Penúltimo dia de formação destaca tecnologia pública e regulação digital
De finanças à mobilidade urbana, a programação do dia contou com a apresentação de experiências globais que conectam tecnologia, governança e inovação

O quarto dia do programa de Formação Internacional, realizado hoje (31), teve como foco o aprofundamento de temas fundamentais para a transformação digital no setor público, como inovação regulatória, finanças públicas e inclusão digital. A iniciativa, que é fruto da parceria entre a Comunitas e instituições de excelência global, avança agora para Londres, após intensa programação na Universidade de Cambridge.
A nova etapa da formação se dedica à análise de casos práticos e tendências internacionais que podem inspirar políticas públicas mais eficazes, inclusivas e conectadas à realidade brasileira. O dia começou com uma apresentação sobre soluções digitais aplicadas às finanças públicas, trazendo experiências de diferentes países na adoção de pagamentos digitais e no uso de dados para melhorar a gestão.
Na sequência, os participantes visitaram o Lloyd’s Lab, um dos laboratórios de inovação do setor de seguros mais reconhecidos no mundo. O espaço atua como acelerador de startups que desenvolvem soluções para riscos complexos, como mudanças climáticas e segurança cibernética, e já impulsionou projetos que, juntos, levantaram mais de £1,3 bilhão em investimentos, com 97% das startups aceleradas ainda ativas no mercado. A agenda em Londres também incluiu uma visita ao Transport for London (TFL), onde foram apresentadas as estratégias adotadas para promover eficiência, inclusão e segurança no sistema de mobilidade urbana por meio de pagamentos digitais e integração tecnológica.
O dia se encerrou com um painel na London School of Economics (LSE) sobre inovação regulatória e resiliência institucional. A conversa abordou como políticas públicas podem criar ambientes favoráveis à inovação sem abrir mão da segurança e da transparência.
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A aula, conduzida por Robert Walls, Vice-presidente e Chefe de Produtos e Soluções Digitais da Visa Government Solutions, trouxe reflexões estratégicas sobre o papel das soluções digitais na transformação da gestão pública e na promoção da inclusão social.
A partir de experiências internacionais, foram apresentados casos em que governos vêm modernizando seus sistemas de pagamento, arrecadação e distribuição de benefícios por meio do uso de carteiras digitais, dados e infraestrutura tecnológica integrada. Nesse contexto, a tecnologia se mostra como uma aliada para acelerar processos, reduzir fraudes e ampliar o acesso a serviços públicos.
Experiências como a da Ucrânia, com a plataforma DIIA, mostraram como a identidade digital pode ser central no relacionamento entre Estado e cidadão, reunindo em um só ambiente documentos oficiais, serviços e até mesmo funcionalidades como casamentos e educação online. Já na Grécia, a digitalização dos benefícios sociais também trouxe ganhos significativos de controle e redução da informalidade. No caso brasileiro, a Lei 14.133, que recomenda o uso de cartões para compras públicas de pequeno valor, já vem sendo implementada por diversas secretarias, promovendo mais transparência e eficiência nas transações.
“A tecnologia deve ser uma facilitadora para a criação de políticas públicas mais eficazes, personalizadas e com foco no cidadão”, destacou Robert Walls, reforçando a importância de soluções flexíveis e adaptadas às realidades locais. A Visa, segundo ele, atua como uma rede de tecnologia que conecta governos, emissores e cidadãos, promovendo segurança, agilidade e inteligência por meio dos dados.
Ao longo da discussão, também foi abordada a dimensão política e geopolítica da infraestrutura digital, destacando a importância de considerar os impactos sociais e institucionais das escolhas tecnológicas feitas pelos governos.
Visita de Campo: Lloyd’s Lab / Transport for London (TFL)

O dia também foi marcado pela visita de campo a dois marcos da inovação institucional em Londres: o Lloyd’s Lab, laboratório de aceleração do maior mercado de seguros do mundo, e o Transport for London (TFL), órgão responsável por toda infraestrutura de mobilidade urbana da capital britânica. Ambas as experiências ofereceram aprendizados relevantes sobre como inovação, tecnologia e governança se articulam para gerar soluções públicas mais eficientes, resilientes e centradas nas reais necessidades do cidadão.
No Lloyd’s Lab, os participantes conheceram de perto um dos hubs de inovação mais reconhecidos da Europa. Diferentemente de uma seguradora tradicional, o Lloyd’s opera como um marketplace que conecta agentes de risco a soluções especializadas – cobrindo desde lançamento de satélites até cibersegurança. Seu laboratório de inovação acolhe startups selecionadas em programas de aceleração com duração de 10 semanas, que têm como objetivo desenvolver produtos disruptivos para o setor. Mais de 200 empresas se inscrevem a cada rodada e a taxa de sucesso é expressiva, com mais de 97% das startups aceleradas ainda ativas com £1,3 bilhão em capital levantado.
“O Lloyd’s Lab é um espaço onde ideias ousadas podem ser testadas em colaboração com o mercado. Nosso papel não é criar ferramentas, mas construir o ecossistema necessário para que elas floresçam”, explicou o gestor responsável pela visita guiada. Um dos cases apresentados foi o de uma plataforma de análise de dados voltada ao setor público, desenvolvida por ex-alunos do programa e já em operação no Reino Unido, voltada à antecipação de riscos em cenários de mudanças climáticas e eventos extremos.

