Rede BISC compartilha aprendizados sobre parcerias de impacto
Em entrevista, especialistas da Rede BISC detalham como a união de recursos e estratégias entre organizações potencializa o impacto social

Uma transformação importante está redefinindo o investimento social privado no Brasil. A antiga crença de que os desafios sociais e ambientais podem ser enfrentados de forma isolada dá lugar a uma nova forma de atuação: o coinvestimento. Essa prática não é uma tendência passageira, mas sim uma evolução natural e estratégica, na qual empresas, institutos e fundações combinam recursos, expertise e influência para ampliar o impacto e gerar valor compartilhado em causas e territórios de interesse comum.
Na última edição do Grupo de Debates, realizada no início de setembro, especialistas do setor e investidores sociais se reuniram na Comunitas para discutir caminhos, desafios e aprendizados dessa jornada colaborativa. Os depoimentos mostraram que, por trás de cada caso de sucesso, há um intenso trabalho de alinhamento estratégico, gestão ágil e, acima de tudo, uma mudança de mentalidade que promove até mesmo a colaboração entre concorrentes em prol de uma causa comum.
A partir do encontro, surgiram insights sobre como estruturar parcerias de co-investimento de forma eficaz, equilibrando propósito, eficiência e impacto social.
A lógica do ganha-ganha

Para Raísa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner, a chave para parcerias de sucesso é engajar a alta liderança no tema do co-investimento por meio de uma abordagem estratégica.
“Normalmente, a gente traz dois grandes pontos”, explica. O primeiro é a eficiência de recursos, que se manifesta na otimização de verbas, equipes e serviços quando há uma ação conjunta. O segundo ponto, complementar, é a maximização dos resultados. “A gente traz realmente que há uma relação de ganha-ganha”, afirma Raísa, destacando que essa abordagem vai além da visibilidade da marca e foca no cerne do investimento social, que é gerar impacto real e mensurável.
O engajamento da liderança foi fundamental para viabilizar coalizões como a Moda Justa e Sustentável, que contou com investimento social de organizações do mesmo setor, como o Instituto C&A. Nesse sentido, a experiência prática das organizações mostra que a colaboração entre concorrentes só se torna viável quando há humildade institucional e a compreensão clara de que certos desafios transcendem a capacidade individual de qualquer empresa.
Como exemplo de parceria entre concorrentes, destaca-se o caso do Agora, primeiro festival de moda sustentável idealizado pelo Instituto C&A, que conseguiu reunir marcas como Nestlé, Pernambucanas e Farm Rio em torno de uma mesma causa. Isso reforça que é necessário “encontrar temáticas que ressoem e sejam atraentes para empresas concorrentes é um esforço essencial para quem busca efetivamente mover ponteiros”.
O grande desafio, no entanto, é garantir que essas parcerias não sejam iniciativas isoladas, mas sim integradas à estratégia principal da empresa. Ana Tácite, Gerente de Estratégias e Integração do Instituto Coca-Cola, acredita que a resposta começa com definições muito claras do porquê formalizar parcerias.
Neste sentido, dois aspectos se destacam: cultura organizacional e governança. “O ponto principal é entender por que você está fazendo essa parceria e se os objetivos entre os parceiros estão alinhados”, explica. O fit cultural, defendeu, é tão importante quanto o alinhamento temático ou territorial. Ela reforça que, após definir o propósito, é crucial estabelecer uma governança ágil para evitar a morosidade que pode prejudicar os beneficiários. Segundo ela, “papéis bem definidos e contornos bem alinhados com os parceiros” são essenciais para o sucesso.
Capilaridade como catalisador de impacto
No Instituto Coca-Cola, a enorme capilaridade da empresa em território nacional é um ativo poderoso para atrair e conectar parceiros. Ana explica que um dos pilares de atuação é a capacidade de catalisar o impacto.
“A gente tenta usar sempre o poder de convocatória do sistema Coca-Cola, do Instituto, para poder atrair outros parceiros”, relata. A sinergia é intencional: ao focar na inclusão produtiva, o Instituto mobiliza ativos como a oferta de vagas e o poder da marca para criar valor tanto para a sociedade quanto para o negócio. “A gente vai costurando e acionando todos os ativos que temos em prol desse objetivo”, resume Ana.
Entretanto, ter acesso a parceiros e mobilizar ativos não é suficiente. Para que o co-investimento funcione plenamente, é preciso também assegurar transparência e métricas claras para avaliar resultados e comprovar a eficácia das parcerias.
Métricas, transparência e a potencialização de recursos
No que tange à gestão das parcerias, Fabiola Lima, Gerente de Sustentabilidade das Lojas Renner, defende uma visão que abrange toda a cadeia de valor, que vai desde fornecedores a clientes. A governança, para ela, deve ser transparente e, acima de tudo, ágil.
“O grande ponto do coinvestimento é a gente não reduzir os recursos, e sim a gente aumentar e potencializar para que cada vez mais a gente tenha mais pessoas beneficiadas”, ressalta Fabiola. Para isso, ela enfatiza a necessidade de uma gestão robusta de dados e processos, que permita comparar projetos e demonstrar os resultados de forma clara e ética.
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