Inovação e liderança marcam 2º dia de Formação Internacional
Debates e visitas técnicas evidenciam como inovação pode promover inclusão, crescimento e sustentabilidade
Hoje (29), aconteceu o segundo dia do programa de Formação Internacional em transformação digital, promovido pela Comunitas em parceria com o Instituto de Desenvolvimento de Liderança do Churchill College, da Universidade de Cambridge, em Londres A iniciativa busca promover o conhecimento de práticas internacionais inovadoras, fortalecendo o uso da tecnologia como aliada na melhoria dos serviços prestados à população.
A formação terá duração de cinco dias e conta com 24 pessoas na comitiva, entre lideranças dos setores público, privado e da sociedade civil. Seu propósito é fortalecer os participantes para estabelecer prioridades, planejar ações e construir parcerias efetivas, potencializando-os como agentes implementadores de políticas eficazes voltadas para a transformação digital e a construção de economias resilientes. O programa seguirá até o fim desta semana (1º).
A programação do dia teve como foco a inovação digital como ferramenta para impulsionar inclusão social, crescimento econômico e resiliência institucional. Pela manhã, os participantes acompanharam uma roda de debate com especialistas em políticas públicas e tecnologia da Universidade de Cambridge e de organizações internacionais, que discutiram os fundamentos de uma liderança capaz de promover transformação digital responsável no setor público. O debate abordou temas como confiança institucional, gestão da inovação, os dilemas éticos do uso de inteligência artificial em serviços governamentais e a importância de culturas organizacionais que permitam o aprendizado a partir de erros.
No início da tarde, a programação se concentrou nos riscos, limitações e aprendizados relacionados à implementação de cidades inteligentes, com ênfase na necessidade de soluções digitais ancoradas no contexto local e orientadas por valores públicos. Em seguida, o grupo participou de uma apresentação sobre experiências internacionais na construção de ecossistemas de inovação, com destaque para casos como o National Underground Asset Register (NUAR), no Reino Unido. A agenda foi concluída com visitas técnicas ao Cambridge Ray Dolby Centre, novo polo de pesquisa e colaboração científica da Universidade de Cambridge, e ao IdeaSpace, incubadora voltada ao fomento de startups e soluções tecnológicas. A programação reforçou a importância da articulação entre governo, academia e setor privado para promover políticas públicas mais efetivas e sustentáveis em um cenário digital em constante transformação.
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Liderança, governança e organização para um governo digital eficaz

A primeira sessão do segundo dia da formação internacional contou com uma mesa-redonda de especialistas renomados em políticas públicas, inovação e tecnologia. O painel incluiu Julian Huppert, ex-membro do Parlamento Britânico e especialista em ciência, tecnologia, ética em IA e liberdades civis; Calum Handforth, conselheiro global em inovação e transformação digital para governos e instituições multilaterais, com experiência no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e em fóruns do G20 e da ONU; Christian van Stolk, vice-presidente executivo da RAND Corporation Europe, instituição voltada para a pesquisa e desenvolvimento, com vasta experiência em políticas públicas de saúde, bem-estar e inovação; e Tanya Filer, diretora do programa Digital State, da Universidade de Cambridge, e editora-chefe do Cambridge Forum on Technology and Global Affairs.
Um dos principais temas discutidos foi a importância da confiança como base da transformação digital. Julian Huppert destacou que a relação entre governos e empresas de tecnologia precisa ser cuidadosamente construída, especialmente diante de episódios em que a transparência nem sempre foi plenamente observada. Para ele, garantir a integridade pública em parcerias com o setor privado passa por estabelecer contratos claros, comunicação aberta e avaliações independentes. Um exemplo de governança ética e confiável no uso de dados sensíveis, que ele citou, foi a experiência da DeepMind com saúde no Reino Unido.
Os debatedores também enfatizaram o papel do erro como ferramenta de aprendizado, e não como uma falha definitiva. Calum Handforth destacou a importância de “reconhecer que falhar faz parte da jornada de inovação”, desde que isso seja feito com estrutura e segurança. Ele apresentou o conceito de pré-mortem, uma simulação de riscos antes da implementação de políticas, como um método para antecipar e mitigar falhas sem paralisar a inovação. Complementando a discussão, Christian van Stolk acrescentou que, para inovar, é crucial entender como a mudança afeta o sistema e as pessoas. Para ele, “a inovação real causa disrupção, e precisamos mapear como ela se encaixa em diferentes níveis do ecossistema”.