Já no TFL, a imersão trouxe uma visão de como a transformação digital pode reconfigurar a experiência urbana. O órgão é responsável por toda a malha de metrô, ônibus, trens e modais alternativos da cidade – como bicicletas compartilhadas – e tem investido fortemente na integração de sistemas e no uso de tecnologias de pagamento por aproximação. Desde 2012, não se utiliza mais dinheiro nos ônibus londrinos, e hoje mais de 60% das viagens sem dinheiro são feitas por meio de celulares ou smartwatches.
Durante a visita, os representantes do TFL destacaram que a proposta não era apenas reduzir custos, mas melhorar a jornada do usuário. “Ao entender as reais necessidades da população, conseguimos desenhar soluções que, ao mesmo tempo, aumentaram a inclusão e cortaram pela metade os custos operacionais”. A experiência mostrou como o planejamento integrado, o uso inteligente de dados e a comunicação transparente com a sociedade são pilares para tornar a mobilidade urbana mais acessível e sustentável.
Além da modernização tecnológica, chamou atenção o modelo de financiamento adotado. O TFL é autossuficiente para custos operacionais, sem subsídios governamentais diretos, e opera com base na receita dos bilhetes e em financiamentos voltados a projetos estruturais. Políticas como o incentivo ao transporte público em detrimento do carro individual, por meio de taxas de circulação e estímulos ao uso do transporte coletivo, reforçam a estratégia de sustentabilidade urbana e inclusão social adotada pela cidade.
Inovação e regulação para uma era de resiliência: abordagens do governo e da indústria

O painel teve como tema inovação e regulação em contextos de crescente complexidade e transformação tecnológica. O encontro foi conduzido por quatro especialistas de destaque: Tanya Filer, PhD, fundadora e CEO da plataforma de pesquisa e estratégia StateUp; Steve Unger, PhD, ex-diretor da Ofcom e referência em políticas de comunicação digital; Simon Baugh, Diretor Executivo do Government Communication Service (GCS) do Reino Unido; e Rosie Denée, Chefe de Inovação e Engajamento Comercial no Lloyd’s of London, onde lidera o laboratório de inovação do setor de seguros.
Abrindo a aula, Tanya Filer ressaltou que a transformação digital deve ser guiada por governança responsável e políticas públicas inclusivas, capazes de gerar confiança social em meio às rápidas transições tecnológicas e ambientais. Em seguida, Simon Baugh trouxe a experiência do governo britânico, mostrando que a inovação em políticas públicas depende mais das pessoas e da cultura institucional do que da tecnologia em si, destacando a importância de testar soluções em pequena escala e aprender com eventuais falhas. “A melhor forma de construir confiança é estar aberto sobre o que estamos fazendo. Mesmo quando erramos, mostramos que estamos comprometidos em melhorar”, afirmou.
Rosie Denée, por sua vez, trouxe a perspectiva do mercado segurador, ressaltando o papel do compartilhamento de riscos como motor da inovação. A partir da experiência do Lloyd’s Lab, ela mostrou como ambientes colaborativos entre reguladores, startups e grandes empresas têm gerado soluções transformadoras em áreas como riscos climáticos, cibernéticos e infraestrutura crítica. “Seguros são uma ferramenta essencial para viabilizar a inovação. Onde há confiança e cobertura adequada, há mais espaço para testar o novo”, explicou.
Fechando o painel, Steve Unger defendeu que a regulação deve ser um facilitador do progresso tecnológico, e não uma barreira. Com ampla experiência no setor público e privado, ele compartilhou exemplos históricos e atuais de como a regulação pode impulsionar a expansão de infraestrutura e o surgimento de novos mercados. “A inovação traz prosperidade e a regulação só será eficaz se tiver humildade para acompanhar esse processo, e não tentar controlá-lo completamente”, afirmou.
Acompanhe conosco o último dia da Formação Internacional e veja como experiências globais estão inspirando a inovação pública no Brasil.
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