Os desafios e oportunidades da contratualização na educação: caminhos para ampliar parcerias e fortalecer a gestão pública
Para que as parcerias público-privadas na educação alcancem seu potencial, é essencial alinhar interesses, garantir transparência e superar barreiras culturais e políticas
As parcerias entre governos e entidades privadas estão ganhando cada vez mais importância no cenário nacional, sendo vistas como uma solução viável para os desafios enfrentados pela gestão pública. Essa tendência ganha ainda mais relevância quando são observados os resultados práticos alcançados em setores como a educação, que lidera o ranking de áreas mais contratualizadas no país, com 37,71% das experiências mapeadas, segundo a publicação Mapa da Contratualização.
De acordo com o material, que é uma iniciativa liderada pela Comunitas com o objetivo de democratizar o conhecimento sobre a contratualização de serviços públicos no Brasil, dos mais de 7 mil contratos analisados, 2.502 são relacionados à educação. Esse número reflete a importância da educação no orçamento público brasileiro, conforme previsto na Constituição Federal, e a prioridade dada a projetos educacionais em todo o país.
Entretanto, ainda de acordo com o Mapa, a ocorrência de contratualizações na educação varia significativamente entre as regiões do Brasil devido a fatores como políticas públicas, demanda por serviços, recursos disponíveis e aceitação cultural. Enquanto as regiões Sudeste e Sul apresentam maior tradição nesse modelo, impulsionadas por políticas mais avançadas e melhor estrutura administrativa, Norte e Nordeste enfrentam desafios que limitam a adoção desses modelos
Confira os dados sobre essa prática na educação, conforme mapeado pelo Mapa da Contratualização:

Desafios da contratualização na educação

Crédito da Imagem: TRT13
Apesar da relevância da contratualização na educação, conforme retratado pelo Mapa da Contratualização, sua implementação enfrenta uma série de desafios, que vão desde entraves jurídicos até resistências culturais e políticas. Diante disso, é fundamental ampliar o debate sobre o tema, garantindo que as parcerias sejam conduzidas com transparência, planejamento e eficiência.
Um dos principais obstáculos é a judicialização excessiva, fenômeno recorrente no país. Com frequência, o Judiciário é acionado para intervir em processos de contratação pública, concedendo liminares sem uma análise aprofundada do mérito. Essa prática gera insegurança jurídica tanto para os parceiros privados quanto para o Poder Público, atrasando ou até mesmo impedindo a execução de projetos, o que compromete diretamente os cidadãos, que são os principais beneficiários dessas iniciativas.
Além da judicialização, há uma barreira conceitual que dificulta a aceitação dessas parcerias: a confusão entre contratualização e privatização. Muitos atores críticos, como sindicatos e entidades de classe, argumentam que esse modelo compromete o controle estatal sobre atividades essenciais. No entanto, as contratualizações mantêm os serviços sob fiscalização pública e sem cobrança de tarifas aos usuários. Essa distorção alimenta uma resistência política e social que se traduz, muitas vezes, em tentativas de barrar iniciativas mesmo quando há comprovação técnica e legal de sua viabilidade.
A oposição a esses projetos também se manifesta por meio de grupos organizados. Um exemplo recente foi a licitação de PPP que o governo de São Paulo abriu para a construção, manutenção e gestão de serviços não pedagógicos em 33 escolas estaduais. O Sindicato dos Professores (Apeoesp) ajuizou uma ação civil pública para suspender o processo, alegando ameaça à gestão democrática e à participação da comunidade escolar. Casos como esse demonstram como a resistência, por vezes motivada por desinformação ou interesses específicos, pode atrasar ou inviabilizar projetos essenciais para a melhoria da infraestrutura e do funcionamento da rede pública de ensino.
Além dos aspectos jurídicos e políticos, a própria estrutura dos processos de contratualização é bastante desafiadora. A implementação de parcerias exige um planejamento detalhado, que envolve estudos técnicos, audiências públicas e consultas à sociedade. Embora fundamentais para garantir transparência e legitimidade aos processos, esses procedimentos podem ser percebidos como entraves burocráticos que retardam a execução dos projetos.
Outro ponto crítico é a necessidade de alinhar interesses públicos e privados de forma eficiente. Esse equilíbrio exige uma modelagem contratual cuidadosa, o que demanda tempo e expertise técnica – recursos que muitas administrações nem sempre possuem. Sem esse preparo adequado, os projetos podem enfrentar dificuldades tanto na fase de licitação quanto na execução dos contratos.
Por fim, mesmo quando as parcerias são implementadas, a fiscalização e o monitoramento contínuos são essenciais para garantir a qualidade dos serviços prestados. Frequentemente, os contratos incluem indicadores de desempenho e mecanismos de controle, mas a falta de recursos e de expertise técnica na administração pública pode comprometer a eficácia dessas medidas. Sem um acompanhamento adequado, há o risco de que os serviços oferecidos pelo parceiro privado não alcancem os padrões de qualidade esperados, o que reforça a necessidade de fortalecer as capacidades institucionais para gestão e supervisão das contratualizações.
Fontes: PPP na Educação: Desafios e Projeções e Avaliação de impacto das parcerias público privadas para educação: Um estudo de caso para escolas de Belo Horizonte
Um caminho para o futuro
As parcerias público-privadas de impacto social trazem uma série de benefícios para a administração pública, promovendo a descentralização dos processos e reduzindo a burocracia. Isso permite que o governo concentre seus esforços em atividades mais estratégicas, como fiscalização e regulação, enquanto entidades especializadas assumem a execução de serviços.
Essas parcerias possibilitam maior inovação e flexibilidade, já que organizações não governamentais podem implementar soluções mais adaptadas às demandas da população de forma ágil e eficiente. Além disso, a especialização dessas entidades garante uma gestão mais qualificada, e a competição entre elas estimula a busca pela excelência nos serviços prestados. Por fim, a contratualização contribui para a redução de custos, otimizando recursos e diminuindo despesas operacionais, o que resulta em economia para o Estado.

