loading

15º Encontro de Líderes debate as vantagens competitivas do Brasil na área de transição energética

Com os desafios da mudança climática e da guerra da Ucrânia, a discussão não é mais apenas sobre uma questão geopolítica, mas uma estratégia de sobrevivência e oportunidade de desenvolvimento econômico

A foto mostra duas pessoas, uma mulher e um homem, falando em cima de um palco. Ao fundo e do lado direito, conseguimos ver o logo da Comunitas

No palco, a diretora-presidente da Comunitas, Regina Esteves, e o presidente do conselho administrativo do Grupo Cosan, Rubens Ometto Silveira de Mello. Crédito da imagem: Acervo Comunitas

Oportunidade. Essa foi a palavra mais ouvida durante o 15º Encontro de Líderes da Comunitas, que debateu os desafios e oportunidades da economia verde e da transição energética no Brasil. O evento, que é realizado anualmente pela organização, aconteceu ontem (20) e teve o objetivo de discutir as soluções para os problemas da nação junto às principais lideranças públicas e privadas do país. 

Para enriquecer o debate, a Comunitas convidou os especialistas internacionais em transição energética e professores da Universidade de Columbia, Bruce Usher, Luisa Palácios, além do economista e José Scheinkman (sendo o último brasileiro radicado nos EUA), bem como o ex-Secretário Adjunto de Planejamento e Transição Energética do México, Leonardo Beltran. 

Também participaram do evento lideranças empresariais como o presidente do Grupo Cosan, Luis Henrique Guimarães, do presidente da Ultrapar, Marcos Lutz, da Diretora vice-presidente de Regulação, Institucional e Sustentabilidade da Neoenergia, Solange Ribeiro, do presidente do conselho administrativo do Grupo Cosan, Rubens Ometto Silveira de Mello, do CEO da Brookfield, Henrique Martins, do executive chairman da Brookfield, Luiz Ildefonso Simões Lopes, do presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira, e do membro do conselho de administração do Grupo Iguatemi, Carlos Jereissati. 

Representando o setor público, foram convidadas personalidades como os governadores Ronaldo Caiado (GO), Helder Barbalho (PA), Romeu Zema (MG) e Rodrigo Garcia (SP), além do prefeito de Recife (PE), João Campos. A apresentação do Encontro de Líderes ficou a cargo do jornalista e apresentador da CNN, Renan Fiúza. 

Na ocasião, a Comunitas também fez o lançamento da publicação que trata dos desafios e dos aprendizados da governança público-privada no enfrentamento da pandemia, além de narrar todo o processo de construção do Centro Multipropósito de Vacinas (CMPV), projeto desenvolvido em conjunto com 75 investidores, entre pessoas físicas e jurídicas, o governo do Estado de São Paulo e a organização. 

A reflexão feita tanto pelos palestrantes internacionais, quanto pelas lideranças presentes, é que o Brasil possui um enorme ativo competitivo no cenário de transição energética, que é a floresta Amazônica. Além disso, o país também lidera em matrizes de energia limpa e renovável, como é o caso da hidrelétrica, solar e de biocombustíveis – sendo o único país do mundo a ter desenvolvido essa tecnologia. 

A posição em que o Brasil se encontra é bastante invejável em um mercado que ainda não decolou no cenário global. Então, segundo os participantes, é papel das lideranças públicas e privadas debater a pauta com a sociedade para que o país consiga assumir a liderança no setor energético. Dessa forma, será possível suprir as necessidades do país, com uma energia mais limpa e barata – o que seria uma grande vantagem competitiva para a indústria, e ainda exportar para o mundo. 

Confira, a seguir, como foi o 15º Encontro de Líderes: 

Bruce Usher: “é preciso corrigir em 30 anos o que foi feito em 300”

O professor Usher iniciou sua palestra explicando que a primeira Revolução Industrial, embora tenha sido de extrema importância para a humanidade, também impactou diretamente o clima, elevando a temperatura do planeta. “É preciso corrigir em 30 anos o que foi feito em 300”, defendeu ele. 

Para isso, o professor Usher defende que é preciso mudar a narrativa de que a preocupação com o meio ambiente impede o desenvolvimento econômico do país. Além disso, ele também explicou que existem alguns motivos pelos quais esse é o melhor momento para investir nessa mudança.

