BISC Investimento Social Corporativo | 29/01/2026

Entenda quais são as tendências do ISC na África do Sul, Índia e Brasil em 2026

Webinário destacou colaboração, inovação financeira e uso estratégico de tecnologia para ampliar o impacto social em países marcados por desigualdades estruturais

Crédito da Imagem: Reprodução

Na manhã de hoje (29), a Trialogue, consultoria sul-africana especializada em responsabilidade corporativa e sustentabilidade, promoveu o webinário “Tendências do Investimento Social Corporativo na África do Sul, Índia e Brasil para 2026”. O encontro reuniu representantes de empresas, organizações da sociedade civil, consultores e especialistas de diferentes países para discutir os caminhos do investimento social diante de um cenário global marcado por instabilidade econômica, mudanças regulatórias e avanços tecnológicos acelerados.

Apesar das diferenças regulatórias e institucionais, África do Sul, Índia e Brasil compartilham desafios estruturais semelhantes, especialmente no enfrentamento das desigualdades sociais. Nesse contexto, o ISC tem assumido um papel cada vez mais estratégico, deixando de operar apenas como resposta filantrópica e passando a integrar decisões de negócio, políticas públicas e agendas de desenvolvimento de longo prazo. “Sabemos que a desigualdade atua como um catalisador para a polarização política, para a instabilidade social e para a erosão da confiança nas instituições”, destacou a Diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas, Patricia Loyola, que foi convidada a representar o Brasil no encontro.

Saiba mais: Riscos globais redesenham prioridades e pressionam a agenda social em 2026

Além de Loyola, o webinário contou com a participação de Nick Rockey, Diretor Executivo da Trialogue; e de Aarti Mohan, cofundadora da Sattva Consulting, da Índia. Ao longo do encontro, os painelistas analisaram como o Investimento Social Corporativo vem se transformando nos três países e quais tendências devem ganhar força em 2026.

Um dos pontos centrais do encontro foi a discussão sobre a transição de modelos tradicionais de doação para abordagens mais estratégicas e colaborativas. Os painelistas destacaram o movimento de redução da pulverização de recursos e o fortalecimento de parcerias de longo prazo, com foco em impacto mensurável, inovação e escala. “As empresas estão deixando de financiar muitas organizações com doações pequenas para financiar menos organizações, mas de forma mais significativa e por longos períodos”, explicou Nick Rockey. A colaboração entre empresas, governos e organizações da sociedade civil foi salientada como um fator decisivo para enfrentar problemas sociais complexos, que extrapolam a capacidade de atuação isolada de qualquer setor.

A tecnologia também ocupou papel de destaque nas discussões. Ferramentas digitais e soluções baseadas em dados vêm sendo cada vez mais incorporadas à gestão do ISC, tanto para aprimorar o monitoramento e a avaliação dos programas quanto para desenhar soluções sociais mais eficientes. Avançando nesse tema, a Inteligência Artificial (IA) foi apontada como a próxima fronteira de inovação dentro do ISC, com potencial para apoiar desde a personalização de políticas educacionais até a ampliação do acesso a serviços em territórios vulneráveis. Os painelistas, no entanto, foram unânimes em ressaltar que esse potencial só se realizará se acompanhado de uma atenção rigorosa à governança, à ética e à inclusão digital, evitando que a tecnologia amplifique as desigualdades que se propõe a combater.

Perspectiva do ISC no Brasil

Durante o webinário, Patricia Loyola apresentou um panorama do ISC no Brasil, que alcançou em 2024 seu maior volume histórico de investimento, superando a marca de R$ 6 bilhões. Segundo ela, os dados indicam uma consolidação estrutural do investimento social corporativo no país, uma vez que os volumes de investimento se mantêm consistentemente acima dos níveis pré-pandemia.

Entre os dados mais recentes da Pesquisa BISC, foram destacados o aumento do investimento com recursos próprios e uma maior inclinação a financiar soluções de terceiros. Para Loyola, isso reflete uma busca de o ISC estar mais integrado às soluções sociais já produzidas pela sociedade civil e atuar de forma intencional no fortalecimento de projetos e redes de articulação comprovadamente eficazes. O alinhamento entre investimento social e desafios do negócio também ganhou relevância, especialmente em temas como qualificação profissional, inclusão produtiva e juventude, refletindo os gargalos do mercado de trabalho brasileiro. Um dos destaques deste movimento é a integração entre o ISC e as cadeias de valor, acompanhando uma maior intencionalidade das empresas em produzir impacto compartilhado.

Outro ponto enfatizado foi o fortalecimento de coalizões e arranjos colaborativos. De acordo com Loyola, quase 80% das empresas da Rede BISC investem socialmente através de mecanismos de colaboração, reconhecendo que problemas complexos exigem soluções construídas de forma conjunta. A tecnologia e a IA, nesse contexto, aparecem como ferramentas promissoras, tanto para apoiar a tomada de decisão quanto para ampliar a eficiência dos programas sociais, embora o acesso ainda seja desigual. “No Brasil, algumas organizações estão treinando ONGs no uso de IA, mas isso ainda não chegou às organizações de base. Elas estão muito longe disso”, ponderou ela.

