Encontro de inovação da Comunitas reafirma o papel dos municípios na transformação digital do país
Evento reuniu gestores públicos que estão liderando os processos de inovação em seus territórios, ancorados em cocriação, governança robusta e uma nova relação com o erro

Na manhã de hoje (26), a Comunitas realizou o Encontro de Inovação para Gestores Públicos, reunindo lideranças estaduais e municipais, especialistas e gestores públicos para debater caminhos práticos para fortalecer a inovação governamental no Brasil, com foco em cultura, governança, tecnologia e colaboração entre entes federados.
Com uma programação baseada na troca de experiências, o encontro salientou que a inovação vai muito além da tecnologia e trata-se de uma mudança de cultura, de processos e, sobretudo, de pessoas. Lideranças de estados como Piauí, Mato Grosso e São Paulo, bem como de cidades como Recife e Porto Alegre, compartilharam cases reais de transformação digital, governança e resiliência, mostrando que é possível fazer diferente mesmo em contextos de restrição orçamentária e complexidade institucional.
Um dos destaques do encontro foi a constatação de que, para que o serviço público avance, é fundamental revisitar modelos ultrapassados e abraçar o risco do novo. A inovação, longe de ser apenas uma questão tecnológica, exige coragem institucional para engajar a base de servidores e, fundamentalmente, promover a colaboração entre diferentes esferas da administração.
Para aprofundar o debate e inspirar novos caminhos, o evento contou com a participação do Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, Vahan Agopyan; do Secretário de Inteligência Artificial, Economia Digital, Tecnologia e Inovação do Piauí, André Macedo; do Secretário Adjunto de Planejamento e Governo Digital do Mato Grosso, Sandro Luís Brandão; do Secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade e Coordenador-Geral do Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática de Porto Alegre, Germano Bremm; e da Secretária Executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação da Prefeitura do Recife, Viviane Kawashima.
Também estiveram presentes o Secretário Extraordinário de Transformação do Estado do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI), Francisco Gaetani; e a Diretora do Departamento de Inovação Governamental do MGI, Cláudia da Costa Martinelli.
Capacitação técnica em entes subnacionais
Em uma fala inspiradora, Francisco Gaetani diz que o Brasil vive um momento aparente de estagnação e desconfiança generalizada – reflexo de um cenário global de incertezas -, ele enxerga movimentos positivos em curso, muitas vezes fora dos holofotes.
Ele ressaltou que o país precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre responsabilidade e ousadia: investir em inovação e profissionalização do Estado sem perder de vista os avanços em direitos e a necessidade de adaptação constante aos novos desafios. Gaetani também ampliou o entendimento de inovação para além das estruturas formais do governo. Para ele, a verdadeira transformação nasce das pessoas, das instituições e das comunidades que buscam aprimorar seu trabalho e o ambiente ao seu redor. “Quando penso em inovação, não penso apenas em cargos ou ministérios”, afirmou.
Quando penso em inovação, não penso apenas em cargos ou ministérios
Francisco GaetaniO especialista ressaltou que as mudanças mais significativas estão ocorrendo nos territórios, especialmente em âmbito municipal. É no dia a dia das cidades, na entrega de serviços à população, que o “governo do futuro” se materializa. “Cada vez mais o governo se torna subnacional”, observou, dependendo da capacidade de estados e municípios para inovar.
Inovar no Brasil, segundo ele, é um desafio complexo, onde “o esperado nem sempre acontece, e o ilegal nem sempre impede ações transformadoras”. Ainda assim, há espaço para experimentação e novas soluções, criadas tanto pelo Estado quanto pela sociedade civil.
Gaetani finalizou reforçando a necessidade de perceber, apoiar e integrar essas iniciativas inovadoras que pulsam em todas as regiões do país, carregando consigo a confiança de que o Brasil segue em movimento, construindo seu futuro a partir de suas bases.
