Rede BISC se reúne para compartilhar práticas de fortalecimento de OSCs
Encontro evidencia desafios estruturais do financiamento empresarial às OSCs e destaca caminhos para fortalecer sua autonomia e geração de impacto

Nesta quinta-feira (26), a Rede BISC realizou mais uma edição do seu Grupo de Debates, reunindo empresas, institutos e fundações corporativas parceiras para discutir sobre a sustentabilidade financeira de organizações da sociedade civil (OSCs) e trajetória de saída qualificada do investidor. O encontro, realizado na sede da Comunitas, teve como objetivo promover uma troca qualificada sobre as práticas adotadas pelas organizações e os desafios enfrentados no cotidiano do investimento social corporativo.
O encontro reuniu cerca de 30 lideranças do investimento social de organizações integrantes da Rede BISC. Estiveram presentes a B3 Social, Instituto Neoenergia, Instituto Lojas Renner, Petrobrás, Fundação ArcelorMittal, Gerdau, Instituto Votorantim, Instituto C&A, Instituto Cyrela, Cartão de Todos, Grupo BMG, Instituto Orizon Social, Instituto Cury, Raízen e Instituto Rumo. A edição também contou com a participação do Instituto ACP, organização convidada que atua há mais de 7 anos no fortalecimento institucional de OSCs e contribuiu com reflexões e aprendizados práticos ao longo do debate.
A agenda foi construída a partir da identificação de padrões e prioridades recorrentes entre os membros da Rede, reforçando o papel do BISC como um espaço de escuta ativa e produção de conhecimento aplicado ao campo. “Este é um espaço de segurança, onde a gente consegue identificar o que está funcionando, mas também experiências que não deram certo”, declarou João Morais, Coordenador do BISC na abertura do encontro.
O objetivo do encontro foi aprofundar o debate sobre os modelos de gestão, financiamento e relacionamento que permitem fortalecer organizações da sociedade civil, mesmo sob restrições orçamentárias, regimentos de compliance corporativos e ciclos de investimento de curto prazo, contexto relativamente comum no ISC.
Pontos de discussão
Ao longo da dinâmica, foi se estabelecendo um padrão no qual o investimento social prioritariamente estabelecido no território tende a enfrentar com mais frequência um contexto onde o tecido social – e as organizações locais – são relativamente mais frágeis, o que demanda uma sensibilização do financiador sobre seu papel na formação da sociedade civil local e um investimento mais paciente no desenvolvimento das organizações. Por outro lado, filantropias mais atuantes em grandes centros urbanos e mobilizadas prioritariamente por uma causa têm maiores possibilidades de estabelecer parcerias com organizações com maior potencial de desenvolvimento e diversificação, contexto que favorece a trajetória de saída qualificada do investidor.
A conversa teve início com a equipe da B3 Social, que apresentou sua experiência na construção de estratégias de saída qualificada de investimentos. A iniciativa parte do reconhecimento de que o apoio financeiro tem um ciclo e que é necessário preparar as organizações para esse momento desde cedo.
Entre as práticas adotadas pela instituição, estão a comunicação transparente com antecedência – entre 12 e 24 meses -, a redução gradual dos aportes e a oferta de apoio técnico, como consultorias em captação de recursos e gestão. A estratégia também inclui a conexão das OSCs a redes de co-investimento. “A gente foi entendendo que precisava apoiar as organizações para além do recurso financeiro, pensando no legado que fica quando esse investimento se encerra”.
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A experiência evidenciou que a sustentabilidade financeira depende, claro, de acesso a recursos financeiros, mas também da capacidade institucional das organizações de se adaptarem, diversificarem fontes de recursos e estruturarem sua gestão.
Na sequência, o Instituto Neoenergia compartilhou a experiência dos Núcleos de Acompanhamento de Projetos (NAPs), uma estratégia voltada ao acompanhamento contínuo de iniciativas apoiadas via leis de incentivo, especialmente em territórios do interior.
Os NAPs combinam encontros periódicos, formações e intercâmbio entre organizações, sendo um meio para o monitoramento dos projetos e também para o fortalecimento dos proponentes. Um dos aprendizados foi a necessidade de atuar na base da cadeia, apoiando organizações que ainda não acessam mecanismos de financiamento existentes. “A gente percebeu que não bastava financiar, era preciso qualificar quem ainda não estava sequer conseguindo acessar esses recursos”.
O cenário relatado também evidencia um desafio estrutural: a desigualdade territorial no acesso a financiamento e a necessidade de estratégias diferenciadas para organizações de base comunitária, muitas vezes mais frágeis do ponto de vista institucional.