Perspectivas do ISC na África do Sul e na Índia

Na África do Sul, Nick Rockey destacou que o ISC segue fortemente influenciado pelos códigos de empoderamento econômico da população negra (B-BBEE), que impulsionam o investimento socioeconômico corporativo. Para 2026, a principal tendência é a busca por maior qualidade do gasto, com foco em impacto, profissionalização das práticas e uso mais estratégico de dados de monitoramento e avaliação. “O código pede que você gaste, mas não diz como gastar ou quão impactante deve ser. Por isso, as empresas estão tentando ir além da conformidade básica”, afirmou. Embora setores como educação e desenvolvimento social continuem concentrando a maior parte dos recursos, cresce o interesse por inovação e por modelos que combinem impacto social e alinhamento aos interesses do negócio.

Já na Índia, Aarti Mohan apresentou um cenário marcado pela maturidade do sistema de Responsabilidade Social Corporativa (RSC), que completa 10 anos desde sua implementação como exigência legal. Segundo ela, o foco agora não está mais no volume de recursos, mas no comportamento do capital. As empresas têm demonstrado maior apetite por financiamentos plurianuais, instrumentos de blended finance, garantias de crédito e subsídios rotativos, capazes de destravar investimentos privados e ampliar o alcance das iniciativas sociais.

Os painelistas também discutiram a queda nos repasses internacionais, destacando realidades distintas. Na África do Sul, a dependência externa gera pressão, enquanto na Índia, a predominância de recursos locais – impulsionada pela legislação de RSC – oferece maior resiliência. Apesar dessas diferenças, ambos os contextos revelam a necessidade de elevar o patamar de gestão das organizações implementadoras para que o impacto social seja comprovado e escalável.
Para os painelistas, o momento atual do Investimento Social Corporativo demonstra  uma superação da era dos projetos isolados para assumir o protagonismo na transformação sistêmica. Entre as lições compartilhadas por Brasil, Índia e África do Sul, ficou claro que a verdadeira eficácia não reside apenas no volume de recursos aportados, mas na capacidade de catalisar inovação e fomentar coalizões multissetoriais

Veja aqui o evento na íntegra (em inglês):

Evidências globais: como dados comparativos estão redefinindo o Investimento Social Corporativo

Além das perspectivas apresentadas pelos painelistas, dados recentes de pesquisas internacionais ajudam a contextualizar e aprofundar as tendências discutidas no webinário. Relatórios como o Giving in Numbers 2025, da Chief Executives for Corporate Purpose (CECP), o Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC) 2025, da Comunitas, e o Business in Society Handbook 2025, da Trialogue, revelam como empresas no Brasil, na África do Sul e nos Estados Unidos vêm ajustando suas estratégias de investimento social em um cenário marcado por instabilidade geopolítica, pressão por eficiência e crescente polarização política.

Nos Estados Unidos, os dados indicam um movimento de retração nos aportes financeiros diretos. Entre 2020 e 2024, os investimentos corporativos medianos, ajustados pela inflação, caíram 16%, enquanto as doações em dinheiro feitas diretamente pelas empresas recuaram 24%. Em contrapartida, houve um crescimento de 8% nas contribuições não financeiras, como doações de produtos, serviços pro bono e voluntariado corporativo, sinalizando uma mudança no perfil do apoio social diante de restrições orçamentárias e reestruturações internas.

Na África do Sul, o volume de investimento social corporativo permaneceu relativamente estável em termos reais, acompanhando a inflação. Ainda assim, as empresas sul-africanas continuam destinando uma parcela expressiva de seus recursos em dinheiro – 56% do total – refletindo tanto o papel estruturante do ISC no país quanto a influência dos códigos de empoderamento econômico para a população negra (B-BBEE). Educação segue como o principal destino dos recursos, concentrando cerca de 44% dos gastos, evidenciando os desafios persistentes do sistema educacional local.

O Brasil apresenta um cenário distinto. O BISC 2025 registrou um crescimento de 19% nos investimentos sociais em 2024, resultando no maior volume histórico de ISC no país. A maior parte desses recursos foi aplicada por meio de investimentos diretos das empresas, que representaram 77% do total, enquanto os mecanismos de incentivo fiscal responderam por 23%. Esse aumento dos aportes diretos – seis pontos percentuais a mais em relação ao ano anterior – reforça a tendência já mencionada no webinário de uma atuação mais “hands-on”, com maior envolvimento das empresas no desenho e na execução das iniciativas.

Os dados também revelam diferenças relevantes na alocação setorial. Enquanto a educação lidera os investimentos tanto no Brasil quanto na África do Sul, nos Estados Unidos a maior fatia dos recursos foi direcionada à área de saúde e serviços sociais. Já o apoio a ações de resposta a desastres apresentou trajetórias distintas: caiu de forma significativa nos EUA e na África do Sul após o pico da pandemia, mas ganhou centralidade no Brasil em 2024, impulsionado pelas enchentes no Rio Grande do Sul, com 87% das empresas apoiando ações emergenciais.

Fonte: Trialogue

Outro ponto de convergência entre os países é o fortalecimento da agenda de mensuração de impacto. A maioria das empresas norte-americanas e sul-africanas já coleta dados de resultados e impactos, além de incorporar narrativas qualitativas de beneficiários. Cresce também o interesse em avaliar o valor de negócio do investimento social, especialmente em termos de reputação e confiança na marca. Empresas com métricas alinhadas ao propósito corporativo, segundo a CECP, apresentam desempenho financeiro superior, reforçando o argumento de que impacto social e estratégia de negócio caminham juntos.

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