“Reconstruir rápido não basta; precisamos reconstruir melhor”, afirma Germano Bremm
O secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, explica como a cidade se reergueu da maior tragédia climática de sua história com um modelo inédito de governança e transparência

Em maio de 2024, Porto Alegre viveu a maior tragédia climática de sua história – e uma das maiores já registradas no Brasil. A força das águas inundou 30% do território da cidade, deslocou cerca de 160 mil pessoas, atingiu 45 mil empresas, destruiu mais de mil quilômetros de vias e deixou completamente danificadas 309 instalações públicas municipais, número que ultrapassa 500 quando se somam as estruturas estaduais. O impacto financeiro é igualmente devastador. O prejuízo público estimado ultrapassou R$ 12 bilhões, valor superior a todo o orçamento anual do município, enquanto o prejuízo privado chegou a superar R$ 3 bilhões por mês enquanto a cidade deixou de funcionar.
“A escala do desastre foi tão grande que nenhuma estrutura convencional da gestão pública seria capaz de lidar com ela [por si só]”, afirma Germano Bremm, secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre e coordenador-geral do Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática, estrutura criada em parceria com a Comunitas. Para ele, as enchentes revelaram não apenas a fragilidade das infraestruturas urbanas diante das mudanças climáticas, mas a urgência de construir novas capacidades institucionais para responder a eventos extremos.
Segundo o secretário, a parceria com a Comunitas foi fundamental para organizar a resposta à tragédia. Com sua expertise em gestão de grandes projetos, a organização apoiou a criação do Escritório de Gerenciamento de Projetos (EGP), responsável por mapear os danos e definir prioridades em áreas estratégicas, como infraestrutura, habitação e adaptação climática, oferecendo bases sólidas para as próximas decisões da prefeitura.
Diante desse cenário, a prefeitura decidiu estruturar um modelo de governança capaz de acelerar decisões, priorizar ações, integrar secretarias e mobilizar recursos públicos e privados. O Escritório nasceu com essa função: mapear integralmente os danos, desenvolver projetos e orçamentos, coordenar equipes, organizar prioridades, captar investimentos e, sobretudo, garantir transparência. A estratégia combinou gestão de crise com visão de futuro, unindo reconstrução e adaptação climática em uma mesma agenda – porque, nas palavras de Bremm, “não basta reconstruir o que tínhamos; é preciso reconstruir melhor”.
Diagnóstico preciso e resposta ágil: a chave para mobilizar recursos

Logo nos primeiros meses, a equipe consolidou o maior diagnóstico já produzido sobre um desastre climático na cidade. O levantamento incluiu todos os equipamentos públicos danificados, além das estruturas críticas do sistema de proteção, como casas de bombas, diques e comportas, muitas delas gravemente afetadas. Também foram identificadas 9.615 moradias completamente atingidas, sobretudo em territórios de maior vulnerabilidade, e mais de 20 mil domicílios de interesse social impactados pela tragédia. Ao mesmo tempo, a cidade avançou no mapeamento técnico de imóveis aptos para compra, chegando a 4.649 unidades disponíveis, e levou ao governo federal mais de 6 mil laudos habitacionais, dos quais 2.515 já foram aprovados para o Programa de Compra Assistida.
“Ter esse diagnóstico foi a chave para mobilizar parceiros privados, acessar financiamentos internacionais e organizar a própria cobrança da sociedade”, explica o secretário. “Ninguém ajuda uma cidade sem informações claras, sem projetos, sem orçamento, sem prioridades definidas”.
A partir dessa base, Porto Alegre conseguiu acelerar a recuperação física de uma forma inédita. Pouco mais de um ano após a enchente, mais de 90% dos 309 equipamentos municipais já foram recuperados, um número considerado extraordinário para uma cidade que levou 250 anos para construir parte significativa dessas estruturas. Escolas completamente submersas foram reabertas em poucos meses, unidades básicas de saúde foram reconstruídas integralmente e centros culturais voltaram a funcionar graças à combinação de recursos públicos e fortes parcerias privadas, que só foram possíveis porque o Escritório executou, com rigor, a etapa técnica de projetos, orçamentos e governança.
Da reconstrução à resiliência

