Primeiro dia de Formação Internacional debate o futuro digital dos governos
Líderes públicos e privados se reúnem em Cambridge para debater o papel da transformação digital na resiliência do Estado e na melhoria dos serviços públicos

Na manhã de hoje (28), a Comunitas deu início à 6ª edição de seu programa de Formação Internacional, realizado em parceria com o Instituto de Desenvolvimento de Liderança do Churchill College, da Universidade de Cambridge, em Londres. Neste ano, a iniciativa tem como foco a transformação digital em governos e conta com uma comitiva de 24 participantes, incluindo lideranças dos setores público e privado. O programa seguirá até a próxima sexta-feira (1º).
Os programas de Formação Internacional têm como objetivo ampliar a perspectiva dos participantes sobre os desafios e oportunidades relacionados à sua atuação como agentes de implementação de políticas públicas. A iniciativa busca promover o conhecimento de práticas internacionais inovadoras, fortalecendo o uso da tecnologia como aliada na melhoria dos serviços prestados à população. Por meio do intercâmbio de experiências e metodologias, o programa visa impulsionar ações estratégicas, escaláveis e mais eficientes, contribuindo para o desenvolvimento de políticas inovadoras, melhores modelos de governança e parcerias intersetoriais que beneficiem diretamente a sociedade.
O primeiro dia do programa foi dedicado ao aprofundamento sobre os fundamentos do governo digital e à reflexão estratégica sobre os desafios contemporâneos da transformação tecnológica no setor público. O tema foi apresentado como um eixo transversal às políticas públicas, com impactos diretos na capacidade do Estado de responder a crises, entregar melhores serviços e aumentar a confiança da população. Nesse contexto, a tecnologia foi tratada não apenas como uma ferramenta operacional, mas como elemento estratégico de resiliência institucional e reinvenção dos modelos de gestão pública.
A abertura institucional foi conduzida por Regina Esteves, presidente da Comunitas, que deu as boas-vindas aos participantes, reforçando o propósito da iniciativa: fortalecer a capacidade dos líderes públicos brasileiros a partir do intercâmbio com experiências internacionais e do contato com práticas inovadoras em tecnologia, governança e políticas públicas. “Os programas de Formação Internacional vão além do conteúdo técnico. A proposta é de que seja uma vivência transformadora, que estimule a criação de redes de confiança, o protagonismo dos gestores públicos e a construção de uma cultura de aprendizado compartilhado”.
A fala inicial também serviu para reforçar que o programa não busca replicar modelos internacionais, mas sim inspirar soluções adaptadas à realidade brasileira, reconhecendo os avanços já conquistados e os desafios ainda presentes.
O Estado digital em uma era de resiliência

A primeira sessão do programa, conduzida por Tanya Filer, fundadora da plataforma StateUp, diretora do programa e uma das principais especialistas globais em governo digital, trouxe uma reflexão estratégica sobre o papel dos governos na era da transformação tecnológica. Com o tema “O Estado Digital em uma Era de Resiliência”, Tanya destacou que, diante de crises simultâneas, a tecnologia deixou de ser acessório e passou a ocupar um lugar central na capacidade de resposta e inovação do setor público.
Durante sua apresentação, Tanya traçou a evolução do governo digital em quatro ondas: da simples digitalização de serviços nos anos 1990 até o momento atual, em que Estados começam a operar como plataformas integradas de dados e inteligência artificial. Ela alertou, no entanto, que tecnologia não é sinônimo de progresso automático. “Não se trata apenas de ferramentas, mas da construção de confiança, propósito e responsabilidade. A inovação pública precisa andar junto com ética e inclusão”, afirmou.
O conceito de resiliência digital foi um dos pilares da discussão. Segundo Tanya, a capacidade de governos se adaptarem a desafios externos, como pandemias, eventos climáticos extremos ou crises de confiança, depende não apenas de infraestrutura tecnológica, mas de liderança qualificada e integração entre diferentes áreas do governo. Ela também apresentou experiências, a exemplo do sistema de restituição fiscal do Reino Unido e a resposta à crise hídrica na Cidade do Cabo, que ilustraram como dados, colaboração e escuta ativa da população podem gerar soluções eficazes.
Ao final da aula, Tanya compartilhou cinco megatendências que devem guiar os governos nos próximos anos: o avanço da inteligência artificial, a centralidade das big techs, os dilemas da soberania digital, a reorganização ministerial e a necessidade de atuação em ecossistemas colaborativos. Para ela, o Brasil tem ativos importantes, como o Gov.br e o Pix, e está bem-posicionado para avançar ainda mais no fortalecimento institucional e na consolidação de uma agenda digital própria. “Não se trata de copiar modelos, mas de criar caminhos próprios a partir da inspiração internacional”, concluiu.
