Comunitas Modernização da Administração | 17/03/2026

Cinco lições sobre o uso de Inteligência Artificial no setor público

Casos de diferentes territórios revelam como governos começam a incorporar a IA para resolver desafios públicos, ampliar serviços e fortalecer decisões baseadas em dados

A Inteligência Artificial (IA) vem se consolidando como uma das principais forças de transformação da gestão pública no mundo. O avanço acelerado das tecnologias digitais, combinado ao crescimento da capacidade de processamento de dados, tem aberto novas possibilidades para que governos aprimorem a formulação de políticas públicas, tornem serviços mais acessíveis e tomem decisões com base em evidências. Nesse cenário, a IA deixou de ser apenas um tema de debate ou experimentação pontual e começou a ocupar um lugar estruturante nas estratégias de modernização do Estado.

A incorporação dessas tecnologias no setor público, no entanto, não se resume à adoção de novas ferramentas. Experiências recentes mostram que o uso efetivo da IA exige lideranças públicas capazes de articular inovação, governança de dados e transformação institucional. Não se trata apenas de implementar soluções tecnológicas, mas de repensar processos, fortalecer capacidades internas e criar condições para que dados e tecnologia sejam utilizados de forma estratégica na resolução de problemas reais da sociedade. Nesse contexto, governos que avançam nesse campo costumam combinar visão de longo prazo, experimentação e colaboração com diferentes atores do ecossistema de inovação.

A partir de experiências práticas de estados e municípios, emergem lições importantes sobre o que funciona – e sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados – para que a Inteligência Artificial possa gerar valor público de forma responsável e efetiva. A seguir, reunimos alguns desses aprendizados que podem inspirar gestores e lideranças interessadas em fortalecer agendas de inovação no setor público.

1 – Governança de dados como base para o uso de IA

Um dos principais aprendizados das experiências apresentadas no encontro é que o uso de Inteligência Artificial no setor público depende, antes de tudo, de dados organizados e de uma governança estruturada. Governança de dados envolve criar regras, processos e estruturas institucionais que garantam que as informações produzidas pelo governo sejam confiáveis, integradas e utilizadas de forma estratégica. Sem essa base, o potencial da IA fica limitado, já que algoritmos dependem de grandes volumes de dados de qualidade para gerar análises e apoiar a tomada de decisão.

A experiência do governo do Piauí ilustra bem esse caminho. Antes de avançar para aplicações de IA, o Estado estruturou sua agenda de transformação digital a partir da organização das bases de dados e da criação de mecanismos institucionais de governança. O governo do Mato Grosso também adotou abordagem semelhante, buscando articular pessoas, processos, tecnologia e dados e reconhecendo que a transformação digital depende da capacidade de organizar informações e utilizá-las de forma estratégica na gestão pública.

2 – IA como ferramenta para ampliar o acesso a serviços públicos

Outro aprendizado é o potencial da Inteligência Artificial para facilitar a interação entre cidadãos e governo. Soluções como assistentes digitais, atendimento automatizado e sistemas de análise de dados permitem reduzir barreiras burocráticas e simplificar o acesso da população a serviços públicos. Ao automatizar processos e tornar o atendimento mais ágil, a IA contribui para ampliar o alcance das políticas públicas e melhorar a experiência do cidadão no relacionamento com o Estado.

Para exemplificar, o Recife desenvolveu uma solução baseada em IA para reduzir o absenteísmo em consultas e exames na rede pública de saúde. A tecnologia entra em contato com os pacientes para confirmar a presença nos atendimentos e, em caso de desistência, permite reorganizar a agenda e disponibilizar as vagas para outras pessoas. A iniciativa surgiu justamente da necessidade de enfrentar um problema recorrente da gestão pública – as faltas em consultas agendadas – que acabam reduzindo a eficiência do sistema de saúde.

