Patricia Loyola analisa os fundamentos e desafios do ISC em um ano decisivo
Entrevista com a Diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas analisa os fundamentos do crescimento recente do ISC, os riscos estruturais que ainda persistem e os caminhos estratégicos para ampliar impacto e perenidade em 2026

O investimento social corporativo (ISC) atravessa um momento único no Brasil. Indicadores recentes apontam volumes financeiros em patamares historicamente elevados, ao mesmo tempo em que o setor passa por mudanças estratégicas em sua forma de atuação, com maior articulação em coalizões, integração às cadeias de valor das empresas e aproximação de agendas sistêmicas, como a adaptação climática e o desenvolvimento territorial. Esse cenário, no entanto, convive com desafios estruturais persistentes e com um contexto de incertezas econômicas e políticas que tornam 2026 um ano decisivo para a consolidação – ou não – dessas mudanças.
Para aprofundar essa reflexão, conversamos com Patricia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas, na qual ela analisa os fundamentos por trás do crescimento recente do ISC, discute riscos e oportunidades associados às novas dinâmicas do setor e aponta sinais de alerta e caminhos estratégicos para que o investimento social avance com mais intencionalidade, equidade e impacto no ano que se inicia.
Confira a seguir!
1 – O crescimento recorde do ISP reflete uma mudança estrutural do setor ou ainda depende de fatores estruturais e pontuais?
Eu diria que estamos diante de uma combinação das duas coisas. Os volumes recordes de investimento social privado são reais e relevantes, mas não podem ser lidos automaticamente como sinal de maturidade estrutural do setor. Parte desse crescimento ainda responde a fatores pontuais importantes, como a grande concentração do volume de investimentos em poucas grandes empresas e o efeito mobilizador das crises climáticas e humanitárias.
Ao mesmo tempo, há fundamentos mais profundos em consolidação. A pesquisa BISC, inclusive, evidenciou esse movimento ao captar não apenas volumes financeiros recordes, mas também mudanças qualitativas na forma de atuação das empresas, como o avanço da postura financiadora, a maior integração do investimento social às cadeias de valor e o crescimento das articulações colaborativas. Outras pesquisas do campo informam sobre o fortalecimento dos endowments, que também é positivo e estruturante. Esses elementos apontam para um investimento social mais estratégico e com maior potencial de perenidade.
O desafio é que essas transformações ainda convivem com fragilidades estruturais importantes, como a forte concentração dos recursos em poucos territórios e investidores e a persistência de vazios temáticos relevantes. Por isso, mais do que comemorar números, o momento exige olhar para a qualidade, a intencionalidade e a distribuição dos investimentos. É esse conjunto que vai determinar se estamos diante de uma mudança estrutural ou apenas atravessando um ciclo favorável.
2 – O avanço do financiamento a projetos de terceiros e das coalizões sinaliza um amadurecimento do ISC. Mas que tipos de riscos isso pode representar para o setor?
Esse movimento é, sem dúvida, um dos sinais mais claros de amadurecimento do ISC nos últimos anos. A maior disposição das empresas e de institutos e fundações em financiar projetos de terceiros indica o reconhecimento de que muitas das soluções sociais mais eficazes já existem e estão sendo construídas pela sociedade civil e nos territórios. Ao fortalecer essas iniciativas e atuar em coalizões, o ISC amplia escala, evita duplicidades e aumenta o potencial de impacto sistêmico.
Na Rede BISC, esse movimento aparece de forma bastante consistente. Os dados mais recentes mostram que cerca de 80% das empresas da rede já atuam em arranjos colaborativos, seja por meio de coinvestimentos, coalizões temáticas ou articulações territoriais. Também observamos um avanço relevante na disposição em financiar projetos de terceiros e em trabalhar com organizações intermediadoras.
Saiba mais: Tendência 2025: parcerias empresariais que aceleram impacto
Ao mesmo tempo, os riscos existem. As discussões que promovemos na Rede BISC deixaram claro que, sem governança bem desenhada, alinhamento de objetivos e capacidade de coordenação, as coalizões podem se tornar difusas, com dificuldade de mensuração de resultados e dispersão de recursos. O ponto aqui não é colaborar mais, mas colaborar melhor. Quando bem estruturadas, essas parcerias elevam o investimento social a um patamar mais estratégico; quando não, podem comprometer sua efetividade.
3 – Por que a concentração territorial dos investimentos sociais é tão persistente?