O Instituto Lojas Renner reforçou a importância da necessidade de adaptar instrumentos de apoio às realidades das OSCs, considerando seus diferentes níveis de maturidade e capacidade de gestão. “A gente entendeu que não dá para aplicar o mesmo modelo para todas as organizações. É preciso olhar para o contexto e construir soluções junto com elas”. A realidade demonstra que a sustentabilidade financeira também passa por reconhecer desigualdades estruturais no acesso a recursos e por desenvolver estratégias mais inclusivas e flexíveis de investimento social.
A Petrobras compartilhou reflexões a partir de sua atuação em larga escala no apoio a projetos sociais, evidenciando os desafios de conciliar processos estruturados de seleção e acompanhamento com a necessidade de fortalecer institucionalmente as organizações apoiadas. Um dos pontos destacados foi a importância de incorporar critérios de desenvolvimento institucional desde o desenho dos editais e programas. “A gente vem aprendendo que não basta selecionar bons projetos – é preciso olhar para a organização como um todo e apoiar seu desenvolvimento ao longo do tempo”.
Outro ponto relevante do debate foi a reflexão sobre o papel do investimento social na construção de autonomia. Os participantes presentes destacaram que, em alguns casos, o impacto mais duradouro não está na continuidade do projeto em si, mas na transferência de conhecimento e capacidades. “Talvez a gente não consiga garantir que a organização continue, mas pode garantir que o conhecimento fique e gere autonomia no território”.
Desafios estruturais e caminhos possíveis

A diversidade de perspectivas durante o encontro confirmou que a sustentabilidade das OSCs exige uma abordagem integrada. Discutiu-se, sobretudo, o descompasso entre os ciclos de investimento corporativo e o tempo necessário para a consolidação de organizações e geração de impacto social consistente. “A gente sabe que três anos é pouco tempo para transformar um território, mas muitas vezes é o tempo que a gente tem”.
As estratégias variam de acordo com o perfil das organizações e dos territórios. Enquanto algumas empresas conseguem rotacionar investimentos conforme suas prioridades, outras têm uma permanência territorial mais estruturante, o que exige uma visão de longo prazo e maior compromisso com o fortalecimento do ecossistema local.
Nesse contexto, a contribuição do Instituto ACP agregou uma visão metodológica importante ao debate ao apresentar diretrizes para a promoção do desenvolvimento institucional – desde custos operacionais e planejamento estratégico até a formação de reservas financeiras. Com base em sua atuação junto a organizações de diferentes perfis e territórios, o Instituto destacou a importância de diagnósticos institucionais consistentes, da construção de planos de fortalecimento de médio e longo prazo e do acompanhamento contínuo como fatores determinantes para a consolidação das OSCs.
“A sustentabilidade financeira das OSCs passa, necessariamente, pelo fortalecimento institucional. Sem investir na estrutura e na gestão das organizações, não há como garantir sua continuidade no médio e longo prazo”, declarou Pamela Dietrich Ribeiro, Gerente de Programas do Instituto ACP.
O histórico de atuação do Instituto reforça que, embora ações não financeiras sejam relevantes, o apoio direto e estruturado segue sendo fundamental, especialmente quando articulado a estratégias que promovam autonomia e sustentabilidade ao longo do tempo.
A Rede BISC
A Rede BISC é um espaço estratégico de articulação e inteligência coletiva, capaz de transformar experiências individuais em conhecimento compartilhado, orientando a tomada de decisão e promovendo agendas estruturantes para o desenvolvimento do investimento social corporativo.
Fomentamos uma comunidade de aprendizado entre lideranças empresariais e suas equipes, promovendo discussões qualificadas, troca de experiências e conexões estratégicas em torno de temas prioritários para o setor. Realizado em formato fechado para a Rede BISC, os encontros fortalecem um ambiente de confiança e colaboração, essencial para o avanço de agendas complexas como a sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil.
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