O debate também destacou a responsabilidade dos líderes públicos em criar ambientes que permitam a experimentação sem comprometer o interesse coletivo, superando a cultura de punição ao erro, que ainda é uma barreira à inovação nos governos. Os participantes destacaram a necessidade de cultivar uma mentalidade orientada ao aprendizado contínuo e ao risco calculado, como condição essencial para transformar ideias em soluções eficazes.
Ademais, diante da crescente complexidade de temas como inteligência artificial, proteção de dados e cidades inteligentes, reforçou-se a relevância de alinhar capacidades técnicas às decisões políticas, fortalecer redes de cooperação entre lideranças e valorizar o conhecimento especializado como base de uma transformação digital ética, inclusiva e sustentável.
Dados e tomada de decisão para lugares resilientes

A aula conduzida por Jennifer Schooling, engenheira civil e doutora pela Universidade de Cambridge, trouxe uma análise sobre os riscos e os potenciais da digitalização urbana e do uso de tecnologias emergentes no setor público. Especialista em infraestrutura urbana, governança e inovação ética, ela destacou que a transformação digital só faz sentido quando orientada pela entrega de valor público, com foco em resultados que melhorem de fato a vida das pessoas.
Jennifer apresentou as quatro ondas de desenvolvimento das chamadas cidades inteligentes, desde a adoção inicial de soluções tecnológicas desconectadas da realidade urbana, passando pela digitalização liderada por governos e pela disrupção provocada pelas big techs, até o cenário atual, marcado pela ‘plataformização’ dos serviços públicos e pela incorporação acelerada de inteligência artificial. Ela alertou para os riscos de uma dependência excessiva de grandes empresas de tecnologia e para a falta de controle dos governos sobre os dados e sistemas em uso. “Estamos operando em plataformas que não controlamos. E se a Amazon falir? E se a Microsoft falhar?”, alertou
Para ilustrar os desafios da transformação digital responsável, Jennifer compartilhou o caso do projeto NUAR (National Underground Asset Register), que levou sete anos para ser implementado no Reino Unido. O projeto, voltado ao mapeamento de ativos subterrâneos para prevenir acidentes e modernizar a infraestrutura urbana, foi um exemplo de como o planejamento cuidadoso, a articulação entre múltiplos atores e o engajamento de lideranças técnicas e políticas são fundamentais para o sucesso de iniciativas digitais em larga escala.
Ao tratar do uso de inteligência artificial, Jennifer reforçou a necessidade de avaliar riscos, garantir a governança dos dados e envolver os usuários finais desde o início dos projetos. Para ela, a inovação só se sustenta quando alinhada a princípios éticos e adaptada ao contexto específico de cada cidade. “Se não entregamos valor público por meio da inovação digital, falhamos em nosso objetivo”, afirmou. A lição principal da aula foi de que a tecnologia deve ser um meio, e não um fim em si mesma – e seu uso exige responsabilidade, planejamento e compromisso com o bem coletivo.
Innovate Cambridge

A aula, conduzida pelo professor Andy Neely OBE (Ordem do Império Britânico), apresentou uma visão abrangente sobre o ecossistema de inovação de Cambridge, destacando a articulação entre universidade, setor privado, governo e sociedade civil como um diferencial estratégico para o desenvolvimento sustentável da cidade. Com uma trajetória que inclui a liderança em centros de pesquisa, fundos de investimento e iniciativas de empreendedorismo universitário, Andy compartilhou sua experiência à frente da Innovate Cambridge, movimento colaborativo voltado à construção de uma estratégia local de inovação com impacto real na vida das pessoas.
Ao longo da apresentação, Andy ressaltou que a Universidade de Cambridge não atua de forma isolada, mas como parte de um sistema integrado, em que a inovação é pensada como ferramenta para transformar a sociedade. “A missão da universidade é contribuir com a sociedade por meio da educação, da pesquisa e da inovação – e isso só faz sentido se estiver conectado à realidade das pessoas”, afirmou. A cidade, segundo ele, funciona como um espaço dinâmico de troca e experimentação, em que estudantes, pesquisadores, empresas e moradores interagem em rede, criando condições favoráveis ao surgimento de ideias transformadoras.
