Potencial estratégico do investimento social ainda é subutilizado pelas empresas, defende Patricia Loyola
Em entrevista, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas analisa os avanços e desafios na integração entre impacto social e estratégia empresarial

A aproximação entre investimento social corporativo (ISC) e estratégia de negócios tem ganhado força no Brasil, mas ainda enfrenta desafios importantes. Esse é um dos principais achados da nova pesquisa do BISC, que investiga as conexões e fronteiras entre o investimento social e os negócios.
Saiba mais: Novo estudo do BISC se aprofunda nas conexões e limites entre o ISC e os negócios
Embora essa integração esteja avançando, os benefícios percebidos pelas empresas ainda se baseiam em percepções e muito concentrado em aspectos reputacionais e de relacionamento. “Fortalecimento da imagem e das relações com comunidades e stakeholders relevantes são drivers de negócios que sentem mais diretamente os efeitos do investimento social, por estarem mais ligados à responsabilidade corporativa”, explica Patricia Loyola, diretora de Gestão e Investimento Social da Comunitas.
A dificuldade de mensurar retornos financeiros mais objetivos também contribui para esse cenário. Ainda são raros os casos que conseguem calcular, de forma estruturada, o retorno do investimento social sobre o negócio. “Os dados que coletamos dizem mais respeito a percepções do que a métricas objetivas de retorno”, afirma Loyola.

Um potencial ainda pouco explorado
Se, por um lado, as percepções captadas pela pesquisa refletem aspectos reais, por outro, elas também revelam um potencial ainda subaproveitado na conexão entre investimento social e negócios. Isso porque o ISC pode gerar valor em dimensões estratégicas que vão muito além da reputação.
“O investimento social oferece expertises únicas à empresa e pode contribuir de modo decisivo em temas como mitigação de riscos, inovação e estabilização de cadeias produtivas”, destaca Loyola. Em um contexto de policrises e desafios interconectados, essa capacidade de leitura e atuação sobre questões sociais se torna cada vez mais relevante para a tomada de decisão.
Na prática, isso significa que o ISC pode contribuir tanto para decisões de longo prazo quanto para desafios operacionais mais imediatos. Questões como escolaridade, inclusão produtiva e capacitação profissional, por exemplo, impactam diretamente o ambiente de negócios e podem ser enfrentadas a partir de iniciativas sociais estruturadas, ampliando a conexão entre impacto social e estratégia empresarial.
Leia também: Integração entre investimento social e negócio avança e impõe novos desafios, afirma nova pesquisa do BISC
O papel da liderança na integração entre impacto e negócio
Outro ponto central para avançar nessa agenda é o papel da liderança. A pesquisa mostra que, em muitos casos, o investimento social ainda está mais associado a áreas operacionais do que às instâncias mais estratégicas de decisão, como conselhos e alta gestão – o que tende a limitar seu potencial de contribuição para o negócio.
“A conexão entre ISC e alta liderança empresarial é hoje um dos temas de fronteira mais relevantes do setor”, afirma Loyola. Segundo ela, experiências históricas mais robustas de investimento social estiveram frequentemente associadas ao envolvimento direto de fundadores e lideranças – um fator que pode se enfraquecer em contexto de sucessão geracional e profissionalização de instâncias de tomada de decisão.
Fortalecer essa conexão passa, portanto, por institucionalizar o investimento social dentro das estruturas de governança e ampliar seu reconhecimento como uma alavanca estratégica para as empresas.

Caminhos para ampliar o protagonismo do ISC
Diante desse cenário, o estudo aponta caminhos para fortalecer a integração entre investimento social e negócio, sem perder de vista sua missão principal de gerar impacto positivo para a sociedade.
No curto prazo, um dos principais desafios está no engajamento interno. “É fundamental que lideranças e colaboradores reconheçam o investimento social como uma estrutura pertencente ao negócio, e não como uma iniciativa paralela”, afirma Loyola.
Outro ponto importante é o letramento organizacional. Compreender as dinâmicas do investimento social e do terceiro setor – que operam em tempos e lógicas distintas das áreas corporativas – é essencial para viabilizar parcerias mais consistentes dentro das empresas.
Por fim, o alinhamento orçamentário aparece como elemento-chave para sustentar esse movimento. À medida que o ISC ganha complexidade e passa a dialogar mais diretamente com a estratégia empresarial, é necessário garantir que os recursos destinados a ele acompanhem esse novo papel.
“Qualquer movimento nessa direção precisa partir do pressuposto de que o investimento social existe para gerar impacto social positivo. O desafio é justamente ampliar sua contribuição para o negócio sem perder esse propósito central”, conclui Loyola.
Deixe seu comentário!