Na prática
Ao longo do encontro, os participantes apresentaram iniciativas pioneiras e experiências de destaque em inovação governamental, que exemplificam a aplicação de novas tecnologias e metodologias colaborativas na solução de desafios públicos. Entre os casos apresentados podem-se destacar o Programa de Apoio Tecnológico aos Municípios (PATEM), do Estado de São Paulo; o projeto SoberanIA, do Piauí; o Portal da Reconstrução e Adaptação Climática, de Porto Alegre (RS); e ações de modernização e transformação digital implementadas em territórios como Mato Grosso e Recife.
São Paulo
Vahan Agopyan abriu sua participação resgatando o papel histórico de São Paulo como polo de produção científica e institucional no país. Ele ressaltou que o Estado mantém indicadores de impacto científico acima da média mundial, resultado de décadas de autonomia universitária, ambiente acadêmico sólido e tradição de pesquisa.
Apesar desse protagonismo, ele apontou uma discrepância que tem gerado grande inquietação entre gestores e comunidade científica: a dificuldade de transformar conhecimento em inovação aplicada à vida das pessoas. O Estado concentra empreendedores, centros de pesquisa, investimentos públicos expressivos e programas de fomento robustos – incluindo recursos não reembolsáveis da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e linhas de crédito adaptadas à realidade de startups. Ainda assim, o volume de inovação efetiva permanece aquém do potencial existente.
Diante disso, São Paulo passou a estruturar um modelo que aproxima diretamente problemas públicos de soluções científicas. O governo tem incentivado secretarias – e agora também prefeituras – a formular desafios estruturais de médio e longo prazo, que são transformados em chamadas públicas da Fapesp. A partir delas, surgiram mais de 87 Centros de Pesquisa para Desenvolvimento, envolvendo múltiplas áreas governamentais e universidades na coprodução de conhecimento aplicado.
O eixo comum dessa estratégia é reforçar que inovação não é mero detalhe, mas ferramenta concreta de gestão pública. Vahan sintetizou essa visão ao afirmar que “com ciência, tecnologia e inovação, é possível resolver problemas reais e melhorar a gestão”, destacando que o objetivo é criar uma cultura em que gestores reconheçam o valor do uso qualificado do conhecimento para enfrentar desafios complexos do Estado contemporâneo.
Piauí

André Macedo apresentou uma visão de transformação digital orientada por dados, inteligência artificial e forte liderança política. Segundo ele, o atual governo colocou a inovação no centro da agenda desde o primeiro dia, criando estruturas de governança capazes de acelerar decisões e integrar diferentes áreas. A criação do Conselho de Transformação Digital, presidido pelo próprio governador, marcou o início dessa estratégia e garantiu alinhamento institucional em todas as compras e iniciativas de tecnologia.
Esse arranjo permitiu ao Piauí promover, em pouco mais de dois anos, uma mudança estrutural que levou o Estado da 13ª para a 1ª posição no ranking nacional de governo digital. O avanço se materializa em iniciativas concretas, como um robusto programa de telemedicina – que já ultrapassou 1 milhão de consultas e oferece atendimento em dez especialidades diretamente pelo smartphone – e a liderança nacional na emissão da nova carteira de identidade digital, alcançando 45% da população.
A modernização também se estendeu à segurança pública, com um sistema de combate ao roubo de celulares que reduziu o crime em 57%, e à carreira tecnológica do Estado, que passou a contar com mais de 50 especialistas aprovados por concurso. Na educação, o Piauí se tornou a primeira unidade da federação a adotar Inteligência Artificial como disciplina obrigatória em todas as escolas de tempo integral, antecipando competências essenciais para o futuro.
O eixo central dessa transformação é a criação da SoberanIA, a primeira inteligência artificial pública brasileira construída a partir de dados estatais. André destacou que “o Brasil precisa de uma IA que compreenda nossa língua, nossa cultura, nossos contextos”, explicando o que motivou o projeto. A tecnologia já está presente em produtos utilizados pela população, como o sistema capaz de registrar boletins de ocorrência por voz via WhatsApp, interpretando sotaques e expressões regionais – um exemplo de como a IA pode incorporar as “brasilidades” ao atendimento público.
