Comunitas Institucional, Modernização da Administração | 30/07/2025

3º dia em Cambridge discute o uso do conhecimento em políticas públicas

Líderes públicos e privados exploram como universidades, governos e empresas podem trabalhar juntos para transformar conhecimento em políticas eficazes

No terceiro dia do programa de Formação Internacional, realizado hoje (30), os participantes exploraram estratégias para impulsionar a inovação digital, políticas públicas e colaboração entre setores, com foco em experiências locais e globais. A iniciativa é fruto de uma parceria entre a Comunitas e a Universidade de Cambridge.

A imersão, que segue até a próxima sexta-feira (1º), tem como objetivo capacitar líderes públicos e privados para desenvolver e implementar políticas inovadoras, fortalecendo ecossistemas de inovação e melhorando a eficácia das políticas públicas. A comitiva é composta por 24 pessoas, entre gestores públicos e líderes privados, que estão debatendo modelos aplicáveis em diferentes contextos, incluindo o Brasil.

O terceiro dia do programa teve como foco os modelos inovadores de articulação entre pesquisa acadêmica, políticas públicas e desenvolvimento tecnológico. A programação destacou a experiência do Centre for Science and Policy (CSaP) da Universidade de Cambridge, que inverteu a lógica tradicional ao partir das demandas reais de gestores públicos e criar um programa de encontros personalizados entre formuladores de políticas e pesquisadores. A iniciativa, que já conectou mais de 500 gestores com cerca de 2.000 acadêmicos, evidencia como a escuta qualificada e o diálogo estruturado podem transformar conhecimento técnico em ação governamental efetiva.

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

No período da tarde, o debate teve como foco os desafios e oportunidades da política industrial brasileira, com ênfase na reversão da desindustrialização precoce e na importância de conectar a produção científica ao mercado. A discussão abordou estratégias para superar o chamado ‘vale da morte’ da inovação, destacando a relevância dos sistemas nacionais como referência para fortalecer essa transição. Também foi apresentado o programa Nova Indústria Brasil, que prevê investimentos de R$ 507 bilhões em setores industriais estratégicos, tanto emergentes quanto tradicionais, como forma de impulsionar o desenvolvimento econômico e tecnológico do país.

Os debates também trouxeram uma abordagem prática sobre inovação no setor público, com destaque para casos de transformação digital na América Latina, que demonstram como o uso de narrativas eficazes, metodologias visuais e processos colaborativos pode mobilizar diferentes atores na solução de desafios complexos. A proposta enfatizou a importância de colocar as pessoas no centro das estratégias de inovação e de desenvolver capacidades dinâmicas nas organizações públicas, capazes de sustentar processos contínuos de mudança e adaptação.

A reflexão final do dia, conduzida por Fernando Schuler, consolidou os principais aprendizados da jornada até o momento, reforçando a urgência de estabelecer estruturas permanentes de diálogo e cooperação entre governo, academia e setor privado. O encerramento destacou a relevância de abordagens integradas para enfrentar os desafios contemporâneos do desenvolvimento, reconhecendo que a inovação pública depende tanto de instrumentos técnicos quanto de uma cultura institucional aberta à escuta, à experimentação e à articulação intersetorial.

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Pesquisa, política e tecnologia: um sistema virtuoso

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

A mesa-redonda foi liderada por Rob Doubleday, doutor em Geografia e Estudos de Ciência e Tecnologia pela University College London e diretor executivo do Centre for Science and Policy (CSaP); Tanya Filer, doutora e fundadora da StateUp, com passagens por Oxford, Cambridge, UCL, Harvard e Yale; e Mark Lazar, mestre e diretor do programa Founders da Universidade de Cambridge, com mais de uma década de experiência no universo das startups e GovTech. 

Ao longo do debate, os painelistas destacaram modelos inovadores de articulação entre pesquisa e políticas públicas, com ênfase para o trabalho do Centre for Science and Policy (CSaP) da Universidade de Cambridge. A instituição desenvolveu uma nova metodologia que parte do questionamento de servidores públicos para, a partir disso, conectar especialistas acadêmicos em encontros individuais e personalizados. Com mais de 14 mil reuniões realizadas, o programa se consolidou como uma ponte entre o conhecimento técnico e a ação governamental, promovendo um diálogo estruturado, contínuo e sem burocracia. “Começamos pelo caminho inverso do usual: não fomos dizer aos governos o que fazer, fomos escutá-los para entender quais eram os seus problemas”, afirmou Doubleday.

