Comunitas 28/03/2025

Encontro Rede Juntos: o que as experiências de Minas Gerais e São Paulo têm a ensinar sobre parcerias público privadas de impacto social?

Casos de sucesso do Projeto Somar e do Parque Ibirapuera revelam como inovação, transparência e participação social são essenciais para a efetividade de parcerias na gestão pública

Gestores discutindo o case de concessão do Parque Ibirapuera no Encontro Rede Juntos. Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

A última edição do Encontro Rede Juntos, realizada na semana passada pela Comunitas, trouxe reflexões sobre o potencial das parcerias público-privadas de impacto social na transformação dos serviços públicos. Da educação à gestão de parques urbanos, os debates demonstraram como a colaboração entre setores pode gerar soluções inovadoras e eficazes para desafios crônicos da administração pública.

Gestores de Minas Gerais e São Paulo compartilharam experiências que ilustram esse potencial. Em Minas, as parcerias com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) têm reformulado escolas antes marcadas por evasão e violência, enquanto em São Paulo, concessões bem estruturadas estão garantindo à população parques mais seguros, sustentáveis e acessíveis

A partir das discussões do evento, destacamos quatro aprendizados que vão além dos números e mostram caminhos para superar resistências, engajar comunidades e garantir impactos duradouros.

Confira!

1 – Importância do monitoramento e avaliação contínua

Projetos inovadores só alcançam resultados duradouros quando acompanhados por sistemas robustos de monitoramento e avaliação. Em Minas Gerais, a experiência das escolas geridas em parceria com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) mostrou como a criação de comitês estratégicos, de execução e de monitoramento, foi fundamental para acompanhar indicadores em tempo real e fazer ajustes quando necessário.

Os dados não deixam dúvidas: as escolas que adotaram o modelo do Projeto Somar registraram aumento no IDEB, crescimento nas matrículas e melhoria nas taxas de aprovação. Mas o que chamou atenção foi a metodologia por trás desses resultados. Relatórios periódicos, pesquisas de satisfação com a comunidade e avaliações de desempenho dos professores permitiram identificar desde resistências internas até oportunidades de melhoria, como a necessidade de ampliar a formação continuada dos professores.

A estratégia de monitoramento contínuo não se limitou à área educacional. Na gestão do Parque Ibirapuera, em São Paulo, a concessionária Urbia também implementou um sistema rigoroso de acompanhamento, com pesquisas mensais de satisfação, indicadores de uso do espaço e auditorias independentes. O contrato estabeleceu metas claras para manutenção, segurança e qualidade dos serviços, com mecanismos de verificação periódica.

No entanto, enquanto nas escolas mineiras o foco era pedagógico e comunitário, no Ibirapuera o monitoramento precisou abranger aspectos como sustentabilidade ambiental, fluxo de visitantes e equilíbrio financeiro. A concessionária enfrentou o desafio adicional de mensurar o impacto de intervenções em um espaço tombado e de uso público diversificado –  desde famílias em passeios até grandes eventos culturais.

Crédito da Imagem: Secretaria de Educação de Minas Gerais

2 – Envolvimento da comunidade e comunicação eficaz

Governar é cada vez mais um exercício de escuta ativa – seja em uma escola pública mineira ou no parque mais famoso do país. Ao longo do processo de implementação do Projeto Somar, se notou a importância de alinhar expectativas com a comunidade escolar. Embora o modelo tenha sido desenhado com base em boas práticas de gestão, a equipe percebeu que o diálogo contínuo era essencial para o engajamento de professores, pais e alunos. A partir dessa percepção, foram abertos canais de comunicação, como reuniões presenciais, pesquisas de opinião e espaços permanentes para sugestões, o que fortaleceu a confiança e permitiu ajustes ao longo do caminho.

Uma abordagem semelhante foi adotada na concessão do Parque Ibirapuera. A Prefeitura de São Paulo e a Urbia priorizaram a participação social desde o início, promovendo audiências públicas e debates com moradores, frequentadores e especialistas. Esse processo colaborativo ajudou a moldar um edital com diretrizes claras, garantindo preços acessíveis, a manutenção de áreas gratuitas e a preservação do patrimônio histórico.