Fatores estruturais respondem por uma boa parte. O Sudeste concentra boa parte dos escritórios corporativos que abrigam as lideranças e times que fazem a gestão das empresas, mesmo que as operações estejam espalhadas pelo país. E isso leva a uma formação de redes de captação e articulação pelo terceiro setor mais concentrada no território. Organizações localizadas fora desse eixo enfrentam mais dificuldades para acessar essas redes e conseguir doações e patrocínios. Isso cria um círculo vicioso, em que os recursos tendem a ir para onde já existe maior capacidade instalada, reforçando desigualdades territoriais históricas, mesmo quando as necessidades sociais são mais urgentes em outras regiões.
Mesmo que a concentração dos recursos possa ter alguma base racional, é importante documentar o quão nociva pode ser essa concentração de recursos e expertises em poucos territórios. Dados públicos analisados pelo Prosas sobre as aplicações de recursos das leis de incentivo fiscal mostram que mesmo empresas de fora do eixo SP-Rio acabam destinando boa parte do imposto devido ao apoio de projetos deste eixo em vez de apoiar organizações de seus territórios. As exigências de compliance e a aversão ao risco levam a este comportamento, que não aproveitam o enorme potencial que estes investimentos poderiam ter no desenvolvimento territorial e comunitário. Um exemplo deste desequilíbrio é que apenas o bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, recebe recursos de incentivo fiscal equivalentes ou superiores ao apoio destinado a toda a região Norte e Nordeste.
Romper o padrão de concentração territorial passa pela intencionalidade de descentralizar recursos, fortalecer capacidades locais e se articular com investidores sociais, organizações e poder público nos territórios. Também passa pela identificação das sinergias entre o ISC e os objetivos de negócio em seus relacionamentos com stakeholders e dilemas sociais locais, explorando a geração de valor compartilhado entre comunidades e empresas.
4 – O que falta para a filantropia climática sair da resposta emergencial e avançar em soluções estruturantes?
O principal desafio é deslocar a filantropia climática de uma lógica predominantemente reativa para uma atuação preventiva e estruturante. As doações emergenciais têm sido fundamentais diante do aumento da frequência e da intensidade dos desastres climáticos, mas, isoladamente, elas não constroem resiliência nem reduzem vulnerabilidades futuras. Falta ainda incorporar de forma mais consistente uma visão de longo prazo, orientada à adaptação climática e à transformação dos territórios mais expostos.
Para isso, o ISP precisa ampliar seu foco para o fortalecimento de capacidades locais e institucionais. Isso inclui apoiar organizações comunitárias que atuam nos territórios vulneráveis, investir em soluções baseadas na natureza, em planejamento urbano resiliente e em políticas públicas de prevenção, além de articular a agenda climática com outras causas sociais, como habitação, insegurança alimentar e inclusão produtiva. A mudança do clima é um problema transversal, e tratá-la como uma pauta isolada limita seu potencial de impacto.
Há sinais iniciais de avanço nessa direção, mas ainda são tímidos frente à magnitude do desafio. Oportunidades como coalizões temáticas, parcerias com o setor público e maior integração do tema às cadeias de valor das empresas podem ajudar a acelerar essa transição. Quando a filantropia climática passa a operar de forma sistêmica, ela deixa de apenas responder a crises e passa a contribuir efetivamente para a construção de territórios mais seguros, adaptados e socialmente justos.
5 – Quais são os principais sinais de alerta para o ISC em 2026 diante das incertezas econômicas e políticas?
Os principais sinais de alerta estão menos nos volumes financeiros e mais nas fragilidades estruturais que persistem. A alta concentração de recursos em poucos investidores e no Sudeste torna o setor vulnerável a mudanças de estratégia de empresas específicas e a ciclos econômicos e políticos. Soma-se a isso os custos operacionais elevados para organizações menores e a permanência de vazios históricos em causas e territórios críticos.
O contexto de 2026 amplia esses riscos. Os riscos geopolíticos globais e o cenário eleitoral doméstico tendem a deixar os investidores em compasso de espera, adiando decisões sobretudo de iniciativas de médio e longo prazo, como coalizões territoriais e agendas estruturantes. Além disso, as áreas de sustentabilidade terão pressão orçamentária em 2026 em função das novas exigências regulatórias de relato e isso pode reduzir recursos para investimento social no curto prazo.
Nesse contexto, iniciativas como a Rede BISC ganham ainda mais relevância ao oferecer espaços de aprendizagem coletiva, produção de evidências e articulação entre empresas. Fortalecer estratégias colaborativas, diversificar territorial e tematicamente os investimentos, apoiar organizações intermediadoras e alinhar o ISC às cadeias de valor são decisões que podem aumentar a resiliência do setor. Em um ano de incerteza, o diferencial estará menos em crescer a qualquer custo e mais em consolidar bases sólidas para atravessar ciclos políticos e econômicos com consistência e impacto.
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