Comunitas Institucional | 22/07/2025

Regina Esteves compartilha aprendizados e desafios dos 25 anos de Comunitas

A presidente da Comunitas reflete sobre mais de duas décadas de trajetória da organização, ressaltando a importância da colaboração para transformar políticas públicas 

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

Neste mês de julho, a Comunitas celebra 25 anos de uma jornada marcada por inovação, escuta e colaboração entre os setores público, privado e a sociedade civil. Mais do que um marco institucional, este aniversário representa a consolidação de uma visão que nasceu ainda nos anos noventa, sob a liderança da socióloga Ruth Cardoso, e que hoje se traduz em resultados concretos para a gestão pública em dezenas de territórios do Brasil.

À frente da Comunitas, Regina Esteves participou ativamente dessa construção. Sua trajetória pessoal se entrelaça com a própria história da organização, desde a criação do Programa Juntos, do apoio a territórios à atuação emergencial em momentos críticos como a pandemia da Covid-19 e as enchentes no Rio Grande do Sul.

Nesta entrevista especial, Regina compartilha memórias, aprendizados e a emoção de ver uma semente plantada há mais de duas décadas dar origem a uma rede transformadora. Ao relembrar o passado, ela também lança luz sobre o que permanece essencial: escutar quem está na ponta, promover o diálogo entre diferentes setores e construir, coletivamente, um futuro mais justo para o Brasil.

A seguir, acompanhe suas reflexões sobre o legado, os marcos transformadores e o espírito que deve seguir guiando a Comunitas pelos próximos 25 anos.

1 –  Antes da sua criação, que necessidade ou oportunidade no cenário das políticas públicas impulsionou a concretização da Comunitas?

A Comunitas surge como herdeira direta de um pensamento inovador que transformou a forma de conceber políticas sociais no Brasil: a construção de parcerias entre governo, sociedade civil e iniciativa privada. Essa abordagem, revolucionária para a época – afinal, estamos falando dos anos 1990 -, mostrou que a colaboração entre diferentes setores era essencial para criar soluções eficazes e sustentáveis.

Dessa visão nasceram iniciativas transformadoras, como programas de educação, capacitação e transferência de renda – muitos deles mais tarde ampliados e consolidados em políticas públicas de grande impacto. A premissa era de que boas ideias não deveriam ser interrompidas por mudanças políticas, mas sim aperfeiçoadas e mantidas como compromisso duradouro com o bem público.

Foi essa compreensão da necessidade de institucionalizar a colaboração entre os setores que impulsionou a criação da Comunitas. A organização consolida-se, assim, como um esforço para garantir continuidade, sustentabilidade e aprimoramento de políticas públicas eficazes, por meio de uma governança compartilhada, que é marca registrada de nossa atuação até hoje.

2 – Olhando para trás, quando você pensa na Regina que iniciou essa jornada há 25 anos, o que mais te emociona ou te surpreende na caminhada até aqui?

O que mais me emociona é perceber como aquela pessoa de 20 e poucos anos, cheia de vontade de contribuir com o país, foi encontrando seu caminho pela escuta e pela construção coletiva. Eu tinha muitos ideais, mas não sabia exatamente como transformá-los em algo concreto e duradouro. Com o tempo, fui entendendo que o impacto real nasce das conexões verdadeiras, da humildade em aprender com o outro, da disposição para dialogar até quando é difícil.

Também me surpreende a coragem que nós tivemos de seguir acreditando que era possível fazer diferente. De manter o foco a longo prazo, mesmo diante de tantas mudanças no cenário político, econômico e institucional do país. Foram muitas as vezes em que o mais fácil seria desistir, mas o compromisso com o bem público e com as pessoas que caminharam junto sempre falou mais alto.

E o mais bonito é ver que, passados 25 anos, aquilo que era uma semente virou uma rede viva, com capacidade de transformar realidades. Isso me dá esperança e, mais do que isso, reforça o sentido de tudo o que construímos.

3 – Teve algum momento nos primeiros anos da Comunitas em que você percebeu que estava no caminho certo? Pode ser, por exemplo, uma reação de um parceiro, um projeto que deu certo, ou até um fracasso que virou lição.

Sim, lembro com muita clareza de uma reunião, ainda nos primeiros anos da Comunitas, em que conseguimos reunir na mesma mesa representantes do setor público, de grandes empresas e da sociedade civil. Não era comum ver esses atores conversando de forma tão aberta e com tanta disposição para encontrar soluções conjuntas. Ao final daquele encontro, um dos participantes me disse: “isso aqui é diferente… é diálogo de verdade, sem vaidade”. Aquilo me marcou profundamente.

Foi nesse momento que percebi que estávamos fazendo algo especial. Que havia espaço para uma nova forma de fazer política pública, mais colaborativa, mais horizontal. Aquilo que, até então, era uma convicção nossa, começou a se confirmar na prática.

4 – Você sempre esteve muito próxima dos territórios e das pessoas com quem a Comunitas atua. Como esses encontros transformaram a sua visão como pessoa e, também, em relação ao país e a forma de atuação da Comunitas?

Esses encontros mudaram tudo. Estar nos territórios, ouvir as pessoas de perto, enxergar a potência que existe mesmo nos contextos mais desafiadores… tudo isso transformou não só minha visão sobre o país, mas também minha forma de me colocar no mundo.

Como pessoa, aprendi a reconhecer os privilégios que carrego e a importância de agir com mais escuta, mais respeito e mais humildade. Como profissional, entendi que nenhuma política pública, por melhor desenhada que seja, funciona de verdade se não for construída com quem vive a realidade na ponta.

Foi a partir dessas escutas que a Comunitas também se transformou. Fomos aprendendo que não bastava articular grandes lideranças, era preciso garantir que as vozes dos territórios estivessem presentes nas decisões, nas prioridades e nos resultados. Essa vivência moldou nosso jeito de atuar, com mais diálogo, mais empatia e mais compromisso com soluções que fazem sentido para quem mais precisa.

5 – Se você pudesse resumir o espírito da Comunitas em uma frase que guiasse os próximos 25 anos, qual seria?

“Unir quem pensa diferente para transformar o Brasil, hoje e para as próximas gerações”. 

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