O primeiro deles é o risco físico, o que coloca em xeque a continuação da vida na Terra caso a temperatura do planeta suba ainda mais. Outra razão se refere às mudanças das normas sociais. As pessoas querem trabalhar e consumir de empresas sustentáveis, além de votarem em candidatos que tenham uma preocupação com a crise climática. A última questão é sobre a existência de novas tecnologias em energia, que podem substituir muito bem os combustíveis fósseis. “Só a produção de veículos elétricos em escala global pode reduzir em 50% a emissão de gases do efeito estufa”, explicou ele. 

Seriam necessários cerca de US$ 125 trilhões para descarbonizar o mundo e o Brasil já tem algumas características importantes que o posicionam muito bem nessa corrida global, como ser o único país do mundo que tem a tecnologia para desenvolver biocombustíveis, a exemplo do etanol.

“O problema é muito complexo, tem várias bandeiras de alerta e o tempo é muito curto. Empresas precisam pressionar os governos e os governos precisam puxar as empresas. Não depende apenas de um lado. A gente precisa do governo e da sociedade unidos, com todos se apoiando nessa questão”.

Roda 1 – Desafios e oportunidades da transição energética na América Latina e no mundo

A primeira roda de conversa do evento contou com a participação dos speakers internacionais e especialistas em transição energética na América Latina, Luisa Palácios e Leonardo Beltran. Também participaram os presidentes do Grupo Cosan e da Ultrapar, Luis Henrique Guimarães e Marcos Lutz, respectivamente, e o prefeito do Recife (PE), João Campos. A mediação da mesa ficou a cargo do diretor executivo do Climate Policy Initiative Brasil e Professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Juliano Assunção.

No cenário global, a agenda climática tem ganhado muita tração nos fóruns internacionais  e tem imposto um novo olhar para a exploração de recursos naturais. Para o Brasil, esse é um movimento muito bem vindo, que pode ressaltar os atributos do país. A grande relevância do tema fez com que o setor financeiro também fizesse coro à pauta. 

Para Luisa Palácios, quando se fala das oportunidades e desafios da transição energética, a América Latina já está à frente do resto do mundo porque a matriz é 60% hidrelétrica – cenário que muitos outros países gostariam de ter. “A transição energética faz parte de um novo acordo mundial, em que o Estado tem o papel de promover essa discussão. Portanto, é necessário engajar governos, setor privado e sociedade para essa revolução”. 

Leonardo Beltran apontou o quanto o Brasil já está bem posicionado para consolidar a liderança na corrida global pela transição energética. De acordo com ele, o futuro não pode ser pensado se não for elétrico e, no setor elétrico, não tem como falar de energia se a mesma não for de matriz renovável. “Pelo tamanho e pelo capital natural do país, é natural que pensemos que o Brasil possa assumir a liderança na corrida de energia limpa”, declarou ele. 

Um ponto importante, abordado por Luis Henrique Guimarães, é que o posicionamento do Brasil com relação à energia verde é a grande oportunidade desta geração. Entretanto, ele defende que é necessário fazer o “rebranding” do Brasil no exterior para que o país possa ser reconhecido como celeiro do mundo e o país da energia renovável, e não mais como o país do futebol e do samba. 

Para Marcos Lutz, a discussão em torno da transição energética é uma questão geopolítica (em especial devido à guerra da Ucrânia, que tem impactado diretamente na distribuição de gás para alguns países da Europa). Entretanto, ele defende que é, também, uma questão de desenvolvimento socioeconômico. “O Brasil tem uma legislação ambiental bastante rígida, o problema é resolver a pobreza para resolver qualquer questão ambiental no país. Nós temos lições a aprender, como muitos outros países. Mas o Brasil já está muito à frente deles”.

A questão climática, embora seja um tema intangível para João Campos, é algo que tem trazido duras consequencias. No Recife, por exemplo, em apenas dois dias choveu cerca de 400 milímetros, uma quantidade não tão menor do que chove em um ano em Paris (cerca de 500 milímetros). Portanto, é preciso agilizar o processo de descarbonização do mundo, defende ele. 