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

Segundo os painelistas, a chave está em criar redes de confiança mútua, com escuta qualificada e disposição para a experimentação. O processo não busca resultados imediatos, mas relações de longo prazo entre os atores envolvidos. “Esses encontros de uma hora podem parecer pontuais, mas muitas vezes se transformam em redes de apoio duradouras entre pesquisadores e formuladores de políticas”, destacou Tanya Filer.

A discussão aprofundou-se nos desafios impostos pela linguagem e cultura acadêmica na hora de aplicar o conhecimento científico no mundo real. A falta de incentivos institucionais e o uso de uma linguagem hermética foram identificados como os principais desafios para que a produção acadêmica influencie, de fato, a formulação de políticas públicas. Houve um consenso entre os participantes sobre a importância de desenvolver, tanto em pesquisadores quanto em gestores, competências interpessoais e capacidade de escuta, valorizando a humildade intelectual e o desejo de gerar impacto. 

Além do CSaP, foram apresentados programas como o SYNC, que atua no match entre potenciais fundadores e empreendedores em Cambridge, e o SPARK, uma incubadora de quatro semanas que prepara ideias para se tornarem negócios investíveis. Esses modelos reforçam a importância da experimentação prática e do trabalho colaborativo, simulando condições do mundo real para que os participantes desenvolvam resiliência, comunicação e pensamento estratégico. “O ritmo intenso e a curva de aprendizagem fazem parte do processo. Tivemos empresas que mudaram completamente durante o programa, e isso é parte da proposta”, salientou Mark Lazar. 

Política de inovação para o Brasil

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

A sessão, que foi conduzida por Mateus Labrunie, doutor pelo Centre of Development Studies da Universidade de Cambridge, com pesquisa voltada aos desafios da política industrial e do desenvolvimento tecnológico no Brasil, apresentou uma análise do histórico industrial brasileiro, marcado por ciclos de avanço e retrocesso, e contextualizou a recente iniciativa do governo federal com o programa “Nova Indústria Brasil”, que prevê investimentos de R$ 507 bilhões em missões estratégicas. Embora reconheça a relevância do investimento, Labrunie defende que o maior desafio está em conectar pesquisa e mercado, superando o conhecido “vale da morte” da inovação – a lacuna entre o conhecimento gerado e sua adoção produtiva.

A partir da experiência do grupo Cambridge Industrial Innovation Policy (CIIP), vinculado ao Institute for Manufacturing da Universidade de Cambridge, o pesquisador compartilhou metodologias para estruturar sistemas nacionais voltados ao desenvolvimento tecnológico e à competitividade. Ele destacou que esse processo não é linear, mas interativo, envolvendo desde a geração de conhecimento até sua difusão e adoção por usuários finais, especialmente empresas. “O importante nem sempre é criar algo novo, mas combinar elementos já existentes. É como o fish and chips: uma fusão cultural que virou tradição”, afirmou Labrunie, ao ilustrar como soluções criativas podem surgir de recombinações inteligentes, desde que apoiadas por políticas públicas consistentes.

Dinâmica realizada durante a sessão de Labrunie. Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

Durante a apresentação, foram debatidas as múltiplas barreiras à inovação no Brasil, como a dificuldade de acesso ao financiamento, a baixa capacidade de absorção tecnológica pelas empresas e a fragmentação dos sistemas de apoio. Labrunie defendeu que o sucesso dos sistemas de inovação depende da qualidade das conexões entre seus atores, universidades, empresas, centros de pesquisa, governo e organizações-ponte. “A política industrial deve ser pensada como um instrumento para melhorar a qualidade dessas conexões. Sem isso, o conhecimento morre na academia”, reforçou.

Os participantes compartilharam experiências regionais e mencionaram instituições brasileiras que atuam como pontes entre pesquisa e mercado. No entanto, o consenso foi de que ainda faltam mecanismos eficazes de coordenação, articulação estratégica e inteligência sistêmica que permitam ao país transformar conhecimento em vantagem competitiva. Também foi discutido o papel estratégico do Brasil em setores como bioeconomia e transição energética, diante de suas reservas minerais e potencial de energia limpa – oportunidades que ainda carecem de um plano industrial robusto e integrado.