Um dos pontos centrais da aula foi a importância de criar um ambiente seguro para inovar, inclusive com espaço para falhas. Andy destacou que Cambridge é considerada “um lugar seguro para falhar”, justamente por oferecer uma rede sólida de apoio, com oportunidades para que startups e pesquisadores possam testar, errar e recomeçar. Essa lógica, segundo ele, amplia a confiança, atrai talentos e estimula a ambição. “Se você está aqui, precisa fazer algo que gere diferença no mundo. Nem todos farão, mas se todos tentarem, conseguiremos algumas inovações”.
O professor também compartilhou iniciativas concretas que integram diferentes pilares do ecossistema, como a Cambridge Enterprise (que apoia a transferência de tecnologia e a criação de startups), os fundos de investimento locais, os espaços físicos para incubação e coworking, além de ações para promover inovação inclusiva. Como exemplo, citou a criação de um fundo comunitário de £6 milhões, voltado a financiar projetos sociais locais com recursos vindos de empreendedores da região.
Visitas de campo: Centro de Física – Cambridge Ray Dolby Centre / IdeaSpace – Cambridge Enterprise

A programação do dia também foi marcada pelas primeiras visitas de campo desta edição do programa de Formação Internacional. Nelas, os participantes tiveram a oportunidade de ver, na prática, como Cambridge consegue integrar pesquisa científica de ponta, inovação tecnológica e empreendedorismo. Primeiro, o grupo conheceu o Ray Dolby Centre, novo prédio dedicado às ciências físicas da Universidade de Cambridge, concebido para impulsionar a colaboração entre departamentos e estimular descobertas científicas de alto impacto.
Com investimento total de £300 milhões – incluindo um aporte significativo do governo britânico -, o centro abriga laboratórios de última geração e ambientes projetados para pesquisas sensíveis, como as que envolvem computação quântica e desenvolvimento de materiais avançados. O espaço, entregue em 2024, também simboliza uma ruptura com o modelo anterior de pesquisa em “silos”, promovendo maior integração entre pesquisadores, técnicos e a comunidade acadêmica.
Além da estrutura física de excelência, o Ray Dolby Centre representa um esforço da Universidade de Cambridge para tornar a cidade mais acessível e sustentável. A construção de moradias e escolas nas proximidades do campus busca mitigar os altos custos de vida locais e promover bem-estar aos funcionários. A partir da visita guiada pelo gerente de manufatura e instalações do centro, foi possível conhecer as alas abertas ao público e as exposições que celebram a história da ciência moderna no laboratório Cavendish, onde trabalharam nomes como Isaac Newton e Stephen Hawking. Também foram destacados os compromissos do edifício com energia limpa, conforto ambiental e design voltado à convivência e à integração entre os diferentes departamentos.
Em seguida, os participantes seguiram para o IdeaSpace, espaço de incubação da Cambridge Enterprise, braço de inovação da universidade. Fundado com o objetivo de fomentar o empreendedorismo em estágio inicial, o IdeaSpace funciona como uma comunidade autossustentável e diversa, composta por cerca de 95 membros de setores variados – da captura de carbono à saúde mental infantil. O ambiente estimula a troca entre empreendedores por meio de eventos sociais, colaboração espontânea e apoio técnico, com mensalidades acessíveis que garantem sua independência financeira. Apesar da proximidade com a universidade, o espaço também acolhe empreendedores externos, promovendo uma rede inclusiva e plural.
Os participantes puderam ouvir relatos de alguns fundadores que utilizam o espaço, como o idealizador da PolyCapture, que desenvolveu uma tecnologia inovadora para captura de CO₂ com aplicação em mercados emergentes, e Allison Turnan, da Cambridge Adapt Testing, que criou uma plataforma digital para monitoramento de saúde mental em crianças e jovens. Ambos ressaltaram o valor da comunidade do IdeaSpace como um suporte essencial para o desenvolvimento de suas soluções e o papel da universidade como facilitadora de conexões com especialistas e recursos técnicos.
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