Para ele, a ideia que orienta todo esse movimento é simples e direta: construir um governo conversacional, onde qualquer cidadão possa interagir com o Estado de forma rápida, humana e inteligível.
Saiba mais: Chico Lucas detalha estratégia do Piauí para reduzir roubos de celulares e violência
Mato Grosso

Sandro Brandão apresentou um diagnóstico do ponto de partida do Estado, explicando que havia recursos, tecnologia disponível e liderança comprometida, mas os resultados estavam muito aquém do potencial. Para ele, a raiz do problema não era técnica, mas cultural – uma percepção que se tornou central na estratégia de transformação. A partir dessa constatação, o Estado redefiniu seu foco e colocou o servidor público no centro da agenda de inovação, reconhecendo que nenhuma política se sustenta sem engajamento e protagonismo da força de trabalho.
Nesse contexto, o Mato Grosso estruturou o Sistema Central de Inovação em Práticas Públicas, composto por quatro iniciativas complementares. O Inova-Movimento funciona como uma mobilização massiva voltada a desmistificar a inovação e aproximá-la da rotina dos servidores, mostrando que ela não depende exclusivamente de ferramentas sofisticadas.
O Ideaton foi criado para captar ideias de servidores que tradicionalmente não ocupam posições de visibilidade, ampliando a participação e diversificando perspectivas. Já o Acelera se consolidou como a primeira aceleradora de “startups públicas” do Estado, apoiando servidores na construção de Produto Mínimo Viável (MVPs, da sigla em inglês) e no desenvolvimento de soluções com impacto imediato. Por fim, o Prêmio de Eficiência e Inovação reconhece práticas relevantes com incentivos robustos, reforçando a lógica de valorização e mérito.
Os resultados já demonstram a força dessa abordagem. Mais de 14 mil servidores foram mobilizados, 795 práticas inovadoras foram catalogadas, e o Estado registrou uma economia de R$ 550 milhões apenas na categoria relacionada à redução de custos. Para Sandro, esses números comprovam que a inovação pública nasce muito mais de uma mudança de mentalidade do que da adoção de novas tecnologias. “O mais importante na transformação digital não é o digital. É a transformação”, destacou ele.
O mais importante na transformação digital não é o digital. É a transformação
Sandro BrandãoPorto Alegre

Germano Bremm contextualizou a dimensão das enchentes que atingiram a capital gaúcha no ano passado. O município enfrentou um evento climático extremo que impactou profundamente o território, a população e a estrutura pública. Os números dão a dimensão do choque: 30% da área urbana foi afetada; 160 mil pessoas ficaram desalojadas; 309 equipamentos públicos foram danificados; o prejuízo público alcançou R$ 12 bilhões; o setor privado acumula perdas de R$ 3 bilhões mensais; e cerca de 45 mil empresas foram impactadas.
Diante desse cenário, Porto Alegre precisou transformar emergência em capacidade de Estado. Com apoio da Comunitas, o município criou o Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática, responsável por coordenar respostas de curto, médio e longo prazo, além de articular ações de prevenção para eventos futuros. Uma das entregas mais estratégicas foi o Portal de Reconstrução, uma plataforma georreferenciada que reúne informação detalhada sobre danos, obras, contratos e prioridades, garantindo transparência e permitindo que a população acompanhe cada etapa da retomada.
Para ele, essa arquitetura institucional foi fundamental para dar previsibilidade e organizar expectativas diante de um desafio de escala inédita. Germano defendeu que, “sem isso, seríamos cobrados para recuperar tudo em um tempo humanamente impossível”.