Criando narrativas de inovação

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

A aula, que foi conduzida por Nicolás Rebolledo, designer estratégico com ampla atuação internacional, trouxe uma abordagem centrada no papel das narrativas e da cocriação como motores da inovação no setor público. Com base em duas décadas de experiência à frente de projetos em mais de 18 países e instituições como o Royal College of Art, o MIT GovLab e a UNIT – consultoria de inovação colaborativa e design estratégico de serviços que cofundou – Rebolledo apresentou diversas experiências de transformação em serviços públicos, que demonstram como a construção de histórias envolventes e o engajamento de múltiplos atores são fundamentais para legitimar, proteger e ampliar o alcance das inovações na gestão pública.

Segundo Rebolledo, a inovação pública deve ser entendida como um processo colaborativo, que exige não apenas tecnologia, mas também mudanças culturais e organizacionais profundas. Ele propôs o conceito de “capacidades dinâmicas”, referindo-se à habilidade das equipes públicas de se adaptarem continuamente a novos contextos e desafios. “A transformação não vem só de ideias novas, mas da capacidade de mudar rotinas, experimentar e conectar diferentes atores em torno de um mesmo propósito”, afirmou. Nesse sentido, criar rotinas de aprendizagem, fomentar redes de apoio entre pares e incorporar métodos para gerar evidências são elementos centrais para sustentar processos de mudança duradouros.

Rebolledo ressaltou que, enquanto a política se expressa por dados e relatórios, a sociedade se conecta por imagens e emoções. Para ele, traduzir objetivos técnicos em narrativas empáticas é essencial para engajar e legitimar a ação pública. Ao defender a inovação como processo colaborativo e focado nas pessoas, afirmou: “O ser humano deve sempre estar no centro dos processos – não como destinatário passivo, mas como protagonista da mudança”.

Crédito da Imagem: Acervo Comunitas

Reflexões sobre os principais aprendizados da formação até o momento

Na última sessão do dia, conduzida pelo cientista político Fernando Schuler, os participantes foram divididos em grupos temáticos para discutir os principais desafios e aprendizados sobre inovação e modernização da gestão pública. A dinâmica teve como objetivo estimular reflexões práticas a partir das experiências e perspectivas dos próprios participantes, explorando questões estruturais sobre a administração pública brasileira. Quatro temas nortearam os debates: inovação no setor público, parcerias entre setores, gestão de pessoas e o futuro digital dos governos.

No grupo sobre inovação, discutiu-se a persistente aversão ao risco no setor público, muitas vezes alimentada pela insegurança jurídica e pela interpretação restritiva de normas, como o conceito de “erro grosseiro”. Ainda assim, os participantes reconheceram avanços importantes, como a criação de ambientes institucionais mais propensos à experimentação e ao uso de tecnologias. Foram mencionados ecossistemas de inovação já em funcionamento, como o Porto Digital e a CATI em Santa Catarina, além de exemplos locais impulsionados por parcerias com organizações como a Comunitas.

No debate sobre as parcerias entre os setores público e privado, os participantes refletiram sobre o papel do Estado como regulador e contratante, destacando os riscos da hipertrofia regulatória, que pode desestimular a participação da iniciativa privada. Foi consenso que uma regulação excessivamente complexa e rígida tende a afastar parceiros estratégicos, enquanto modelos regulatórios modernos, ágeis e ajustados às realidades locais favorecem melhores resultados. Também se ressaltou a importância de mecanismos de avaliação, promoção de uma competição saudável e definição clara dos papéis entre os atores públicos e privados.

Por fim, os grupos sobre gestão de pessoas e digitalização do Estado apontaram para desafios comuns de qualificação, avaliação de desempenho e estruturação de carreiras mais flexíveis e orientadas por resultados. A lógica atual de vínculos únicos e estabilidade excessiva foi vista como um entrave à melhoria do serviço público. Em relação à transformação digital, discutiu-se a transição para modelos de governo em plataforma, com ênfase na importância de garantir que a tecnologia esteja a serviço das pessoas, respeitando particularidades de contextos locais e assegurando equidade no acesso e no desenho dos serviços públicos.

Não perca as próximas matérias! Fique por dentro das discussões e descobertas dos últimos dias da nossa imersão em Cambridge.

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