Após o início da concessão, a Urbia manteve o canal aberto com a comunidade. Quando surgiram questionamentos sobre valores de alimentação, a concessionária respondeu com transparência – criando fóruns de prestação de contas e ampliando opções de baixo custo. A experiência reforçou como a participação comunitária, quando integrada desde o planejamento, contribui para a sustentabilidade e a legitimidade de projetos inovadores.

Secretário de Educação de Minas Gerais em sua apresentação do Projeto Somar no Encontro Rede Juntos. Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

3 – Adaptação a contextos regionais e diversidade

Tanto o caso do Projeto Somar quanto a concessão do Parque Ibirapuera revelam um dos maiores dilemas da gestão pública moderna: como expandir projetos sem cair na padronização? Na iniciativa mineira, a resposta veio por meio de métricas objetivas que guiaram a alocação de recursos. No Ibirapuera, a saída foi a criação de “microgestões” dentro do mesmo parque. Ambos provam que o segredo está em equilibrar diretrizes centrais com flexibilidade local – um desafio que exige tanto dados precisos quanto sensibilidade para ler as necessidades de cada território.

Quando o projeto educacional de Minas Gerais chegou ao interior do Estado, os gestores perceberam que o que funcionava em Belo Horizonte não servia para escolas rurais das regiões mais afastadas ou para comunidades carentes. A solução veio com a criação de um “indicador de complexidade de gestão” – uma ferramenta que analisa nove variáveis, desde a distância da sede até o nível socioeconômico dos alunos, para determinar os recursos necessários em cada unidade. O resultado foi que escolas que antes sofriam com altas taxas de evasão passaram a ter filas de espera por vagas, comprovando que políticas educacionais funcionam quando deixam de ser “receita de bolo”.

A lição da adaptação regional também ecoou na gestão do Parque Ibirapuera. A Urbia descobriu rapidamente que administrar a área central do parque – com seus eventos culturais e fluxo intenso de visitantes – era radicalmente diferente de gerir parques em áreas periféricas, frequentado majoritariamente por moradores locais. A solução foi criar modelos distintos de operação: enquanto no coração do Ibirapuera se investiu em infraestrutura para grandes eventos, nas áreas menos visíveis o foco foi em segurança e programas comunitários.

Parque Ibirapuera. Crédito da Imagem: Arquivo Ibirapuera e Parques Urbanos

4 – Resistências e desafios políticos

Ambas as experiências mostram que, no Brasil, inovar na gestão pública exige mais que bons projetos – demanda habilidade política para transformar opositores em parceiros e resistências em oportunidades de aprimoramento.

Quando o Projeto Somar começou a mostrar resultados, a exemplo do aumento no IDEB, crescimento de matrículas e aprovação recorde, uma contradição surgiu. Os maiores obstáculos ao sucesso da iniciativa não vinham das salas de aula, mas dos gabinetes políticos e das assembleias sindicais. Professores não participantes do projeto criaram um paradoxo: enquanto aqueles diretamente envolvidos elogiavam o modelo, outros o criticavam como “privatização disfarçada”. A situação chegou ao ápice quando um mandado de segurança pediu a suspensão do programa

O governo mineiro respondeu com diálogo técnico, destacando os avanços concretos e a manutenção do caráter público das escolas, além de reforçar o monitoramento das OSCs para garantir transparência. A estratégia incluiu a criação de comitês estratégicos e a divulgação de dados que comprovavam a aceitação da comunidade, como o aumento de 30% nas matrículas em algumas escolas.

O Parque Ibirapuera também viveu desafios semelhantes durante seu processo de concessão. Se por um lado os números comprovavam melhorias – 125% de aumento na frequência em áreas periféricas do parque, além de R$ 250 milhões em investimentos – por outro, setores criticavam a “mercantilização do espaço público”. A Urbia precisou enfrentar acusações infundadas, como a de que estaria cobrando entrada no parque, quando na realidade apenas serviços terceirizados eram pagos. 

A estratégia de combate às fake news incluiu transparência radical: relatórios públicos detalhados, visitas guiadas para líderes comunitários e abertura para diálogo com a mídia. Além disso, a Urbia destacou a democratização do acesso, como a manutenção de áreas gratuitas e a melhoria na segurança, que reduziu drasticamente incidentes dentro do parque.

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