Alunos usando computador em aula. Crédito da Imagem: Proatitude Educacional
Apesar desses benefícios, a resistência a esse modelo tem dificultado sua ampla implementação, retardando avanços importantes no setor educacional. Estruturas rígidas e desatualizadas, por exemplo, dificultam a adaptação das redes de ensino às novas demandas da sociedade.
Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e exigências cada vez mais complexas, a flexibilidade proporcionada pela contratualização pode ser uma aliada valiosa para impulsionar a inovação pedagógica e ampliar o acesso à educação de qualidade. Sem mecanismos que facilitem essa modernização, desafios recorrentes, como a falta de infraestrutura adequada e a defasagem na formação de professores, tendem a se perpetuar, prejudicando o desenvolvimento educacional.
Para superar essa resistência, é essencial esclarecer à sociedade como a contratualização pode ser conduzida de forma responsável, garantindo padrões de qualidade, mecanismos eficazes de fiscalização e a manutenção do caráter público da educação. É importante destacar que a contratualização não substitui o papel do Estado, mas o complementa, aprimorando a gestão e fortalecendo o ensino.
Experiências bem-sucedidas de contratualização na educação
Apesar dos desafios, o Brasil acumula experiências bem-sucedidas que evidenciam o potencial transformador das contratualizações. Quando bem estruturadas, essas iniciativas não apenas aprimoram a infraestrutura e a gestão escolar, mas também fortalecem a eficiência e a qualidade do ensino público, servindo de referência para novos projetos.
Um exemplo é o Projeto Somar, em Minas Gerais, que visa melhorar a qualidade da educação pública por meio de parcerias público-privadas (PPPs). Implementado como piloto em três escolas estaduais de ensino médio, o projeto impactou mais de 2 mil estudantes e contribuiu com avanços significativos em diversos indicadores.

Alunos de unidades escolares do Projeto Somar em aula de laboratório de ciências. Crédito da Imagem: Governo do Estado de Minas Gerais
Na Escola Estadual Coronel Adelino Castelo Branco, em Sabará, a taxa de aprovação subiu de 62% para 93%, e a frequência aumentou de 95% para 98%. Em Belo Horizonte, a Escola Estadual Francisco Menezes Filho registrou um aumento na aprovação de 86,9% para 95,4%, enquanto a participação da comunidade escolar subiu de 23% para 34%.
Outro caso de sucesso é o Aldeia Lumiar, em Porto Alegre (RS), que foi implementado em 2019 pela Secretaria Municipal de Educação (SMED) em parceria com o Instituto Lumiar. A parceria trouxe a inovadora metodologia Lumiar para a educação pública, visando superar o baixo desempenho escolar na educação infantil. Reconhecida pela UNESCO, a metodologia coloca o aluno no centro do aprendizado, com 90% das atividades baseadas em projetos e acompanhamento personalizado por tutores.
Após 2 anos de sua implementação mais ampla, uma avaliação externa em 2023 mostrou que a Aldeia Lumiar equiparou-se ao desempenho de escolas privadas da rede Lumiar, especialmente em Língua Portuguesa, consolidando-se como um modelo replicável e bem-sucedido de parceria público-privada na educação.
Acompanhe as novidades da Comunitas em primeira mão! Assine a nossa Newsletter agora mesmo!
Deixe seu comentário!