A capital pernambucana tem trabalhado na redução da pegada de carbono até 2050, que prevê um aumento do PIB em 6%. Para apoiar na iniciativa, a Comunitas financiou dois estudos referentes à mobilidade urbana para promover uma eletrificação da frota dos modais de transporte público. “Pelo menos 50% da frota pode ser trocada. Só não é 100% por uma questão de topografia da cidade”, declarou ele. 

Roda 2 – Governança e coalizão: O papel da liderança para o futuro do país

A última roda de debate da noite contou com a participação do economista e professor da Universidade de Columbia, José Scheinkman, dos governadores Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG), Rodrigo Garcia (SP) e Helder Barbalho (PA), além do ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, que fez o papel de mediador da mesa, em parceria com Garcia. 

A grande temática desse painel girou em torno da importância de superar as desigualdades sociais no país e de como a floresta Amazônica em pé é um importante ativo econômico para o Brasil, tanto no sentido de gerar trabalho e riqueza para a população local, como pela possibilidade de sequestro de carbono para comercializar no mercado financeiro global.

O desmatamento da Amazônia não é apenas uma consequência da busca de lucro desenfreado de alguns setores da sociedade, mas também da pobreza e da falha do poder público de promover um debate com a população acerca do tema. “O grande desafio para o próximo governo é a desigualdade social. É criar oportunidades de trabalho e resgatar essa parte da população, para que eles sejam criadores de renda e riqueza, ou perderemos essas pessoas. Existe uma urgência da criação de estratégias para que possam enfrentar esse novo desafio causado pela pandemia e pela desorganização no mundo”, defendeu Rodrigo Garcia. 

De acordo com Ronaldo Caiado, para que a economia verde se sustente como uma lógica econômica, é preciso levar em consideração o tripé que envolve inclusão social, recuperação de áreas degradadas e integração entre agricultura, agropecuária e floresta. Além disso, também é necessário investir em pesquisa para que o Brasil não perca a oportunidade de assumir a vanguarda da corrida energética. 

José Scheinkman salientou que o importante, agora, é olhar para o futuro e citou exemplos de como programas de inclusão social, como o Bolsa Família (agora Auxílio Brasil), são fundamentais para o desenvolvimento do país. Além disso, ele mencionou o avanço da qualidade da educação no Ceará e que é importante que gestores públicos copiem iniciativas que deram certo em seus territórios. 

Para ele, a Amazônia – e a economia verde em particular – é uma grande oportunidade para o Brasil. Pesquisas têm mostrado que o uso da biodiversidade da floresta é muito mais lucrativo do que a criação de pasto, mesmo que gere um pouco de emissão de gases do efeito estufa. “O mercado de carbono atingiu € 100 por tonelada de carbono. O trabalho de reflorestamento, bem como uma regulação do mercado de carbono, é importantíssimo para que esse pagamento do crédito venha para o país”. 

Lançamento da publicação Governança Público-Privada no Enfrentamento à Covid-19

Construir uma fábrica de vacinas é um desafio enorme, ainda mais quando envolve 75 empresas, que financiaram o projeto da nova Fábrica de Vacinas do Butantan, e a gestão pública.

Para organizar todo o processo, a Comunitas desenvolveu e implementou uma metodologia inovadora de governança para garantir a transparência da gestão dos recursos, das obras civis e das demandas governamentais e da sociedade. E é justamente disso que se trata a cartilha.

A publicação também conta com textos redigidos pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, no qual ele fala da importância da fábrica para a ampliação da oferta de vacinas no país; do cientista político, Fernando Schüler, em que ele aborda o legado da obra para a saúde no Brasil; e do secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, onde ele discorre sobre o olhar para o futuro – apesar das incertezas da época.

A nova Fábrica de Vacinas do Butantan vai mudar o cenário de produção de vacinas no país porque, além de aumentar a capacidade de produção de diversos tipos de imunizantes, o CPMV também se tornou um grande case da parceria entre o poder público e a  iniciativa privada brasileira. 

 

Gostou desse conteúdo? Então não deixe de assinar a nossa Newsletter e fique por dentro de todas as novidades da Comunitas!

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.