irreversível no sistema penal brasileiro. No entanto, os avanços tecnológicos vêm acompanhados de uma série de desafios. Entre os principais, estão a ausência de padronização na implementação, a necessidade de capacitação técnica dos profissionais e as preocupações éticas em torno do uso de dados sensíveis – especialmente no caso do reconhecimento facial, que levanta alertas sobre privacidade e vieses algorítmicos.

Diante desse cenário, os pesquisadores apontam a urgência de estabelecer diretrizes claras e políticas públicas específicas que orientem o uso dessas ferramentas. A ideia é garantir que a inovação tecnológica caminhe ao lado da transparência, da eficiência e do respeito aos direitos fundamentais, promovendo uma segurança pública mais eficaz e democrática.

Boas Práticas

Os dados da pesquisa evidenciam não apenas a crescente adoção de ferramentas tecnológicas, mas também seu potencial concreto quando integradas a políticas públicas bem estruturadas. Esse impacto já pode ser medido em iniciativas pioneiras pelo país, como o Muralha Paulista, em São Paulo, e a CIVITAS, no Rio de Janeiro – exemplos de como a inteligência de dados e a cooperação institucional estão gerando resultados tangíveis na redução da criminalidade. 

Muralha Paulista – SP

Centro de operações da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Crédito da Imagem: Governo do Estado de São Paulo

Lançado oficialmente em setembro de 2024 – embora já estivesse em funcionamento antes disso – o programa Muralha Paulista é uma iniciativa do Governo de São Paulo para reforçar a segurança pública por meio da integração tecnológica e da cooperação entre diferentes esferas de governo. O sistema já conecta mais de 10 mil câmeras de monitoramento em tempo real, distribuídas por praticamente todo o Estado – cobrindo 98% das cidades paulistas – e tem como objetivo controlar a mobilidade criminal, aumentando a capacidade de rastreamento e captura de indivíduos procurados pela Justiça.

A estrutura tecnológica do programa reúne informações de diferentes órgãos, como Detran, polícias Civil e Militar, prefeituras e bancos de dados criminais nacionais. Por meio do reconhecimento facial e da leitura de placas veiculares, o sistema possibilita a identificação imediata de foragidos, desaparecidos e veículos roubados. Até então, o Muralha Paulista auxiliou na recuperação de 107 carros roubados apenas no Grande ABC em 2024, e levou à prisão de 19.300 pessoas foragidas da Justiça em 2023. Além disso, o sistema facilitou a apreensão de 156 toneladas de drogas e 4.300 armas ilegais.

CIVITAS – Rio de Janeiro (RJ)

Centro de Operações do Rio de Janeiro (RJ) para a CIVITAS. Crédito da Imagem: Prefeitura do Rio de Janeiro

O programa CIVITAS (Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia de Apoio à Segurança Pública) é uma iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro, lançada oficialmente em junho de 2024, com o objetivo de fortalecer a segurança pública por meio da integração de tecnologias avançadas e análise de dados. Operando a partir do Centro de Operações Rio (COR), a CIVITAS utiliza uma rede de mais de 3.800 câmeras e 1.500 radares para monitorar a cidade em tempo real, apoiando as forças de segurança estaduais e órgãos municipais no combate a atividades ilegais e irregulares.

De acordo com a prefeitura do Rio de Janeiro, uma das principais inovações da iniciativa foi a parceria com o Disque Denúncia, que voltou a funcionar 24 horas por dia graças a um investimento anual de R$ 7 milhões do município. Essa colaboração permite que informações fornecidas pela população sejam rapidamente analisadas e transformadas em ações concretas pelas autoridades.

Em 2024, a CIVITAS contribuiu para mais de 850 investigações e operações de segurança, emitindo mais de 125 mil alertas em tempo real. Além disso, foram instaladas 622 novas câmeras de monitoramento nas principais vias da cidade, ampliando a capacidade de vigilância e resposta a incidentes. 

O programa também prevê futuras integrações com redes privadas de monitoramento, sistemas de identificação de celulares roubados, reconhecimento facial e monitoramento de redes sociais para identificar atividades suspeitas. Essas medidas visam criar um “cerco inteligente” que permita uma resposta mais eficaz às diversas formas de criminalidade na cidade. 

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Veja os comentários desta publicação

  1. SÉRGIO DOS SANTOS NASCIMENTO disse:

    Sem dúvida, estamos nos aprimorando para ofertar respostas rápidas ao cidadão. Mas, todo esse esforço é inválidado por artifícios legais, em vigor, onde o trabalho das forças não tem seus efeitos garantidos.

  2. ADAO JOSE FREITAS disse:

    Isso preciso expandir psra todo o país dentro de políticas dp Governo Federal voltados segurança pública.

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