Confira mais sobre a experiência com Viviane Kawashima, Secretária Executiva de Inovação e Inclusão Digital de Recife

3 – Transformação tecnológica exige mudança cultural

A adoção efetiva da IA no setor público passa por uma transformação que é, sobretudo, organizacional e cultural. Inovar não é apenas adquirir tecnologia, mas mobilizar pessoas, desenvolver competências e cultivar ambientes propícios à experimentação, à colaboração e à aprendizagem contínua. De nada adianta infraestrutura disponível se não houver liderança, visão estratégica e disposição institucional para mudar.

O Estado do Mato Grosso, por exemplo, estruturou um conjunto de iniciativas voltadas a estimular a inovação dentro da própria administração pública, criando programas e espaços que incentivam os servidores a desenvolver novas soluções para problemas da gestão. A estratégia parte da premissa de que a transformação digital só ganha escala quando os próprios servidores passam a atuar como protagonistas do processo de inovação.

Ao fortalecer a cultura de experimentação e valorizar iniciativas desenvolvidas pelos servidores, o governo busca criar um ambiente institucional mais aberto à inovação. A experiência mostra que, para além da adoção de novas ferramentas, a transformação tecnológica no setor público depende também da capacidade de engajar pessoas e transformar a cultura das organizações públicas.

Sandro Luís Brandão, Secretário Adjunto de Planejamento e Governo Digital do Mato Grosso, explica mais sobre o processo:

4 – A inovação deve começar pelos problemas públicos

Ao invés de buscar aplicações para ferramentas disponíveis, governos têm obtido melhores resultados quando partem de problemas reais – como dificuldades no acesso a serviços, crises urbanas ou desafios de gestão – e, a partir daí, identificam soluções tecnológicas e institucionais capazes de enfrentá-los. Essa abordagem ajuda a garantir que a inovação seja utilizada como meio para melhorar políticas públicas, e não como um fim em si mesma.

Após enfrentar uma tragédia climática sem precedentes, a prefeitura de Porto Alegre precisou estruturar rapidamente novos instrumentos de monitoramento e coordenação para responder à crise e planejar a reconstrução da cidade. Entre as iniciativas adotadas, destacam-se a criação de um centro de monitoramento e contingência, sistemas de alerta para prever chuvas e identificar riscos em tempo real e uma plataforma pública que reúne informações georreferenciadas sobre as obras de reconstrução e adaptação climática. 

A experiência mostra como contextos de crise podem impulsionar processos de inovação na gestão pública. A partir de um problema concreto e urgente, a cidade desenvolveu, com o apoio da Comunitas, novas ferramentas de gestão, ampliando sua capacidade de resposta a eventos extremos e fortalecendo o planejamento para um futuro mais resiliente.

Confira mais sobre o caso com Germano Bremm, Secretário de Meio Ambiente , Urbanismo e Sustentabilidade e Coordenador-Geral do Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática de Porto Alegre:

5 – IA pode tornar o governo mais proativo

Para finalizar, é importante enxergar o potencial da IA para tornar o Estado mais proativo na oferta de serviços públicos. Com a análise de dados e a automação de processos, governos em todo país passam a antecipar demandas da população, identificar situações de risco e oferecer respostas mais rápidas e direcionadas. Esse movimento aponta para um modelo de gestão pública mais orientado por dados e centrado nas necessidades reais do cidadão.

A capital paulista tem investido no uso de dados e tecnologias digitais para ampliar a capacidade de monitoramento e gestão em diferentes áreas da administração. Sistemas integrados permitem acompanhar indicadores em tempo real e subsidiar decisões mais rápidas e informadas. Ao articular bases de dados e fortalecer o uso estratégico da informação, a cidade amplia sua capacidade de identificar problemas com antecedência e responder de forma mais eficiente às demandas da população.

Iniciativas como essa mostram como dados e tecnologias digitais podem contribuir para uma atuação governamental mais antecipatória. Ao transformar informação em insumo para a tomada de decisão, governos deixam de atuar apenas na reação a problemas e passam a antecipar necessidades, qualificando a entrega de políticas públicas e aproximando o Estado da vida concreta dos cidadãos.

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