Recife

Encerrando as apresentações de boas práticas, Viviane Kawashima relatou a experiência de transformação digital pela qual o Recife passou, ancorada em cultura, propósito e colaboração. Ela relembrou que o processo começou de forma quase artesanal, com uma equipe pequena, mas engajada. Desde então, a capital pernambucana se tornou referência nacional em governo digital, com iniciativas como o Conecta Recife, o GoRecife e o maior case de interação governamental via WhatsApp em parceria com a Meta.
O destaque de sua fala, porém, foi o EITA Recife, programa de inovação aberta que visa criar um ambiente propício para realizar conexões capazes de implementar soluções inovadoras. “O EITA não nasce da moda da inovação, mas dos problemas reais da cidade”. A iniciativa se baseia em um processo de escuta e formulação de desafios: criação do Banco de “BOs” onde as secretarias registram suas dores; oficinas aprofundadas para transformar problemas amplos em desafios públicos claros; hackathons integrados ao ciclo de inovação; e um forte elo com universidades, permitindo que estudantes e professores trabalhem sobre dados e problemas do município.
Além disso, o programa inclui um sandbox regulatório para testar soluções em ambientes controlados e conta com o financiamento de protótipos funcionais – os MVPs – pela Empresa Municipal de Informática (Emprel), garantindo que ideias promissoras avancem rapidamente para experimentação prática.
Um dos avanços mais importantes, segundo ela, aconteceu na saúde, com a solução desenvolvida para reduzir o absenteísmo em exames: um chatbot no WhatsApp que confirma consultas, remarca automaticamente quando necessário e avalia o risco de falta. A abordagem, construída em parceria com as equipes que vivenciam o problema no dia a dia, reduziu drasticamente o absenteísmo e ilustra bem o propósito da iniciativa.
Hoje, diversas soluções do EITA já foram adotadas por outras cidades, demonstrando a capacidade do Recife de transformar colaboração, método e inovação aberta em impacto concreto para a população.
Síntese
Cláudia da Costa Martinelli apresentou uma síntese dos projetos apresentados, destacando que a inovação em si não está ancorada na incorporação de tecnologias, mas na refundação cultural que reposiciona cidadãos e servidores como protagonistas das políticas públicas. A inovação deixa de ser um recurso instrumental e passa a operar como um novo paradigma de Estado – uma lógica que reorganiza prioridades, relações e modos de produzir valor público.
Esse deslocamento foi ilustrado na argumentação de Viviane Kawashima, ao enfatizar que inovar não significa entregar soluções acabadas, mas instaurar ciclos contínuos de cocriação. Nessa perspectiva, a inteligência técnica se integra à inteligência coletiva, e elementos como linguagem cotidiana, experiências locais e necessidades concretas se tornam insumos metodológicos centrais. Rompe-se, assim, com a lógica vertical de ‘órgão que entrega serviços’ e adota-se a lógica horizontal de ‘problemas complexos enfrentados com quem os vivencia’. A inovação, portanto, é menos um laboratório e mais um ecossistema vivo, sustentado por escuta, iteração e diálogo.
Complementarmente, despontou a ideia de que a inovação pública precisa evoluir de iniciativas fragmentadas para uma arquitetura institucional estável. As intervenções de Vahan Agopyan e Sandro Brandão revelaram um momento de virada para o setor: projetos inovadores, por mais exitosos, não transformam sistemas se não forem ancorados em estruturas permanentes. Inovar passa a exigir carreiras especializadas, governanças transversais, mecanismos internos de intraempreendedorismo e, sobretudo, a transição de planos de governo para planos de Estado. A tecnologia importa, mas o desenho institucional é o que determina sua perenidade.
Ao final, o encontro reafirmou que a inovação pública é, sobretudo, um compromisso permanente com o aprendizado institucional e com a construção de um Estado capaz de imaginar e produzir futuros possíveis junto com a sociedade que serve.
Veja aqui o encontro na íntegra!https://www.youtube.com/watch?v=3t90RZrvXlQ
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