Inteligência artificial, infraestrutura digital e dados: uma introdução e discussão

Na segunda palestra do dia, David Kohan Marzagao, professor de Inteligência Artificial no King’s College London, apresentou uma introdução aos conceitos fundamentais de IA, aprendizado de máquina e suas implicações no desenho e na implementação de políticas públicas. A sessão foi marcada por um esforço de desmistificação, ao separar o uso cotidiano de ferramentas como o ChatGPT do universo muito mais amplo e complexo da inteligência artificial aplicada.
Marzagao explicou os principais modelos de aprendizado utilizados na IA: supervisionado, não supervisionado e por reforço, e destacou os desafios associados à confiabilidade e à interpretação dos algoritmos. “A precisão isolada não garante a eficácia de um sistema. Precisamos entender o contexto, os vieses dos dados e, sobretudo, as consequências das decisões automatizadas, especialmente em políticas públicas sensíveis como saúde ou justiça”, afirmou. Para ilustrar sua colocação, ele trouxe cenários reais e fictícios que estimularam os participantes a refletirem sobre os limites éticos e práticos da automação.
A palestra também abordou os riscos da dependência excessiva da IA, como a perda de competências humanas críticas ou a delegação de decisões sem a devida responsabilização. Debates entre os participantes levantaram questões como: a quem culpar em casos de falhas no algoritmo ou se os governos estão preparados para conviver em situações de erros inevitáveis da inteligência artificial. Casos bastante representativos, como o viés algorítmico de gênero na Amazon ou a falha de generalização em reconhecimento de imagens, reforçaram a importância de uma abordagem crítica e multidisciplinar no uso de tecnologias avançadas.
Ao final, o professor reforçou que o uso responsável da inteligência artificial envolve não apenas decisões técnicas, mas também reflexões éticas, sociais e institucionais. Segundo ele, é importante que todos – e não apenas especialistas – desenvolvam um repertório mínimo sobre o funcionamento dessas tecnologias, para compreender seus limites, formular boas perguntas e tomar decisões conscientes em diferentes contextos. “Nem sempre teremos todas as respostas, mas precisamos saber o que perguntar e como lidar com as incertezas sem perder de vista o impacto social das escolhas orientadas por algoritmos”, concluiu.
Lições e estudos de caso sobre infraestrutura pública digital
Em seguida, Stephanie Diepeveen, professora sênior em Política Digital Global no King’s College London e especialista da StateUp, abordou o tema da Infraestrutura Pública Digital (DPI) como uma tendência emergente nas agendas internacionais. A especialista explicou como esse conceito ganhou destaque com a presidência da Índia no G20, sendo posteriormente adaptado por países como o Brasil e, agora, pela África do Sul, ainda em busca de uma abordagem que equilibre inovação tecnológica, inclusão e soberania digital. “Estamos falando de sistemas digitais compartilhados, interoperáveis e seguros, que devem ser construídos sobre padrões abertos, uma definição ao mesmo tempo concreta e ambígua – o que desafia os formuladores de políticas”, pontuou.
Diepeveen apresentou os principais modelos de DPI existentes no mundo, como os casos da Índia e da Estônia, e chamou atenção para a diversidade de interpretações sobre o que é e para que serve uma infraestrutura digital pública. Enquanto alguns países enxergam o DPI como um pacote tecnológico pronto, outros adotam uma abordagem mais orgânica, construída a partir de objetivos políticos específicos. Ela alertou, no entanto, para a escassez de evidências empíricas sobre os impactos dessas infraestruturas, afirmando que ‘é fácil ouvir muitos números, mas difícil descobrir de onde eles vêm’.
A aula também trouxe um alerta sobre os riscos técnicos e políticos da adoção apressada de sistemas digitais em larga escala, especialmente em contextos marcados por desigualdade e baixa conectividade. Desafios como exclusão de grupos vulneráveis, falhas nos bancos de dados, aumento de fraudes e uso indevido de informações pessoais foram amplamente discutidos pelos participantes. Alguns casos brasileiros, como o do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e do auxílio emergencial durante a pandemia, foram debatidos, como exemplo de como a pressa pode comprometer a qualidade e a equidade na entrega de políticas públicas.
A professora também defendeu que é essencial que gestores públicos tenham clareza sobre o produto que desejam oferecer, as camadas da sociedade que serão impactadas e os riscos envolvidos. “Não basta perguntar se devemos fazer. A questão central é: como fazer bem feito – com evidências, escuta e responsabilidade coletiva”, concluiu, reforçando que a construção de infraestruturas digitais deve ser acompanhada de mecanismos robustos de governança e avaliação.
