BISC Investimento Social Corporativo | 29/05/2026

Quando a agenda social se integra ao núcleo das decisões corporativas

Integrado à sustentabilidade e ao negócio, o investimento social orienta decisões, fortalece territórios e amplia a capacidade de transformação das empresas

Já se foi o tempo em que o investimento social de uma grande empresa operava como uma frente paralela, restrita a estruturas específicas e com pouca influência sobre as decisões centrais. Nos últimos anos, o ISC mostra aproximação bastante relevante das estruturas centrais do negócio, ocupando espaço nas mesas de decisão e sendo mais considerado nas estratégias de negócio e dos planos de sustentabilidade das companhias.

Esse amadurecimento é fruto de uma reorganização gradual, muitas vezes impulsionada por iniciativas que nasceram de forma pontual e ganharam escala, orçamento e relevância institucional. Seja por meio de institutos independentes ou dentro das próprias áreas de sustentabilidade das empresas, o movimento mais estrutural está na mudança de função do investimento social, que deixa de ser um ato isolado de filantropia e passa a ser entendido como estrutura que molda o contexto social que sustenta o próprio negócio no longo prazo.

Trazer essa operação para a prática, com todos os seus dilemas e bastidores, foi o foco do debate que reuniu executivos da RD Saúde, do Instituto Lojas Renner e da B3 Social, no evento de lançamento da pesquisa Conexões e Fronteiras entre o Investimento Social Corporativo e os Negócios. O encontro teve o objetivo de traduzir, em experiências concretas, as relações entre investimento social e estratégia empresarial sob a perspectiva das lideranças de sustentabilidade das organizações.

Modelos de investimento social corporativo e suas diferentes arquiteturas estratégicas

Crédito da Imagem: Cauê Diniz/B3 Social

Modelos de investimento social corporativo não seguem uma receita única. Suas características ideais dependem diretamente dos mercados que a empresa está posicionada, seus territórios e comunidades, estruturas de governança existentes e da cultura organizacional. As empresas participantes do encontro ilustram bem como diferentes escolhas estratégicas moldam essas trajetórias.

Na RD Saúde, o investimento social utiliza explicitamente a alta capilaridade de suas mais de 3.500 farmácias. Atendendo cerca de um milhão de clientes todos os dias, a empresa transformou o atendimento ao cliente em um canal direto de mobilização e engajamento. Projetos como a coleção Sorria e o Troco Solidário dão tração à estratégia, que hoje está consolidada em uma política corporativa bastante forte. Anualmente, 1% do lucro líquido da companhia é destinado a mais de 160 organizações sociais focadas em saúde.

Já o Instituto Lojas Renner integra o impacto social diretamente à sua cadeia de valor, com foco na inclusão socioprodutiva por meio da empregabilidade e do empreendedorismo. O caso de Catuti, em Minas Gerais, ilustra bem a lógica do ISC. Na experiência, 300 mulheres quilombolas produzem algodão agroecológico. O projeto não só gera renda e preserva os saberes locais, como também garante um fornecimento sustentável para a própria Renner. Toda essa engrenagem é acompanhada de perto pelo Conselho de Administração, que usa dados e inteligência social para garantir que o impacto caminhe lado a lado com o negócio.

A B3 Social, por sua vez, utiliza a posição de referência da B3 como infraestrutura do mercado de capitais para atuar na articulação de ecossistemas e na mobilização do setor privado para o impacto coletivo. Com foco temático na educação básica, a B3 Social foca em aportes financeiros via modelo grantmaking para o fortalecimento de projetos e organizações parceiras, além de utilizar a estrutura B3 para influenciar o debate empresarial e mobilizar mais empresas e recursos para o investimento social corporativo.

Como alinhar estratégia empresarial e interesse público

À medida que o ISC ganha relevância estratégica, a governança assume o papel de garantir coerência nas decisões. O grande desafio é equilibrar as expectativas do mercado com o impacto real na ponta. De acordo com Giuliana Ortega, Diretora de Sustentabilidade da RD Saúde, a clareza de propósito é o que evita desvios no meio do caminho. “O investimento é privado, mas o objetivo é público” Ela destaca que um grande desafio nas empresas nessa frente é fazer esse letramento interno com a alta liderança e os conselhos”.

Na B3, a provocação interna é constante no sentido de como a companhia pode canalizar seus recursos de forma intencional para os temas sociais definidos e mensurar os resultados, segundo Virgínia Nicolau Gonçalves, Superintendente de Sustentabilidade da organização. “Ter essa linha bem desenhada é fundamental para resistir às pressões cotidianas que, muitas vezes, tentam puxar o investimento social para caminhos puramente comerciais”, afirmou. Uma forma na qual se busca endereçar a questão está na escala dos projetos apoiados e na visão de que o ISC deve fortalecer estruturas e capacidades estatais. Mais de 70% do ISC de 2025 foram para projetos estruturantes, com capacidade de influenciar diretamente as políticas públicas.

Os resultados do investimento social fogem da lógica linear e imediatista que dita os relatórios trimestrais do setor privado. Eduardo Ferlauto, Diretor de Sustentabilidade e Diretor Executivo do Instituto Lojas Renner, pondera que a transformação social exige escuta ativa, costura de relacionamentos e coragem de acreditar no processo. Para ele, ‘o tempo do impacto social é outro, tanto que em 2026, estamos colhendo resultados de sementes plantadas há dez anos’. Essa jornada de longo prazo exige disciplina e uma visão pragmática sobre o desenvolvimento das comunidades.

A experiência das três organizações comprova que os objetivos privados e o propósito público e social podem caminhar lado a lado, desde que as fronteiras sejam nítidas. É aí que a governança se consolida como a peça mais importante dessa engrenagem, atuando como um filtro para expor com transparência as intenções da empresa e resistir às pressões imediatistas de mercado. Quando essa linha está bem desenhada, o investimento privado deixa de ser uma concessão assistencialista e passa a atuar de forma legítima, gerando valor real para a operação e, simultaneamente, para a sociedade.

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