A recuperação da infraestrutura foi acompanhada por um segundo movimento, o fortalecimento do sistema de proteção contra cheias e a ampliação da agenda de adaptação climática. Com base no Plano de Ação Climática (PLAC), o município avançou na recuperação de 114 estruturas de proteção, e iniciou 30 ações estruturantes de prevenção, das quais 15 já estão em implementação. Entre elas estão a instalação de sensores e réguas linimétricas em diferentes pontos do Rio Guaíba, a criação de um Centro de Monitoramento e Contingência em área alta e protegida, a modernização dos protocolos de resposta e a estruturação de um serviço meteorológico municipal, reduzindo a dependência das previsões estaduais.
“Hoje, as cidades do mundo não se perguntam mais se vão enfrentar uma nova tragédia, mas quando”, afirma Bremm. “A única resposta possível é construir resiliência e ampliar sistemas de proteção, modernizar o monitoramento, planejar rotas de fuga, capacitar equipes, integrar políticas de clima e urbanismo. Estamos fazendo isso”, contou ele.
Transformação urbana, retomada econômica e transparência como pilar

A tragédia também exigiu uma reflexão profunda sobre o território urbano. Regiões severamente afetadas passaram a ser tratadas como áreas prioritárias de transformação. O Escritório liderou o desenho de planos urbanísticos sustentáveis para essas áreas, conectando reconstrução, habitação, mobilidade e adaptação climática. Ao todo, 56 ações de transformação urbana foram estruturadas, sendo 15 já concluídas e mais de 23 em andamento. A iniciativa dialoga diretamente com a revisão do Plano Diretor, que ganhou novo impulso a partir da tragédia.
No campo econômico-financeiro, a cidade estruturou um monitoramento rigoroso de recursos e conseguiu acessar cerca de R$ 4,7 bilhões em financiamentos climáticos, fundamentais para viabilizar obras de grande porte. Somados aos repasses federais, estaduais e às contribuições privadas, mais de R$ 800 milhões já foram mobilizados para frentes prioritárias. Os indicadores macroeconômicos começam a refletir a retomada. Houve crescimento no número de empresas abertas, recuperação do nível de empregos, estabilização da arrecadação municipal e aumento da ocupação hoteleira – sinal claro de que Porto Alegre voltou a funcionar.
Toda essa engrenagem ganhou um componente essencial para gerar confiança e previsibilidade: a plataforma pública e georreferenciada criada pelo Escritório, apresentada internacionalmente na COP 29. O Portal de Reconstrução e Adaptação Climática reúne, em tempo real, todos os dados da reconstrução – obras, valores, cronogramas, mapas de áreas afetadas, ações de prevenção, investimentos captados, monitoramento climático e hidrológico. Para Bremm, a plataforma foi decisiva para organizar a percepção pública sobre a tragédia. “Sem transparência, a sociedade cobraria o impossível. Estamos falando de recuperar em meses equipamentos que levaram séculos para serem construídos. Mostrar o tamanho do desafio foi tão importante quanto agir”.
Ao olhar para o último ano, o secretário reconhece a dor e a magnitude da crise, mas afirma que Porto Alegre inicia agora um novo ciclo. “Perdemos muito. Pessoas perderam suas casas, suas referências, seus lugares de vida. Mas também aprendemos muito. E conseguimos construir, no meio da tragédia, um novo modelo de gestão pública, baseado em governança, parceria, dados e transparência. Não estamos apenas reconstruindo a cidade, estamos preparando Porto Alegre para continuar existindo como uma capital forte e resiliente”.
“Reconstruir rápido é fundamental”, conclui Bremm. “Mas reconstruir melhor é o que garante que uma tragédia como essa não destrua a cidade novamente”.
Confira a entrevista!
https://youtu.be/KRJnjJadlIc?si=BtREVwB18zgPmXhQ
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