Mesa redonda virtual: perspectivas globais de líderes em dados e transformação digital

A mesa redonda reuniu especialistas internacionais para discutir os desafios e caminhos da transformação digital nos governos, a partir de experiências concretas em contextos diversos como Estados Unidos, Argentina e África do Sul. Moderado por Jonas Moses-Lustiger, Vice-presidente de Comunicações e Políticas Públicas na StateUp, o encontro trouxe um panorama sobre os avanços, limitações e dilemas éticos da digitalização pública em tempos de múltiplas crises.
Joy Bonaguro, ex-Diretora de Dados da Califórnia e de São Francisco, abriu a conversa relatando os contrastes entre trabalhar em uma cidade com maior liberdade para inovação e um estado marcado por estruturas fragmentadas e limitações orçamentárias. “A liderança pode ajudar ou exacerbar o problema. Nos EUA, enfrentamos o desafio de não termos financiamento contínuo para dados e tecnologia – tudo é vinculado a programas específicos”, explicou, reforçando a importância da estabilidade institucional para consolidar políticas digitais de longo prazo.
Na sequência, Daniel Abadie, ex-subsecretário de Governo Digital da Argentina, compartilhou as estratégias utilizadas em Buenos Aires para entregar serviços digitais com poucos recursos e muita resistência interna. “Você não interage com o governo porque gosta, mas porque precisa. A transformação digital precisa entregar valor real. E o maior desafio não é a tecnologia, são as pessoas”, afirmou. Para ele, o segredo está em construir comunidades internas de prática e integrar times de forma colaborativa: “Criamos padrões e linguagens comuns entre designers, engenheiros e cientistas de dados para aumentar a confiança”.
Fechando a mesa, Helen Davies, responsável pela resiliência urbana na Cidade do Cabo, trouxe uma perspectiva prática sobre o uso de dados em momentos de crise. Ela relatou como a crise hídrica forçou o município a desenvolver rapidamente soluções baseadas em dados para reduzir o consumo e mitigar riscos. “Criamos mapas interativos que mostravam os locais com maior consumo. As pessoas se incomodaram, mas era preciso agir. Muitos dos excessos estavam ligados a vazamentos, e os dados nos ajudaram a priorizar as ações”, explicou.
Ao longo da conversa, os três especialistas foram unânimes em destacar que tecnologia sem propósito, engajamento e governança é apenas ferramenta. O impacto real só acontece quando há liderança, colaboração e visão de longo prazo.
Compartilhando perspectivas e desafios entre pares
Encerrando o primeiro dia do programa de Formação Internacional, a sessão trouxe uma proposta interativa e provocativa conduzida pelo professor e cientista político Fernando Schuler. A dinâmica propôs uma reflexão crítica sobre os principais temas abordados ao longo do dia, por meio de perguntas instigantes sobre inteligência artificial, infraestrutura pública digital, assimetrias de acesso, confiança nas instituições e relações entre os setores público e privado. Os participantes foram divididos em grupos e convidados a debater os desafios e dilemas associados à implementação de tecnologias digitais na gestão pública.
Uma das provocações centrais girou em torno da inteligência artificial: até onde ela pode ou deve ir na formulação de políticas públicas? Os participantes reconheceram seu potencial para apoiar a tomada de decisões, especialmente na análise de dados e automação de processos, mas alertaram para os riscos de decisões desumanizadas ou desvinculadas da sensibilidade política. Como observou um dos participantes, “a IA pode sugerir caminhos baseados em lógica, mas nem sempre leva em conta fatores emocionais ou éticos que pesam na decisão de um gestor público”.
Outro ponto amplamente debatido foi a questão das assimetrias no acesso digital. Ficou evidente que, em um país desigual como o Brasil, garantir conectividade e inclusão digital deve ser tratado como um direito fundamental. Foram levantadas críticas à imposição de soluções “top down”, sem escuta ou adaptação aos contextos locais, bem como à ausência de incentivos para que governos avancem de forma coordenada. Também se discutiu a transparência como elemento indispensável para o fortalecimento democrático, mesmo diante de suas contradições, como o risco de excesso de exposição corroer a legitimidade institucional.
Por fim, a relação entre setor público e setor privado foi analisada sob o prisma da complementaridade e da assimetria de capacidades. Embora o setor privado traga inovação e agilidade, os participantes ressaltaram que o governo não pode operar com as mesmas lógicas de mercado. “Não se trata de copiar modelos, mas de construir pontes que respeitem os diferentes papéis de cada setor”, destacou Schuler. A sessão encerrou com o convite à reflexão contínua: como encontrar o equilíbrio entre eficiência, inclusão e responsabilidade ética na era digital.
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